Vamos falar sobre Fantasia Urbana?

a-mans-fantasyHá algum tempo, participei de uma palestra sobre os tipos de fantasia presentes nos cenários de RPG, e como o RPG bebe diretamente da fonte da literatura, é comum que esses dois gêneros dividam características. Uma delas é a utilização de nomenclaturas, então durante a palestra tivemos discussões sobre os conceitos de baixa fantasia, alta fantasia, etc. Mas o embate real começou quando citaram o nome fantasia urbana.

Vamos procurar entender uma parte da discussão, segundo minha visão de mundo (olha a audácia do cavalo, Valdeci!). Alguns compreendem como fantasia urbana aquelas histórias que tenham elementos ficcionais ocorrendo dentro de um agrupamento humano estabelecido, que dentro de certo limite matemático, possamos chamar de cidade. Isso coloca a fantasia urbana presente em todos os períodos históricos a partir da velha babilônia, pois em todos os tempos houve agrupamentos humanos fixos próximos a cursos de rios ou grandes depósitos de água. Prego batido, ponta virada?

Ehh… Não.

Essa ideia tem um problema: haviam agrupamentos humanos que se enquadravam no momento matemático, mas não no que possamos chamar de cidade propriamente dita, como por exemplo, entrepostos comerciais, acampamentos militares, zonas de peregrinação religiosa… Alguns desses exemplos mantinham um índice demográfico constante com uma população variável. Era possível a presença de residentes fixos, mas não era condição de existência.

O que nos coloca na segunda ideia: O ponto temporal. Algumas pessoas podem dizer que uma cidade pode ter existido apenas em um determinado momento e algumas pessoas podem até mesmo apontar como exemplo o festival de Woodstock…

Novamente… Não.

Esse exemplo temporal é falho por vários motivos, um deles, o mais frágil e mais incisivo de todos é que por mais romântico que possa ser, o tempo só se move em uma direção. Para que um conglomerado humano exista, tem que haver um ponto de partida, alguma coisa que dispare a necessidade de proximidade, um desenvolvimento e um ponto final; assim funciona a entropia das coisas. E antes de tudo, o dito festival tinha o apoio de uma cidade pequena que sofreu terrivelmente com o mesmo.

Outro ponto defendido por alguns, é simplesmente o fato de que a fantasia urbana estava ligada diretamente ao conceito de cidade. Essa “falha” pode ser devida à terminologia derivada da palavra urbano, que vem de urbs e que significa tudo relacionado à cidade, mas assim como outras palavras, a palavra urbano também evoluiu e tem agora um significado mais complexo e mais aprimorado: Urbano é tudo aquilo que está relacionado com a vida na cidade e com os indivíduos que nela habitam, por oposição a rural, que é relativo ao campo e ao interior.

O meio urbano tem características específicas que contrastam com o meio rural, como densidade populacional, infraestrutura moderna (vias públicas, transportes, escolas, hospitais, etc.), áreas residenciais, comerciais e industriais, opções de lazer e entretenimento, ofertas culturais, hábitos particulares de vida e a azáfama própria das cidades.

O modo de vida urbano também é marcado pela agitação, stress, alimentação baseada em fast-food e alguns problemas socioculturais como criminalidade, conflitos raciais, pobreza, desemprego, entre outros.

Essa evolução no conceito restringe significativamente o que nos podemos chamar de fantasia urbana, mesmo que a presença das cidades seja um fato de longa data, os elementos que moldam uma cidade como um nicho urbano só se tornam visíveis a partir do século XIX. Isso quer dizer que antes disso é paradoxal falarmos em fantasia urbana pelo simples fato de que não havia essa característica antes do citado século.

Enfim, são apenas meus argumentos; se você acha que deve ser acrescentado ou retirado algo, comente!

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Como comecei nesta vida

…de RPG, é claro.

Eu tinha o quê, dezessete, dezoito anos, e tinha acabado de entrar na ETFRN, que na época era uma espécie de Fortaleza da Solidão para os nerds. Todo mundo que era legal, inteligente e – digamos… alternativo – estudava lá. E era tão bom, que você passava o dia inteiro naquela bendita escola e não notava.

Entre outras coisas, eu tinha vários amigos, mas havia um grupinho fechado específico, aquela galerinha que sempre saía junta. E um deles, como eu, também gostava de escrever. E um pouco antes, havia escrito uma pequena estória em capítulos curtinhos, para a namorada dele e uma amiga. Quando ele me contou, veio o estalo: que tal fazer isso a duas mãos?

Nascia aí uma pequena crônica de uma comunidade de seres sobre-humanos, misto de X-Men, Arquivos X e novela das seis (ainda não existia Malhação). Todos os personagens eram baseados na turminha que sempre conversava e saía junta, e todos os eventos – escrevíamos um episódio por semana, com umas cinco páginas cada – eram diretamente influenciados pelo que acontecia na semana.

Assim, se alguém tivesse um arranca-rabo com o coordenador do curso no mundo real, era sua contra-parte que estava sendo atacada pelos ameaçadores soldados da Espiral Negra, a força paramilitar de elite secreta da ONU que tentava exterminar todos os para-humanos genemax (nossas contrapartes na estória). E rapaz, era divertido. Todo mundo curtia, exceto por uma namorada que eu tinha à época, que brigou com a turma e exigiu que eu retirasse a “personagem” dela da estória. Ela saiu, mas a estória ficou.

A cada semana, nós alternávamos a autoria entre eu e meu amigo, sempre seguindo de onde o outro havia parado. Nesse meio-tempo, os personagens se reuniram em Nova Iorque, vindos de vários locais do mundo, tiveram romances, invadiram escolas e mansões para salvar para-humanos ameaçados, fugiram para a Europa através de teleporte em massa, duelaram cantando pneus nas estradas de Paris a bordo de uma Ferrari Warp, a 400 km/h, morreram, renasceram, morreram de vez, bateram de frente com o comandante da Espiral Negra, foram auxiliados por uma dupla de supermodels para-humanas, invadiram o quartel-general da Espiral – Enfim. Foi muito divertido.

Nos reuníamos assim que cada capítulo ficava pronto e líamos, todos juntos, cada um se exaltando com o que fazia seu “personagem”. E dávamos pitacos no que ia acontecer no próximo capítulo, quem íamos encontrar, para onde viajar… Era muito, muito bacana.

Pouco depois, saiu uma revista da linha da Superinteressante, uma edição especial de jogos. Tinha variações de jogos de lógica, palavras cruzadas, e… um RPG. Era uma aventura bem simples, criada pelo pessoal que depois viria a lançar o primeiro RPG nacional, Deimos Corporation. O sistema de jogo era tosco e cheio de falhas, mas era um jogo de RPG, e lembro que eu e o Misael mestramos a mesma aventura um para o outro até a exaustão. Aí o Betho-San entrou na jogada, seguido pelo André Farkatt. Sabíamos que existia um pessoal no eixo Rio/São Paulo jogando um tal de Dungeons & Dragons, graças ao fanzine/boletim da Devir, O Recado, mas todo mundo era duro naquela época e só tinha grana para comprar um quadrinho importado por mês, se tanto. Então era improvisando nas regras que vinham com a revista que saciávamos nossa sede recém-descoberta por RPG.

Em 1991, quando já não aguentávamos mais usar o sistema da aventura – todo remendado para incluir regras para magia, psiquismo e viagem no tempo -, o pai do Misael trouxe a primeira edição do GURPS em português (era a 2ª edição norte-americana), vinda direto das Comic Shops de São Paulo. Misael largou o livro nas minhas mãos e disse “vai, mestra alguma coisa”.

E estou nessa até hoje. Lá se vão… nossa, quase vinte anos. E sem nenhuma gota de arrependimento.