Resenha: Jovian Chronicles

JC-CoverJá ouviram falar de Jovian Chronicles? É um RPG da editora Dream Pod 9, cujo título podemos traduzir como “Crônicas Jovianas” (em referência ao planeta  planeta Júpiter, ao redor do qual giram as estórias do cenário). A editora, especializada em jogos de simulação estratégica de combate entre mecha (no estilo Battletech), publicou este RPG em 1992 como um par de módulos licenciados do RPG Mekton, da R. Talsorian Games (que, entre outras coisas, publica o Cyberpunk 2020). Em 1997, eles publicam o RPG novamente, desta vez com seu próprio sistema de regras (chamado de Silhouette) e acompanhado de uma série de expansões do cenário, detalhando suas facções políticas, povos (não há alienígenas) e os planetas do Sistema Solar, onde habita a humanidade, além de variadas naves espaciais, ferramentas, armas, e é claro, mecha.

O visual dos mecha, naves espaciais e personagens de Jovian Chronicles foi desenvolvida por Ghislain Barbe, ilustrador profissional que já havia trabalhado anteriormente para a Dream Pod 9 em RPGs como Tribe 8 e Heavy Gear (este último também de Mecha e um antecessor de Jovian Chronicles). O design final tem uma forte influência de anime, como Battletech e Gundam, tendo tecnologias de Hard Sci-Fi (uma corrente de ficção científica que tenta contar estórias usando as regras científicas conhecidas) como falta de gravidade artificial e viagem mais rápida que a luz.

O Cenário

JC-MechaEm meados do Século XXI, a Terra alcança a marca de 20 bilhões de habitantes, fazendo com que o planeta entre em um colapso social, ecnonômico e político. Começa então o êxodo para as colônias de mercúrio, Vênus e Marte, que há décadas estavam em processo de terraformação, sendo adaptadas para a vida humana. Armada com várias tecnologias médicas, de produção de energia e de engenharia, a humanidade adentra a fronteira do espaço e começa a povoar o Sistema Solar, expandindo-se até o Cinturão de Asteroides e os satélites de Júpiter. Ao final do Século XXI, o governo geral da Terra, uma evolução das Nações Unidas, escapa da turbulência planetária que o lar da humanidade se tornou e instala-se no Cinturão de Asteroides, unindo-se às antigas colônias que declararam sua independência e formam a União das Nações do Espaço.

Cem anos depois, em 2180, um novo poder emerge na Terra — conhecido como Governo e Administração Central da Terra — e entra em conflito com suas colônias para retomar seu laços e seus domínios. É aqui que o cenário de Jovian Chronicles começa:

  • Mercúrio: o planeta mais quente no Sistema Solar, usado inicialmente como fonte de energia e recursos, tornou-se rapidamente o centro de transportes de carga para e sede da Guilda Mercantil. Sua posição os mantêm em neutralidade em relação aos outros poderes solares.
  • Terra: após recuperar-se das Guerras de Unificação, o Governo e Administração Central da Terra desenvolve seus planos expansionistas e seus cidadãos têm dificuldade em entender que as colônias não vêem a Terra mais da maneira como costumavam.
  • Orbitais: tendo milhões de habitantes oriundos de inúmeras etnias e culturas da Terra, as estações que orbitam os pontos Lagrange (órbitas fixas entre a Terra e a Lua) estão novamente sob o domínio do planeta-mãe, mas ainda lembram do período quando a Terra era só devastação sob seus pés.
  • Lua: como os Orbitais, a Lua está novamente sob controle da Terra. Possuem várias cidades adaptadas para produção industrial e uma cultura de trabalho que desncoraja a individualidade em favor da sobrevivência, algo necessário durante os difíceis anos após a Queda.
  • Marte: depois de longos anos de guerra, Marte dividiu-se em uma tensa guerra fria, com a Federação Marciana de um lado — um estado totalitário que apóia o novo governo da Terra — e do outro, a República Livre de Marte, que tende a apoiar a Confederação Joviana.
  • Cinturão de Asteroides: lar daqueles que procuraram afastar-se da sociedade humana pós-queda da Terra e que buscaram forjajr sua própria cultura e estilo de vida, criando bases em asteroides escavados, com vários grupos de isolacionistas e fanáticos.
  • Júpiter: o foco principal deste RPG, é o lar da Confederação Joviana, da qual fazem parte três habitats na órbita de Júpiter. Por sinal, são também o único poder no Sistema Solar capaz de confrontar a força militar da Terra e também de impedir politicamente este conflito.

As Regras

JC-CharatersO sistema Silhouette usa um modelo relativamente simples de Atributos e Perícias, onde o valor das perícias determina o tamanho de sua pilha de dados (usando apenas d6) e os atributos, modificadores para esta pilha (ou seja, alguém com o Atributo de Agilidade 2 e a Perícia Mecânica 4, vai rolar 4 dados e adicionar 2 ao resultado). A dificuldade da ação é definida pelo número-alvo da rolagem (que vai de 1 a 12 ou mais), onde considera-se apenas o dado de valor mais alto — e para cada vez que sair um resultado com 6, adiciona-se +1 ao resultado final.

Temos oito atributos (Agilidade, Aparência, Constituição, Criatividade, Resistência, Influência, Conhecimento, Percepção, Psique e Vontade),  e uma variedade de perícias (classificadas como simples ou complexa), todas adquiridas em um sistemas de compras através de pontos. Características secundárias (como Força e Saúde) surgem da associação de alguns Atributos. Com isso, os personagens são fáceis e rápidos de construir. O livro conta ainda com vários modelos de personagens para facilitar ainda mais o processo. As opções incluem tipos variados, como pilotos de mecha (obviamente), mineradores de asteroides, mercadores interplanetários, operários, artistas itinerantes, mercenários, diplomatas e muitos outros.

E sim, não há alienígenas, embora toda a variedade do gênero humano esteja bem representada.

No fim das contas

jovian-chroniclesSe você é fã de Mecha, de sistemas simples de RPG que são robustos o bastnate para lidar, simultaneamente, com ações de personagens em várias escalas e com material o suficiente — apenas levando em conta o livro básico — para desenvolver sua própria campanha e jogar por anos, não deixe passar esta oportunidade.

Jovian Chronicles se mostra como um RPG ligeiramente datado, mas com um sistema versátil e resistente a abusos, funcionando tanto no nível de personagens como no de combate entre espaçonaves nas profundezas do espaço. O cenário, contudo, é sua maior virtude: com qualquer RPG hard sci-fi, ele envelhece melhor que alguns de seus contemporâneos, e não é difícil de encontrar cópias deles online, embora o preço talvez seja meio salgado (e em dólares).

Graficamente, o livro é uma pequena obra de arte, com belas ilustrações (sempre pertinentes ao conteúdo do texto), uma diagramação clara, precisa e eficiente e cheia de exemplos úteis para resolução das regras e criação de personagens. Embora o cenário tenha algumas limitações (devido ao espaço), há muita informação sobre os vários planetas do sistema solar, sua política, cultura e economia, bem como suas relações com as várias organizações interplanetárias.

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Sombras de Redenção: Somewhere I Belong


No beco escuro explode a violência
Eu tava preparado
Descobri mil maneiras de dizer o teu nome
Com amor, ódio, urgência
Ou como se não fosse nada

O Beco, Paralamas do Sucesso

orctief2Para mim é como se ela sempre estivesse lá.

No bar.

Quando ela entrou a primeira vez, eu estava enchendo a cara com a galera, feito como sempre, bebendo aquela porcaria de cerveja barata de soja, que eles tentam disfarçar o gosto com mijo de cachorro, mas não dá, o gosto de soja sempre aparece no final, pior que mijo de cachorro.

Tudo hoje tem gosto de soja.

Antigamente, não, os mais velhos dizem que era diferente, soja só de vez em quando, mas eles mesmos não lembram do que é que a cerveja tinha gosto. Só sabem que não era de soja.

Mas eu tô mudando de assunto. Eu faço isso o tempo todo, a galera fica zoada, eu mudando de assunto feito um daqueles xamãs de rua trincados na pôrra do totem deles ou sei lá o quê, falando merda sem parar e aí de repente BUM, o cara do lado dele reclamando sem parar do jogo dos Sonics ganha um buraco novo na cara, aberto de dentro pra fora.

Lá vou eu de novo.

Tavam tocando Here She Comes Again, aquela merda do Concrete Dreams que todo mundo acha foda, mas que eu acho que é só mais um mela-cueca depressivo em loop infinito. Mas naquela noite, quando ela entrou no bar, eu achei que era a música mais bonita da minha vida. Porque ela entrou e olhou direto pra mim, como se não tivesse mais ninguém no bar aquela hora e eu fosse melhor de olhar que as cadeiras e mesas. Foi como se ela ficasse aliviada, sei lá. Parece piada, eu valer a pena olhar duas vezes. Ou até uma. Quer dizer, eu sou ork, cara. Quinze anos, adulto, todo feito. Bela merda, se você pensar direito. Não pareço — em quase nada — humano.

Quer dizer… tá, eu sou forte, mais forte que a maior parte dos caras que não são ork nem troll. Mas não sou como o leão de chácara do Chez Gazelle, aquele cara você tem que olhar duas, três vezes pra ver todo, ou pelo menos até ele te olhar feio de volta. Dois metros e sei lá mais o que de altura, e quase o mesmo de largura. Cento e cinquenta quilos? Pelo menos. Só músculo, o cara. Aquele jeitão calado de milico, de meganha, saca? Perigoso.

Não é como eu. Eu sou igual a todo mundo, se todo mundo fosse ork. Mas deixa pra lá.

Ela olhou pra mim do mesmo jeito.

Entrando no bar como se não fosse o lugar mais perigoso do pedaço, caminhando naquele passo tranquilo de quem entra em casa e tranca a porta reforçada e vê que tá tudo no lugar, o alarme tá inteiro e não tem nada faltando. Segurança, sabe? Ela tinha essa coisa. Como se ninguém nem nada ali pudesse fazer mal pra ela. Andava meio dançando, sei lá, meio no passo de uma música que não era a que estava tocando, mas mesmo assim, era música. Dançando uma coisa que só ela ouvia sem parar dentro da cabeça dela e dançando o tempo todo, cada passo. Eu nunca tinha visto nada tão bonito na minha vida, nem em sensorama, nem em BTL, nada. Nada que nem ela.

O que eu tô querendo dizer é que ela não era bonita como gente, como um ser humano – nem como elfo (aqueles cabelos ruivos e dourados por cima do couro negro cheio de cromo e bottons de neon baratos), se você tá achando isso. Ela não era como a gente. Era melhor, muito melhor. Do jeito que eu achava que todo mundo devia ser quando eu era garoto, quando eu tinha um pai.

E isso nem faz muito tempo.

Ela continuou andando na minha direção e eu feito idiota, fiz o mesmo, ouvindo a galera na mesa reclamar, perguntando pra onde eu ia assim de repente, no meio de uma frase, e só pensando ah, pôrra, não deixa eu fazer papel de idiota, de novo, que merda! E eu fiz papel de idiota, claro, mas ela não se importou.

Ela riu da besteira que eu falei e conversamos a noite inteira sentados no balcão, ela derrubando um copo atrás do outro e nunca parecendo ficar chapada, um sorriso atrás do outro e um copo atrás do outro. Eu tentei acompanhar, mas ela estava em outro nível, sei lá – filtro nos rins? Só sei que acordei no meu muquifo no meio da tarde do outro dia, com uma dor de cabeça que era pra ter me matado, que era pra ter matado qualquer um, até o troll que era leão-de-chácara e muito maior e melhor do que eu. Estava nu, suado e com o corpo dolorido; braços e pernas e abdômen e tudo o mais que tem músculo e cansa e não quebra mas cansa pra cacete. Fiquei um tempo estendido no colchão, olhando para o teto coberto de teias de aranha, rachaduras e aquelas fitas luminosas presas só pelos fios que um dia vão despencar e fritar minha cara e eu vou acabar morrendo sem nem acordar. Fiquei pensando que não lembrava nada depois de uma certa dose, que deveria ter chegado em casa como todas as noites, no piloto automático, bêbado e vomitando e com hematomas que eu não lembro onde consegui.

Mas eu não tinha nada dessa vez, nem sangue seco saindo do nariz, da boca e dos ouvidos. Só o corpo cansado, nu e suado e aquele cheiro que flutuava por cima do suor rançoso de álcool e beta-anfetaminas. Aquele cheiro que não era de flores, mas que poderia muito bem ser. Aquele cheiro dela. Escuto um barulho vindo da sala — engraçado que não tem sala, tem um cômodo que deixa de ser sala, cozinha ou banheiro dependendo da posição da divisória de plástico roído e coberto de spray. Podia ser o gato, se eu tivesse gato, ou se gatos cheirassem como as flores do outro lado da vida.

Ela senta no colchão ao meu lado, sua nudez limpa, sem tatuagens nem cicatrizes nem nada e sorri enquanto passa a mão no meu cabelo desgrenhado de um jeito que nem minha mãe faria (se eu tivesse uma mãe). É quando a coisa toda vem, de uma vez só, a noite toda de uma vez só na minha cabeça e por um instante é tão forte, tão extremo, que eu acho que vou estourar uma veia ou sei lá, mas não acontece nada. Eu continuo vivo, com ela ali do meu lado, passando a mão no meu cabelo com um sorriso tão bonito que tem que ser implante.

Ela abaixa a cabeça e me beija e toda aquela sensação parece que piora, até eu entender que não é dor, que não é medo. Que é um alívio que eu nunca senti antes quase me faz chorar; só que o hábito não deixa. E nós nos abraçamos e fazemos a noite anterior parecer um ensaio. Eu fico pensando que minha vida pode até parecer que vai ficar boa, sem tentar me acostumar muito com a ideia. Eu quase acredito nisso. Porque dura muito. Dura semanas.

Tudo parece que dá certo demais enquanto ela tá por perto, enquanto ela tá comigo. Eu posso até esquecer que não tive uma vida antes disso tudo que não fosse feita de brigas e trabalhos de última categoria, de finais de semanas afundando no BTL, na solidão e sentindo que tudo o que você pode fazer é engolir toda a merda que a sua vida virou e que qualquer sonho que você tenha não vale nem o tempo que você dorme para poder sonhar. Porque nada nunca vai ser do jeito que você sonha.

Mas com ela isso não importa. Porque pela primeira vez eu pertenço a alguma coisa. Eu pertenço a essa coisa que não é ela — é isso que nós dois nos tornamos, que nós dois somos juntos enquanto fazemos meu apartamento virar um lar ao invés de um pit-stop de go-gangues. Ela traz a grana pesada — não vou enganar ninguém, nem a mim mesmo, achando que isso tudo mudou tão rápido só porque ela entrou na minha vida. Ela tem grana. Quando eu saio pra trabalhar, eu não sei onde ela consegue o dinheiro. Joygirl? Pode ser. Mas não quero saber, não quero ter ciúme. Só quero que isso não acabe mais.

Porque se acabar, eu vou junto. Às vezes ela me pergunta na madrugada, quando as sirenes e os tiros os canhões anti-tumulto se cansam da vizinhança e tudo que dá pra ouvir são as pessoas do cortiço na frente varrendo os cartuchos vazios da calçada — Por que você vive assim?

Era pra eu aproveitar pra dizer que a voz dela é feito música, mas não é bem assim. É como se ela estivesse acompanhando aquela melodia que parece tocar o tempo todo na cabeça dela, aquela coisa que faz ela dançar pelo dia — bailarina, atleta, ginasta, sei lá.

— Você fala, até parece que dá pra escolher — eu respondo, meio aborrecido, mas não de verdade. Não com ela.

Mas ela sorri sem mostrar os dentes e espera eu responder de verdade. Ela quer que eu fale sobre meu pai.

Quer dizer, ele não é meu pai de verdade. Pra começar, ele é humano. Mas foi a primeira pessoa que olhou pra mim no esgoto onde eu cresci, no pior buraco dos Puyallups, a primeira pessoa que olhou pra mim e não virou os olhos, com nojo, raiva ou medo. Ele se aproximou de mim e disse venha comigo de um jeito que eu não tinha como dizer não, embora não fosse, pensando bem, a coisa mais inteligente pra se fazer. Mas eu só tinha dois anos e nem sabia mais pra que lado ficava a casa com os irmãos e a mãe. Não era meu pai, mas foi a coisa mais parecida que eu conheci.

Ele e os amigos deles. Todos eram humanos, ou quase todos. E todos eram cuidadosos comigo, como se tivessem medo dele, ou tivessem medo de algo que ele pudesse fazer se olhassem pra mim do jeito errado. Mas nenhum deles olhou pra mim de outro jeito que não fosse com um pouco de pena, eu acho. Eu aprendi muita coisa com ele, com meu pai. E com seu amigos. O que eu mais aprendi foi aa sobreviver. Aprendi a lutar, a manter minha palavra, a defender meus amigos. Aprendi a ser um homem. Mesmo sendo um ork. Ele dizia que não fazia diferença, que no fim das contas, somos todos humanos. Eu nem sempre acredito, mas aprendi a sempre dizer isso. Então eu cheguei em casa um dia e ele não estava mais lá. A casa vazia, só um credstick no chão perto da porta — mais nuienes que eu podia gastar num ano. Sem bilhete nem nada. Eu tinha doze anos e já era um homem. Ou um ork.

Foi o pior dia da minha vida, descobrir que eu já era um homem. Mas ela sabia daquilo tudo. Eu já tinha falado daquilo tudo antes, várias vezes, de várias maneiras diferentes. Eu sorri de volta e ela passou a mão no meu braço, querendo dizer que não importava, que aquilo tudo não importava; eu ficava pensando que não importava mais, que bastava ela.

No dia seguinte, eu acordei com uma voz diferente na casa. Foi quando as coisas começaram a mudar.

Ela e uma amiga conversavam na porta, em alguma língua que eu não conhecia. Talvez chinês. A amiga dela parecia chinesa. Ou coreana. Ou tailandesa, eu não sei. Não era japonesa, não tinha aquela arrogância de quem sabe que é melhor do que você, só por ter nascido assim. Era bonita e pequena, feito um brinquedo, como uma daquelas apresentadoras virtuais de SenseTV – AnimeGirl, PixeLass, uma dessas coisas com um símbolo de marca registrada no final. Eu não sabia como ela tinha chegado no bairro sem um rifle de assalto pendurado nas costas, porque tem um mercado negro hoje em dia só pra olhos que nem os dela. Ela me apresentou sem dar nomes. A outra me fez uma reverência, baixando a cabeça quase até a cintura, os braços juntos do lado do corpo. Como se fosse algo muito importante estar ali na minha frente. Eu tentei repetir, mas acho que meu corpo não foi feito pra esse tipo de gentileza e saiu tudo esquisito. Ela não riu, nem torceu o rosto nem nada. Ficou apenas ali, muito séria, me encarando, como se eu fosse Jetblack voltando do túmulo ou coisa parecida. Aí ela se despediu e foi embora.

Naquela noite nós não saímos.

Ao invés disso, ela me abraçou de um jeito como se eu fosse morrer, me beijou e foi embora sem dizer nada, sem levar nada, vestida do mesmo jeito que estava no dia em que nos conhecemos. Eu só pude ficar parado e pensar em como a minha vida era uma merda de novo, e como aquilo só fazia tudo que veio antes parecer pior, muito pior do que ficar sem sonhar — e eu nem sonhava mais antes dela. Aí veio subindo um nó que eu achava que era na garganta, mas era uma coisa maior, que nascia de um buraco sem fundo lá dentro do peito e crescia e parecia que ia estourar, espremendo as lágrimas pra fora, eu só me ouvia rosnando alguma coisa que nem eu entendia enquanto sentia o mundo rodar na minha frente.

Rodando e caindo e quebrando.

A primeira coisa que eu pensei foi em quebrar tudo, em derrubar o apartamento todo com as mãos e pés — eu não sou muito forte, eu não sou muito grande, mas eu posso fazer isso, eu posso quebrar um apartamento inteiro do mesmo jeito que dois caras fortes com marretas. Mas eu não fiz isso. Eu deixei o apartamento em paz e fui brutalizar todos os bares da vizinhança — em especial os que não deixavam mais eu entrar. Não foi bonito, não foi bom pra ninguém mas naquela noite eu não estava bom também, então ficou tudo na mesma pra todo mundo. Em alguns lugares eu pedi, em alguns lugares eu briguei, Mas eu bebi em todos. Em todos.

Eu acho que o dia já estava nascendo quando eu vi que tinha chegado — pela noite de brigas e encontros com a sarjeta e uma neblina vermelha de álcool e estimulantes — no pior lugar da vizinhança. E aqui nos Puyllaps, isso quer dizer muita coisa. Mas era perfeito. A minha vida acabando daquele jeito, na mão de quem eu mais odiava sem nem saber porquê. Go-gangues do caralho. Encostei na esquina que dava de frente pra sede dos caras, um cortiço velho e acabado de primeiro andar onde eles consertavam as motos e davam festas e planejavam as merdas com o bairro todo: Chillers Thrillers. A pior go-gangue da zona, cobrando proteção de todo mundo. Toda semana. Motoqueiros cromados até os ossos, com aquelas tatuagens de fantasmas polinésios cobrindo a pele, viciados em BTL de tortura. Gritei pra o prédio e quem tivesse lá dentro as maiores merdas que eu lembrava e que o álcool deixava dizer. Mas eles não saíram pra me pegar.

Estavam ocupados. Ouvi barulho, não era comigo. Esperei mais um pouco. Era uma festa? Ninguém tinha me ouvido? Cheguei perto da porta, mais suicida que nunca.

Era a maior cena de carnificina que eu já tinha visto; em trídeo, sensorama, na vida real — O cortiço parecia que balançava na minha vista inflamada de bebida e dor, tremendo com o clarão de armas silenciadas que cortavam aquela escuridão traiçoeira da madrugada com munição traçante a mil e quinhentos tiros por minuto. Alguém estava matando os caras do mesmo jeito de quem chuta um cachorro morto: com força e sem remorso.

Fiquei sóbrio de repente, o sangue gelando. Mesmo assim, eu dei mais uns passos pra ver o show. Sobrevivência já tinha deixado de fazer parte do meu estilo de vida desde o começo da noite. Pela porta derrubada, eu podia ver o vão do térreo onde um dia teve uma garagem — coberto de corpos. Acho que quase metade da gangue, sei lá, estavam no chão, no meio de lixo e peças de motos depenadas. Os cartuchos choviam no chão, o bronze cortando uma neblina de pólvora, que era o ar que elas respiravam: a chinesa — agora eu tinha certeza, ela só podia ser chinesa, porque crueldade é um negócio genético — saltava entre as colunas de sustentação e as paredes quebradas, com uma Ingram Neuro em cada mão, dando rajadas curtas com aqueles bracinhos finos que não tremiam nem uma vez enquanto ela cortava os caras na bala de um em um. Era que nem ver um daqueles trídeos velhos de samurais, o mundo passando de câmera lenta pra uns borrões que mal davam pra ver o que tava acontecendo e depois pra câmera lenta de novo. Coisa de dançarino, pelo jeito como ela matava. Parecia que ela tava fazendo um favor pra eles, matando com arte.

A vista ficou turva um instante e eu arriei nos joelhos, sentindo o chão grudento de sangue e óleo e lama, mas não estava nem aí.

Ela estava lá.

Linda, louca e furiosa, correndo pelos destroços do andar de cima, gargalhando enquanto homens com o dobro do tamanho e do peso caíam feito sacos de lixo, morrendo com golpes das mãos nuas, os ossos trançados de titânio e plástico quebrando feito isopor. As mãos com a mesma ternura que fazia amor comigo, com a agilidade de quem tem as juntas girando para todos os lados errados e todos ao mesmo tempo, dançando ao som de algo rápido, pesado e denso e agora eu sabia:

Here She Comes Again.

Tudo terminou muito rápido, também que nem nos filmes. Elas nunca me viram ou nem fizeram nem questão de me ver. Naquela hora eu também não me senti com vontade de me verem. Eu tinha trepado com uma deusa da morte e nossa vida juntos era a mesma que dava à luz membros despedaçados feito plástico barato. A vizinhança me encontrou no mesmo lugar, de joelhos, coberto da cabeça aos pés de borrifos de sangue e sujeira do massacre, pensando que tinha sido obra minha, que eu havia seguido o caminho de meu pai, que — pôrra.

Que eu era um herói.

Mas não tem heróis numa favela.

A noite seguinte, eu passei tentando esquecer do melhor jeito que dava, que era enchendo a cara de novo. Todo mundo fez o possível para me ajudar, achando que eu tava em choque, que eu estava… Sei lá. Mas eu estava só morto por dentro, porque tudo o que eu acreditava e que eu tinha me atrevido a sonhar tinha virado uma piada de merda e de mau gosto.

Depois de três noites o que restou da gangue — fazendo negócios em outro bairro — me encontrou no Matchbox, tentando morrer na boca da garrafa, um gole por vez. Os caras não estavam felizes.

No começo, a dor me deixou feliz. A dor me deixou completo. Eu vi que a minha vida toda tinha sido para esse fim e para esse momento. Mais um ork massacrado em uma briga idiota de bar, por cinco caras com cento e trinta quilos de cromo no corpo. Tudo fazia sentido, tudo estava certo. Eu não tinha nada quebrado ainda. Eles eram cuidadosos e tinham experiência no que faziam. Evitavam os órgãos principais e as artérias, pegando só os lugares onde doía mais. Podia levar uma hora, sei lá, quem sabe mais. Eu sou forte.

Meu pai sempre me disse que eu era forte.

E por algum motivo idiota, aquilo me fez pensar em todo o tempo em que a gente praticava, nas coisas que seus amigos me ensinavam, coisas que um corpo humano — ou o meu, seja lá o que a gente era pra entender quando diz humano — não devia ser capaz de fazer. Como esmurrar ferrocreto, madeira, metal, carne; sem sentir a diferença. Coisas assim. Aquele buraco dentro do meu peito gelou, ficou escuro e perigoso. Não era só por mim. Me pai dizia aquela merda de sempre, éramos todos humanos, e eu pensava que não era bem assim, que não era bem assim, que tinha coisa que faziam diferença, que tinha gente que não ia gostar de mim, pôrra, tinham gente que ia me odiar só porque eu era ork.

E naquele instante, a única coisa que veio na minha cabeça foi se não somos todos humanos, se eu não sou igual a você, por que é que eu tenho que ser menor que você? Aí eu parei de sentir dor.

O primeiro deles, que estava chutando as minhas costelas, foi uma coisa meio descuidada, agora eu sei. Mas as botas com biqueiras de metal dele incomodavam, então eu quebrei a perna do cara na altura em que o fêmur se encontra com o quadril. Algumas coisas você nunca esquece. Basta um movimento rápido, do jeito certo, sem precisar nem de muita força. Mas eu usei muita força. E eu sou forte, muito forte. Os outros deram pra trás quando me viram deitado, segurando uma perna inteira na mão, me encharcando de sangue enquanto seu amigo estrebuchava do meu lado, com um jato de roxo arterial escapando do lugar onde devia ter uma coxa. Levantei do chão, os caras com os olhos presos em mim sem entender. Mas eu entendia tudo.

O resto foi fácil. Não foi bonito.

Mas foi fácil.

***

— Juan.

— Diz.

— O que você vai fazer agora, cara?

— Hein?

— Cê vai começar sua gangue, cara?

Eu baixei os olhos pro chão e pensei bem. O chão do Matchbox tava limpo, o sangue lavado e desinfetado já tinha mais que um dia. O cheiro de morte, de açougue tinha sumido e deixou só o de álcool e anfetaminas de terceira que era a marca registrada do lugar. As coisas estavam mais claras na minha cabeça: gangue não. Gangue era coisa do tempo em que eu era garoto, que correr solto na rua e fazer merda sem saber nem por que, era só o que a gente tinha. Mas eu era um homem agora e tinha que ter sonhos de homem.

E porque meus sonhos sozinhos não iam pra canto nenhum, eu respondi:

— Não. Sem gangue. Só a gente. Só o bairro todo.

E ele foi chamar todo mundo.

Sombras de Redenção: Blaze of Glory

Há uns dez anos atrás, quando eu estava narrando em Shadowrun 2ª Edição, escrevi uma série de contos com personagens centrados no tema principal da campanha, a redenção de criminosos profissionais em prol de um mundo melhor (sério!). Embora possa parecer inverossímil a princípio, foi uma mudança de rumo interessante e que deu origem a quatro pequenas estórias de NPCs que apareceriam esporadicamente dentro da campanha para orientar os personagens dos jogadores. Esta foi a primeira que escrevi:

Shadowrun: Anarchist Berlin, by raben aas

“Eu não miro com minha mão.
Aquele que mira com sua mão esqueceu a face de seu pai.

Eu miro com meu olho.

Eu não atiro com minha mão.
Aquele que atira com sua mão esqueceu a face de seu pai.

Eu atiro com minha mente.

Eu não mato com minha mão.
Aquele que mata com sua mão esqueceu a face de seu pai.

Eu mato com meu coração.”

— A Litania do Pistoleiro, Stephen King.

Eu digo e repito: nunca mire na cabeça. Mirar na cabeça só vai resultar em uma bala perdida (se você não tiver a mão firme ou um bom compensador de recuo) ou em um cadáver. E a guarda do Metroplexo não paga por cadáveres, a menos que eles sejam classificados como integrantes dos cem mais procurados pelas agências policiais da UNECAN ou dos EACON. Contudo, os EACON têm o hábito de fazer vista grossa se o prisioneiro ainda estiver vivo — mesmo se for por pouco tempo.

Assim, a maior parte dos meus serviços vai para os EACON. É simples, na verdade.

Eu deveria dizer que o trabalho em si não é simples, bem como o seu aprendizado. Na verdade, a única coisa fácil são os horários, a liberdade de escolher seu equipamento (caçadores de recompensa licenciados têm acesso à maior parte do instrumental padrão da polícia — sim, mesmo Lone Star) e de definir quais tarefas serão executadas e em que ordem.

Todo o resto é difícil, muito difícil, e eu não recomendaria este trabalho para ninguém, a menos que você goste de passar a maior parte do seu tempo em uma dieta de bagana e café gelado. Se você tem algum vício pessoal (eu estou tentando largar os cigarros, são péssimos para a visão noturna), eu também aconselharia a largá-lo ou procurar outra atividade.

Não há nenhum treinamento institucionalizado para a atividade, e se houvesse, eu não sei se seria capaz de apontar uma boa escola. Caçar gente na rua é uma coisa que só se aprende na rua. Ponto final.

— Comece com a comida. O que você come?

— Bom… Eu estou fazendo uma dieta, sabe?

— Pra quê?

— Pra quê? Bom, pra emagrecer. Eu sei que sou gordo, e isso é ruim nessa profis — Ai! — O que eu disse de errado?

— Primeiro, que queria emagrecer. Depois, que caçar era uma “profissão”.

Eu fiquei esperando um segundo ou dois antes de abrir a boca de novo. Não queria levar um outro tapa daqueles. Como não veio, eu perguntei, desta vez já preparado:

— E o que é, então?

Ele coçou a cabeça, impaciente. Tinha a cara de quem tenta explicar alguma coisa muito simples para um retardado e a explicação possível mais simples não foi o bastante. Na verdade, eu levei muito tempo pra entender essas coisas pelo rosto dele. Kane não é o que se pode chamar de expressivo. Aliás, é Kane, não “sensei” ou “mestre”. Chamar ele de “mestre” ou “sensei” garante que você vai levar uma surra ao invés de um tapa na cabeça.

E os tapas já são ruins o bastante. Achei que ia ter um derrame ou coisa parecida depois da primeira semana.

— O que acontece quando você vê um cara gordo na sua frente? Querendo confusão?

— Bom, se ele for forte…

— Não. Só um cara gordo, do seu tamanho, do seu peso.

Pensei um instante em como eu pareço no espelho. Não é grande coisa. Tenho um metro e setenta e coisa de uns cento e vinte, cento e trinta quilos, dependendo da semana de rodízio de pizza. Uso o cabelo comprido preso num rabo-de-cavalo (não é tão comprido assim) e cavanhaque. O tipo de cara que você para pra rir quando encontra na rua.

— Eu acho graça… certo?

Foi a primeira vez que vi a coisa mais próxima de um sorriso aparecer no rosto dele.

— Sim. É isso que todo mundo acha. Um cara gordo e pequeno é só para fazer rir.

Eu acho que devo ter mudado de expressão de uma forma muito drástica, porque no instante seguinte, ele disse:

— Esta é a primeira coisa que você aprende comigo. E é a mais importante. Não porque é a primeira, mas porque é sobre você.

— Porque eu sou gordo?

— E ninguém vai achar que você é capaz de alguma coisa. Ninguém vai levar você a sério. O que acontece quando ninguém acha que você é uma ameaça? — eu tive que pensar um instante pra responder, mas a resposta veio logo.

— Todo mundo vai baixar a guarda perto de mim. — era simples.

— E essa é a segunda coisa que você aprende comigo: um inimigo de guarda baixa é um inimigo pela metade.

Eu assenti e quase disse “sim, sensei”. Mas a cabeça já doía o bastante, então eu achei que na verdade, tinha aprendido três coisas naquele dia.

E às vezes o trabalho nem compensa tanto. Veja só o meu caso: esse cara que eu estava caçando devia mais de trezentos mil nuyens em golpes de credstick em variadas transações dentro de bancos e lojas de conveniência. Pura esperteza; nunca usou uma arma, só crédito falso e empréstimos em contas fantasmas pela Matrix. Claro, ele não deve agir sozinho. Pode ser uma quadrilha, ou só ele e um tecnauta experiente que prepara o terreno.

Você começa daí.

A recompensa não é muita coisa, mas o banco pode se mostrar agradecido e abrir uma linha de crédito pra você. Quando sua maior despesa são custos de manutenção com armas, munição e equipamento de vigilância, uma linha de crédito nunca é demais.

Então você passa uma semana chacoalhando seus contatos, outra semana perguntando nos vizinhos para confirmar o endereço (o truque é nunca dar a impressão que você quer achar o alvo: diga que é o funcionário de uma firma legal que tem que fazer um pagamento a ele e que você está aliviado por não encontrá-lo; o dinheiro acabará ficando com a firma).

E é aí é que o trabalho de verdade começa.

Não foi difícil arrumar um lugar perto da residência dele. O alvo é esperto e mora em um apartamento de classe média, num condoplexo discreto e sem muitos luxos. Nem aparenta ter todo aquele dinheiro em notas de crédito e credsticks avulsos legalizados através de sabe deus quantas operações de lavagens de dinheiro automatizadas na Matrix.

Você monta o equipamento de escuta, os grampos de linhas de comunicação, instala câmeras e espera; com sorte, mais uma semana.

Um mês depois, você já sabe que ele realmente tem um tecnauta trabalhando pra ele(anão, por sinal. Deve haver um clichê maior, mas esta não é minha linha de trabalho), que eles se encontram duas vezes por dia no apartamento, e que o alvo tem uma namorada que deve ter investido pesado em implantes cosméticos. Algumas vezes esta atividade vale a pena.

Aí é hora de fazer a prisão.

Isso quer dizer que você pega uma arma leve, carrega com munição não-letal, leva um taser só por precaução e se achar que vai ter problemas, uma arma extra. Pra garantir, duas granadas de ofuscamento, coloca uma blindagem leve e pronto: você já pode chutar a porta, dar voz de prisão e ir até a representação dos EACON mais próxima pegar o dinheiro.

Bem simples, né?

Só que não.

— Como você mata alguém?

Kane às vezes faz essas perguntas que parecem idiotas na primeira vez que se ouve, mas que depois de três ou quatro tapas, tornam-se verdades sábias, gravadas a fogo no fundo da sua alma. Geralmente ele espera até que você esteja fazendo algo que precisa de muita concentração e força, como disparar um fuzil de assalto em modo automático e conseguir que todas as balas caibam num círculo de dois centímetros e meio no centro do alvo.

— Com uma arma?

Ele virou a cabeça de lado, como se considerasse a pergunta.

— E o que é uma arma?

— O que eu estou segurando?

Dizer que os tapas vêm sem aviso é enunciar o óbvio. Ele estava a dois metros de mim, mas no instante seguinte, estava no local onde eu me encontrava de pé, segurando meu rifle descarregado enquanto eu rolava na poeira, a quatro metros dali.

— Errado.Você é a arma. Estas coisas grandes e desajeitadas que cospem pedaços de chumbo são apenas ferramentas. Não são nem mesmo extensões de você. Só servem para encurtar a distância até seu alvo, enquanto você for um aprendiz.

Claro, claro. Eu deveria saber disso. Ele me massacra há semanas, mesmo eu sendo capaz de cortar qualquer outra pessoa ao meio com uma arma automática. Um aprendiz.

— Quando você for um profissional, lembre-se de que estas coisas têm uma função muito simples, que é inferior à que você possui.

E com um movimento que eu não posso estar certo de ter visto por inteiro, ele recarregou o M-23 e disparou com displicência, a arma firme na altura do peito, quase não olhando para o alvo e usando uma só mão. Todas as balas passaram pelo mesmo buraco, em três ponto dois segundos.

Um aprendiz.

A essa altura, você já conhece as rotinas principais de todo o prédio, e pode passar pelos corredores e subir no elevador sem ninguém te ver. A segurança desses lugares de classe média é pequena: nada de vigias, apenas umas câmeras baratas que às vezes funcionam e um botão de AtivaAlerta da Lone Star em cada apartamento. O mais importante é que você não chuta a porta. Você coloca umas poucas gramas de explosivo plástico nas dobradiças e na fechadura. Detone-as, e jogue uma granada de ofuscamento logo em seguida.

O resto deveria ser simples.

Mas eu não contava que o tecnauta tivesse duas Berettas 101T com munição explosiva e a namorada, mais implantes de combate que o go-ganguer médio. O alvo ficou gemendo no chão, com a mão nos olhos, atordoado, cego e molhando as calças enquanto eu começava meu aviso de prisão.

Quatro tiros mal dados abriram buracos na parede acima e à esquerda da minha cabeça. Duas armas em cada mão é um pouco demais, mesmo para mim. Não é de se espantar que o tecnauta tenha errado. Agora, a namorada é outra conversa. Ela esticou o braço na minha direção, mostrando a palma da mão com os dedos bem abertos, sem mostrar nenhum sinal de estar ofuscada. Eu sabia que o anão contava com uma visão termográfica residual, mas ela deveria ter algum tipo de compensação ótica. Enquanto eu perdia tempo pensando nisso, um trem de carga de doze vírgula cinco milímetros me atropelou e quase que a noite acaba ali mesmo.

— E se as coisas derem errado durante uma caçada?

— Nada dá errado. Você pode fazer elas darem errado.

Mantive minha expressão idiota de quem não tinha entendido nada. Era bem melhor do que dizer algo errado e ganhar mais um hematoma na cabeça.

— Quando você não planeja, quando você acha que sabe o bastante sobre o alvo. Aí você faz as coisas darem errado.

— E aí? O que se faz?

— Você morre.

Engoli em seco. Não gostava de pensar nesse tipo de resultado.

— Mas você é um aprendiz. Aprendizes costumam ter sorte, no começo.

— E os profissionais? Se não têm sorte, têm o quê?

Quando levantei meu corpo dolorido do chão e me dei conta de que desta vez, o nariz tinha sido definitivamente quebrado, ele me disse:

— Profissionais não precisam de sorte.

Tirei a mão do nariz, coberta de sangue. Naquele momento, ele me pareceu a coisa mais próxima da morte que eu já tinha conhecido. Kane suspirou.

— Eles têm coisa melhor.

Encostei o corpo no que restou da porta, ainda presa por uma dobradiça à moldura e disparei com a arma na mão esquerda em direção ao tecnauta. Ele não era o alvo mais importante, mas com duas armas atirando ao mesmo tempo, uma hora ele ia acertar alguma coisa, mesmo que levasse a noite toda.

Obviamente, eu não tinha a noite toda.

Foi por isso que trouxe as minhas Berettas 200ST. Uma delas ia para o chão, porque com a mão direita eu sacava o taser. Mas a da esquerda colocou seis cartuchos de gel no esterno do tecnauta. Quase pude ouvir o osso partindo enquanto ele caía desacordado e muito provavelmente precisando de assistência médica. Mas eu tinha outras coisas para me preocupar. A namorada do alvo, por exemplo. Como eu imaginava, a espingarda implantada no braço só tinha um cartucho. Um recurso defensivo comum em quem tinha membros bioeletrônicos como necessidade profissional.

Infelizmente, não era só o que ela tinha.

As lâminas saltaram sob as unhas — todas as dez. Cromadas e brilhando sob a luz indireta da pequena sala, elas descreveram um movimento duplo fechado sobre meu braço esquerdo, que teria sido cortado fora na altura do cotovelo, se não fosse pela armadura anatômica. Lembrem-se bem disso: proteção corporal nunca é demais. Mesmo assim, aquele braço já era, pelo menos até eu poder costurar os tendões de volta no lugar.

— O que eu faço com a dor?

— Ignore.

— Falar é fácil…

Arregalei os olhos, não acreditando que tinha dito aquilo em voz alta. Mas tinha sido um dia difícil, e Kane parecia estar particularmente mal-humorado. Trinquei os dentes e relaxei o corpo, esperando pelo tapa, mas ele não veio. O que havia de errado? Ele olhava para mim como se fosse pela primeira vez.

— É verdade. Falar é fácil. — ele ponderou por mais um instante, como se estivesse decidindo se eu era digno ou não da informação — as a dor pode ser ignorada, embora você não deva se acostumar com isso. A dor não deve ser esquecida. Ela também é sua aliada. A dor lhe ensina.

Bom, era verdade. Kane me dava muitas lições todo o dia, e a maior parte envolvia o quesito dor.

— Então eu não devo ignorá-la?

— Não. Você deve abraçá-la. A dor é sua amiga. Ela lhe lembra de que você está vivo.

É aqui que se diferencia o novato do veterano: você tem garras de carbono, um braço bioeletrônico, uma arma implantada, reflexos ampliados e olhos bioeletrônicos com amplificação luminosa e compensadores de ofuscação. Um gordo de sobretudo com rabo-de-cavalo e cavanhaque chega na sua frente gritando ordens, e ele não apenas perde uma arma, mas deixa a outra cair, logo antes de você transformar o braço dele em espaguete. O que você faz? O que todo mundo faz.

Ela riu. Riu e avançou para terminar o serviço.

No tempo em que levou para rir, eu saquei a Defiance Super Shock — modelo padrão, modificado para usar dardos capacitores —, destravei, regulei para carga máxima e rajada automática. Ela recebeu os quatro dardos no pescoço de uma vez só.

Cada dardo tem uma carga nominal de cinquenta mil volts. Um dardo não é letal, geralmente. Mas ela recebeu quatro. Faça as contas.

Seus bioeletrônicos fritaram antes do cérebro, o que permitiu um grito engasgado e um passo para frente, de forma a poder morrer tranquilamente aos meus pés.

Olhei ao redor. Dez segundos haviam se passado. A namorada guarda-costas estava morta, o tecnauta respirava com dificuldade pela boca, através de uma barba de espuma avermelhada e o alvo estava morto, com dois buracos fumegantes nas costas.

Como eu disse, uma hora o anão ia acabar acertando.

Antes que as sirenes chegassem, eu já estava no térreo, com a chuva começando a cair com uma irritante disposição para terminar o que poderia ter sido uma boa noite de trabalho. O que tinha dado de errado? Passei as horas seguintes costurando o braço e empacotando o equipamento. Do outro lado da rua, o bloco de apartamentos do alvo fervilhava de testemunhas, policiais e mídia. E eu não sabia quem era pior.

As coisas estavam diferentes naquele dia. Kane estava sentado na mesa — inacreditavelmente vazia —, sem sua habitual carga de diferentes armas, munições e kits de limpeza e lubrificação. Não haviam alvos no estande de tiro. O lugar nem mesmo cheirava do mesmo jeito.

— Qual é seu maior medo?

Aquilo era meu maior medo. Quando ele me ensinava algo novo, que eu nem tinha idéia do que seria.

— Da morte?

— Você já está morto, menino. Desde que nasceu. Foi a primeira coisa que aprendeu, quando eu te encontrei. Você aceita isso, ou desiste. O que mais?

Morrer não era. Sofrer? Não, dor também não. Do que eu tinha medo? Foi simples descobrir: bastou olhar para a mesa vazia de armas, das coisas que eu conhecia intimamente e nas quais confiava minha vida e minha recém-descoberta arte. Ele acenou com a cabeça, confirmando meu pensamento.

— Hoje você vai aprender que tudo isso é besteira, que tudo isso que eu venho lhe ensinando só serve como peso de papel quando está sem munição. Mas o que é que nunca fica sem munição?

Eu olhei para minhas mãos desarmadas, tentando entender. Fiquei ali um longo tempo, imaginando que tipo de arma não ficava sem munição. Só quando deixei de olhar para o que não estava nas mãos foi que entendi. Fechei os punhos com firmeza até que os nós dos dedos ficassem brancos e olhei de volta para ele.

— Bom. Vamos começar. Mas não se preocupe: eu trouxe algo pra você.

E saiu da mesa, mostrando a caixa de primeiros socorros que ocultava com o corpo.

Acho que ficamos ali por três dias, não sei bem. Também podem ter sido três horas. Depois de um determinado pornto, o tempo deixou de fazer sentido. O soco começou sendo só um soco, depois deixou de ser só um soco e finalmente voltou a ser só um soco. Eu não sei. A única coisa que ele me disse foi para bater com força, bater no lugar certo e para bater sempre primeiro.

E também fez questão de não parar até que eu tivesse conseguido quebrar seu nariz.

Eram três me esperando no apartamento, apesar de todos os alarmes e todas as precauções. Apesar dos sensores de infravermelho na porta e nas janelas e apesar dos explosivos acionados por pressão embaixo do carpete de entrada.

Eu realmente odeio ninjas.

Mas quando você mata uma guarda-costas oriental de um estelionatário em ascensão a serviço da Yakuza, o que mais você pode esperar senão a Yakuza? Pelo menos eles eram profissionais também. Não é tão ruim morrer quando há profissionais cuidando de você. Não é vergonhoso nem desonroso. É apenas ridículo.

O primeiro saltou sobre mim da escuridão da sala, brandindo uma droga de uma espada samurai. Aposto que estava coberta de dikote, pelo reflexo e pelo som enquanto cortava o ar em direção à minha cabeça. Ele não era o problema. Em algum lugar da sala, seus dois companheiros esperavam que eu me concentrasse nele para descarregarem duas espingardas de assalto na minha direção. Quem sabe até com munição perfurante, ou se eu estivesse realmente com sorte, flechette.

Eu sabia que o imbecil da espada deveria estar blindado da cabeça aos pés, com aquele capuz colante mostrando só os olhos. Então, atirei nos olhos.

Olhos são um alvo fácil, brancos e brilhantes, refletindo de volta toda a luz ambiente quando olham para você. O resto do pente da minha 200ST foi para ele. À queima-roupa e através de tecido macio, até mesmo projéteis de gel não-letal fazem um bocado de estrago. Atravessam a órbita do crânio e esmagam os ossos frágeis acima da cavidade nasal, enviando uma chuva de fragmentos para o cérebro.

O truque é pular no chão enquanto faz isso, com a arma em modo de rajada e um braço inutilizado.

Eu rolo para o lado do capanga número dois — fácil de identificar pelo desodorante barato e ineficiente —, ouvindo as espingardas pulverizarem o local onde eu estava meio segundo antes. Centro e trinta quilos de corpo humano são uma coisa impressionante quando acertam nas pernas de alguém. Fazem ela literalmente subir no ar. No escuro, com a adrenalina jorrando de todos os poros, com seus implantes oculares ofuscados por disparos contínuos de espingardas, o capanga número três fez o melhor que pôde e descarregou o resto de seu pente — eu contei os tiros de cada um deles — no seu colega, que me cobriu de sangue alheio e estofamento do sofá.

Deviam estar usando espingardas CMDT sem neuroconexão, ou ele não teria pressionado convulsivamente o gatilho por dois segundos inteiros após a munição ter acabado. Agora, existe uma coisa importante a se saber sobre mim. Eu sou gordo, uso um rabo-de-cavalo e cavanhaque. As pessoas tendem a confundir isso com estar fora de forma. Não é o caso. Boa parte dos meus centro e trinta quilos é composta de musculatura sólida, que eu cubro com gordura cuidadosamente cultivada por idas frequentes a restaurantes de comida italiana e africana. É fantástico o que o amido pode fazer por você. Faz parecer que você é apenas mais um gordo lento e desajeitado, outro alvo fácil.

Faz você parar para rir.

No primeiro segundo, eu estava de pé, e no seguinte, esmurrando seu pescoço exposto com o punho fechado, colocando o meu peso e a velocidade do deslocamento por trás de tudo. Isso é outra coisa que eu aprendi: artes marciais são besteira. Você só precisa saber onde bater, com força e com precisão. Todo o resto é inútil.

Ele esguichou alguma coisa pela boca dentro de sua máscara e caiu, talvez com o pescoço quebrado. Eu não sei. Mas quando eu bato desse jeito, ninguém levanta — pode ser ork ou troll, não levanta mais.

Eles não eram nem uma coisa nem outra.

Juntei o que cabia no carro e saí sem fechar a porta.

Aquele dia foi diferente dos outros, porque foi quando eu aprendi o que ele tinha de melhor para me ensinar.

— Hoje é sua última aula.

Por um instante, eu achei que íamos ter um daqueles duelos mortais entre aluno e mestre. Com o sobrevivente do que só poderia ser um combate até a morte conhecendo seu destino definitivo ou procurando outro aluno, dependendo do vencedor.

Tudo bem. Já não levava tapas há semanas, fosse por não perguntar coisas estúpidas, fosse por ter ficado mais rápido.

— A partir de hoje você fica por sua própria conta. A partir de hoje, o mundo lhe ensina. Aprenda bem — eu deveria ter pensado em algo melhor para dizer, mas tudo o que saiu, sem gaguejar, foi:

— Qual… qual é a diferença?

— A diferença é que quando você erra comigo, você leva um tapa na cabeça e se levanta pra entender onde errou. Com o mundo, você não levanta mais. Aprenda bem. Eu fui muito displicente com você, mas você aprende rápido. Continue assim. Continue vivo.

E jogou algo para mim.

Identifiquei o que era antes de ver o brilho da prata nos detalhes bem-cuidados, nas gravações feitas no corpo de titânio no calibre quarenta e cinco. Couro de verdade com enfeites simples em filigranas e baixos-relevos em símbolos arcanos. Sete tiros cada.

— Seis para seus inimigos. O último para o inimigo do mundo. Aprenda.

— Quem é o inimigo do mundo? — perguntei, levantando os olhos da armas.

Mas ele não estava mais ali. Sozinho no grande galpão repleto de armas, munição e alvos. O cheiro de pólvora e propelente sólido parecia um perfume que eu sentia pela primeira vez, o último indício da presença de Kane. Lembro de ter querido chorar como um garoto que perde os pais. Mas eu nunca tinha conhecido meus pais e nunca achei importante sentir saudade do que não tive. Só senti falta daquele maldito velho intratável como se fosse o resto de humanidade que me impedia de sair matando quem eu encontrasse na rua até que a munição ou a sorte acabassem. O que viesse primeiro.

Mas não fiz nada disso.

Prendi o cinturão de couro e ajustei as tiras de suporte nas coxas, mantendo os coldres baixos, na altura ideal para sacar. Os revólveres não tinham neuroconexão — nem eu tampouco —, mas tinham o peso e o equilíbrio que você espera na espada do anjo da morte, forjada no inferno e temperada no sangue da besta do apocalipse. Coloquei doze tiros de cada uma em único buraco no centro do alvo.

A sétima bala eu guardei.

Naquele dia, eu aprendi a coisa mais importante: que só ia morrer quando fosse velho ou idiota demais, ou ambos. Mas como eu não era mais idiota, e iria demorar a ficar velho, decidi viver da única maneira que tinha conhecido.

Tenho um outro apartamento, agora. E acho que outra vida também. Adeus EACON e Lone Star. Adeus dinheiro fácil e legalizado. Pelo menos parei de fumar. Cigarro é muito mais caro quando você não pode ir numa loja de conveniência sem ver sua cara estampada em 3-D no Confederated American States: Most Wanted logo após o noticiário. Tenho amigos novos, também.

Deixe-me colocar de maneira melhor: eu tenho amigos também. Todos eles sofrem do mesmo problema de má publicidade, e todos fazem trabalhos contra os gigantes, contra os inimigos do mundo. Alguns eu reconheço do trídeo. Outros — os mais dedicados, os verdadeiros profissionais — eu nunca vi em lugar algum. Eu aprendo com eles. Aprendo com o mundo.

Tenho menos equipamento pra me preocupar. Só o que tenho é o que posso carregar nos coldres. E hoje, é só o que eu preciso. Sete tiros em cada, com direito a duas recargas. Nunca se sabe o que você pode encontrar nas ruas.

Está tudo bem. Como Kane disse, eu não tenho uma profissão.

E agora eu sei: eu tenho um destino.

Mundos sem Fim e sem público

Tärhn, A Cidade do Céu. Dufossé, 1982

Recentemente, adquiri uma cópia do RPG old-school de ficção científica também old-school, o X-Plorers (veja resenha aqui), e pesquisando sobre recursos para este RPG, encontrei poucas referências em nossa língua. Entre elas, uma dizia que era (não lembro das palavras exatas) “um RPG de ficção científica dos anos 50, para velhotes que curtem esse tipo de coisa.”

Confesso que pensei coisas indecorosas sobre a mãe do blogueiro, mas logo em seguida lembrei-me que sim, eu sou um velhote. Cresci lendo Arthur C. Clarke, Isaac Asimov, Robert Heinlein, Clifford D. Simak e assistindo filmes de FC trash dos anos 40, 50 e 60 na Sessão da Tarde (obrigatoriamente, todos em preto e branco, mesmo porque nem todo mundo podia comprar uma TV em cores, na época). Pistolas de raios, trajes espaciais de borracha com enormes capacetes de vidro (que provavelmente começaram a vida como aquários) e naves que decolam e aterrissam como um foguete (ou seja, apenas na vertical) são a primeira coisa que vem à minha cabeça quando alguém fala em ficção científica.

Eu gosto de ficção científica de uma maneira geral, seja Golden Age, New-Age, Cyberpunk, Pós-Cyberpunk, Transhuman, Post-Human, New Space Opera, o escambau. Me apraz essa narrativa de pessoas vivendo no limite do que é possível apenas para demonstrar ou questionar uma moral, levar a uma reflexão sociopolítica ou simplesmente divertir. Mas não sei bem o que é FC para não-velhotes. É Guerra nas Estrelas? Não pode ser, já que os conceitos de FC dentro de Guerra nas Estrelas são (pelo menos) tão velhos quando a era de ouro da FC. Jornada nas Estrelas? Tampouco, se pensarmos que a maior parte das tecnologias dentro deste universo ficcional tornariam impossível uma sociedade estilo ONU-dos-Planetas-Unidos, tão parecida com a dos dias de hoje que chega a dar medo.

Mas eu entendo que FC (em especial, quando pensamos em um RPG de FC) é uma coisa complicada — ela precisa a um só tempo, ser diferente, desafiadora e permitir que os jogadores/leitores se conectem com os personagens, com os cenários. Uma vez tentei fazer um jogo inspirado no universo ficcional de Revelation Space, do escritor galês Alastair Reynolds; mas a proposta engasgou no primeiro momento, quando fui apresentar o cenário: os jogadores seriam membros de um clã terrestre que havia imigrado para outra constelação, viajando por 150 anos no espaço para o único mundo encontrado até então pela humanidade que não necessitasse de terraformação extensa. A maioria absoluta dos passageiros viajou em forma digital, armazenada em uma realidade virtual dentro das naves, e agora seriam codificados dentro de novos corpos, no planeta-alvo e em vários habitats artificiais ao redor do sistema solar segundo sua escolha. Corpos imortais, que poderiam ter a forma que sua imaginação lhes aprouvesse, fossem animais, vegetais ou máquinas.

E claro, não rolou. Os jogadores não puderam se conectar com os personagens, com o cenário, provavelmente nem gostariam dos livros, se os tivessem lido. Era diferente demais do que apreciavam, ou mesmo entendiam. Não é pecado, é só uma questão de gosto e bagagem livresca. Ou talvez algo mais.

Recentemente, lendo no RPGista um artigo de Mário Castro sobre Tecnofantasia (aqui!), notei que não é algo isolado da FC ou seus subgêneros. Seria uma reação dos jogadores a todo cenário que não seguisse um cânone? Mas ainda valem minhas colocações sobre Guerra nas Estrelas e Jornada nas Estrelas, a menos que a relevância não esteja na forma como eu olho para essas referências, mas no fato de que a maior parte dos jogadores atuais (que nasceram pelo menos após os anos 80) tem como cânone exatamente essas referências, que já me são poluídas. Lembro-me então de Matrix, que soava tão revolucionário para meus amigos mais jovens e menos nerds, mas onde eu identificava dezenas de elementos de FC, filmes chineses wuxia, cyberpunk, contextos pseudo-filosóficos e políticos…

Ainda assim, ainda com todas essas referências cruzadas e mescladas a ponto de termos uma FC bastardizada, canibalizada e mestiçada (todos estes termos na melhor acepção possível deles, gente, faz favor), pelo menos no imaginário RPGeiro nacional, não temos RPGs nacionais de sucesso, ou pelo menos de relevância. Não podemos levar em conta o saudoso Millenia (cuja editora faleceu menos de dois anos depois de seu lançamento), ou mesmo o recente Brigada Ligeira Estelar (por ser muito recente), mas note que qualquer outro RPG de FC entre estes dois lançamentos (como Fronteira Final, cujo conceito está além do cenário de FC) teve sucesso apesar de ser FC.

Voltamos ao velho argumento de que no Brasil, só é possível comercializar RPGs de fantasia.

Millenia: ficção científica à brasileira

WP_20131016_001Enquanto subgênero de FC, Millenia se situa naquele espaço reservado às aventuras de grandes impérios e nações galácticos, onde planetas habitados abundam da mesma forma que cidades em um continente da Terra. Naves viajam em velocidades mais rápidas que a luz, alienígenas convivem com a humanidade através de comércio, guerra, arte e tudo o mais que se poderia esperar de um bom épico de aventura space opera sem muitas dificuldades de compreensão e aceitação pelo público.

Tudo isso contra a dificuldade geral de emplacar um RPG de ficção científica no Brasil, que parece mais receptivo apenas para filmes e livros deste gênero. Mas vamos ao que interessa: lançado pela saudosa GSA Editorial em 1995 (dois anos antes do fechamento da editora), tem como autores Paulo Vicente Alves e Ygor Morais Silva (este último também autor do aclamado e ainda jogado RPG de fantasia Tagmar), contando com 178 páginas em preto e branco e capa colorida.

Senhoras e senhores, vamos à resenha em seu formato tradicional:

A Ambientação

Mil anos no futuro (tomando como base o ano de lançamento, 1995), em 2995, a humanidade vive um novo ápice em sua história, depois de passar por vários apogeus de dominação das estrelas, apenas para ser escravizada por uma espécie alienígena chamada de Fentom, que dominaram não apenas a humanidade, mas inúmeras outras espécies — várias delas agora extintas pelos Fentom — por cerca de quatrocentos anos, tendo sido derrotada apenas por uma guerra civil interna que os enfraqueceu e permitiu que fossem derrotados e exterminados completamente pelos seus antigos escravos. Após libertarem-se dos Fentom, apenas a humanidade, entre as espécies sobreviventes foi capaz de organizar-se com rapidez o sufieciente para formar um enorme governo interestelar (a República), e manter este poder através da força de suas legiões e de sua diplomacia, inspirada nos poucos registros históricos humanos sobreviventes à censura cultural Fentom: o Império Romano.

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alguém conhece?

Apenas nove espécies alienígenas possuem poder político e dispersão pelo espaço habitado para serem mencionadas: Baikans (cangurus humanoides de mundo desértico/exploradores da galáxia/próximos da extinção), Guiratans (cetáceos humanoides de mundo gelado/engenheiros navais), Hasjaris (leões humanoides/guerreiros leais e honrados), Kuihers (ursos humanoides sobrevivencialistas/acadêmicos pacifistas), Luminaris (lêmures humanoides de mundo noturno/mestres de sobrevivência), Makwis (águas-vivas flutuantes gigantes de mundos tóxicos/gênios bizarros), Nícteos (morcegos-coruja humanoides noturnos), Pierbodis (gorilas humanoides acrobáticos/influência política) e Vorgans (lagartos humanoides primitivos/tecnologia absorvida por erro/bárbaros imperialistas do espaço). Entre elas, um dos legados Fentom: a criação de três subespécies humanas, adaptadas para atividades industriais e agriculturais e que sofrem de forte preconceito por parte do resto da humanidade, como uma lembrança do período de escravidão.

O Braço de Órion (uma das expansões da Via Láctea) é o palco do jogo e abriga cinco nações interestelares: a República, lar da humanidade; a Vorgânia Oriônica, império dos Vorgan; a Esfera de Co-Prosperidade, onde um cartel de mega-corporações fundou sua própria distopia industrial nas estrelas; o Ducado de Meltnya, um antigo micro-império humano; e a Liga da Fraternidade Universal, que agrega vários planetas e populações alienígenas de governos independentes unidos por um conselho comum. Entre Elas, a Zona Neutra de Perseu agrega planetas com governos realmente independentes entre si, muitos deles experimentais.

A tecnologia presente no livro permite vôo mais rápido que a luz, antigravidade, armas laser, eletromagnéticas, inteligências artificiais, andróides, trajes de combate (mecha, mas não do tipo gigante), implantes cibernéticos e tudo o mais que se poderia esperar de um RPG space opera. A lista de equipamentos é razoavelmente completa, embora a nomeclatura possa parecer, por vezes, muito específica ou muito genérica (como possuir um nome comercial para cada modelo de carro aéreo, mas os trajes de combate são Armadura de Batalha e Mega Armadura de Batalha).

O Sistema

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sim, a tabela de ataque usa cores (tá, tons de cinza) para diferenciar os resultados.

Mecanicamente, Millenia não é muito complicado para criar personagens e jogar. Ele começa com seis atributos (Força, Reflexo, Saúde, Intuição, Vontade e Presença) que são definidos aleatoriamente, rolando-se 3d6 para três dos atributos e 2d6+6 para os outros três (à escolha). Além disso, você acrescenta mais cinco pontos aos atributos finais, de forma a personalizar o personagem, mas eles não podem elevar nenhum deles acima de 15.

Aí vem as habilidades (aqui chamadas de proficiências), que variam segundo sua profissão (Soldado Terrestre, Soldado do Espaço, Explorador, Mercador do Espaço, Oficial da Lei, Acadêmico, Agente Especial, Profissional Liberal ou Criminoso) e sua escolaridade (Não Especializado, Ensino Técnico ou Superior). Curiosamente, você usa uma “árvore” de habilidades (de maneira muito similar ao FATE, ou talvez ao FUDGE também), começando com uma habilidade de nível 15, duas de nível 13, três de nível 11 e quatro em nível 9. Qualquer outra coisa que tentar será contra nível 7.

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armas, armas e mais armas

Os testes de proficiência são feitos rolando pilhas de dados: 2d6 para tarefas fáceis, 3d6 para tarefas regulares e 4d6 para tarefas difíceis. O valor do teste deve ser menor ou igual ao nível da proficiência. É possível testar Atributos da mesma maneira, em caso de testes que não tenham proficiências claras — como enfiar um pé na porta para abri-la, perceber se alguém está tentado mentir para você, etc.

Regras adicionais mostram detalhes de viagem espaciais, combate (de altíssima mortalidade), uso de tecnologias de invasão de computadores, realidade virtual, drogas e implantes (legais e ilegais). Em particular, eu poderia reclamar um pouco do sistema de combate, com a necessidade de consultar um par de tabelas para verificar o resultado de cada ataque, mas é o bastante dizer que é menos incômodo hoje do que me pareceu há quase vinte anos atrás, quando o usei pela primeira vez.

E ainda assim eu continuaria usando a mesma house rule da época: ignore a coisa toda e use algo que faça sentido para você.

Apresentação

WP_20131016_002Visualmente, Millenia não fica atrás de outros RPGs nacionais da época, embora pareça ligeiramente mal-amanhado, quando comparado com as produções atuais — o que não seria justo. Ele tem uma capa atraente, com ilustração em computação gráfica; ousada para quando foi lançado mas evocando bem o gênero de aventura a que se propõe. O texto em duas colunas é claro e legível, e perde apenas nas más escolhas de tons de cinza pouco atraentes para as muitas tabelas nas regras e listas de equipamento.

A maioria da arte é não apenas adequada, mas extremamente evocativa do gênero, contando com talentos do calibre de Lilith Bettocchi e Mario Alberto Lopes, em excelentes ilustrações de página inteira para o início de cada capítulo. Há ilustrações são de menor qualidade, mas pelo menos são poucas. Ou seja, é um clássico RPG nacional dos anos 90.

No final do livro, encontramos ainda uma lista de filmes, seriados e livros de FC para entrar no universo imaginário de Millenia, que conta também com guias de tecnologia, armas, astronomia e história.

Considerações Finais

Infelizmente, Millenia é um item raro o bastante a ponto de ser quase impossível encontrá-lo hoje em dia, que dirá em bom estado — o meu foi comprado na época de lançamento, mas ainda parece novo. É uma pena que nada mais tenha sido lançado para ele, como aventuras, o esperado módulo de construção de naves e mais detalhes sobre o universo ficcional, como uma expansão detalhando o Ducado de Meltnya.

Sua grande vantagem é ser um cenário interessante e fácil de modificar ao gosto dos jogadores. As regras são simples, em sua maior parte, e embora mecanicamente, alguns tipos de personagem tenham pouca diferenciação entre si, há liberdade o suficiente para criar todo tipo de arquétipo de personagem de space opera. Os equipamentos, armas, veículos e naves espaciais são adequados e variados, com poucas inconsistências, apesar de mostrarem claramente que FC envelhece rápido, e mal. A maior parte dos smartphones modernos, por exemplo, é bem superior aos comunicadores padrão do cenário, que apenas recebem e transmitem áudio.

Se você curte RPGs de ficção científica clássica, como Traveller, 2300 AD, Buck Rogers e Fading Suns — além de outros que só velhotes como eu lembram — Millenia é uma boa opção. O difícil é achar uma cópia, mas boa sorte!

Ficha de Personagem: X-Plorers

Ficha de Personagens X-PlorersSe você acompanha minhas postagens desde o início, sabe que tenho um certo vício em produzir fichas de perosnagem para os vários jogos que aprecio — e que muitas vezes, jamais chegam a ser usadas. Esta é mais uma delas, produzida como alternativa para a ficha oficial (e em inglês) do X-Plorers, um RPG old-school de ficção científica sobre o qual eu fiz até uma resenha. Aproveitem, em breve devo postar uma versão que fiz já preenchida, e mais curta, para ser usada em eventos. Ah, para baixar a versão em PDF é só clicar aqui ou para a versão em PNG, na imagem à direita. Façam bom proveito.

X-Plorers: Ficção Científica das Antigas

?????????Recebi há alguns dias atrás (aliás, há algumas semanas atrás) a minha cópia do X-Plorers, RPG de ficção científica estilo Old-School, do autor Dave “grubman” Bezio, conhecido também pelos RPGs Wild West CinemaPreternaturalZodia Sunset. Ele foi lançado em 2009, e desde então tem adquirido uma certa notoriedade entre as comunidades de OSR que curtem ficção científica. Apesar de não possuir uma ambientação específica (que é parte do seu charme de faça-você-mesmo, próprio da comunidade OSR), as primeiras edições traziam uma aventura pronta, Cleopatra Station, que agora pode ser baixada gratuitamente da internet.

De uma maneira geral, pode-se dizer que universos de FC similares a velhos filmes dos anos 50 até ínicio dos anos 80 são o padrão para aventuras com X-Plorers. Procure aí no youtube por Outland – Comando Titânio, Aliens – O Oitavo Passageiro, Aliens – O Resgate, Planeta Proibido, qualquer um do Flash Gordon (vale também o dos anos 80, com trilha sonora do Queen), o seriado de TV de Buck Rogers (em especial, o seriado dos anos 80), Piratas do Gelo, a trilogia original de Guerra nas EstrelasBatalha Além das Estrelas, Duna (o filme e a minissérie), O Último Guerreiro das Estrelas e muitos outros. Não é uma narrativa apegada às leis da física, ou às realidades irremediáveis de viajar e viver no espaço, estando mais para o futuro como sendo algo igual a hoje, mas melhor: as pessoas tem carros, telefones e armas, só que os carros voam, os telefones comunicam-se através da galáxia e as pistolas podem desintegrar você com um só tiro.

?????????????????Mecanicamente, o jogo é tão simples quanto possível: os personagens possuem 4 atributos (Agilidade, Inteligência, Físico e Presença) e quatro classes (Soldado, Cientista, Técnico e Batedor), rolam um d20 para resolver suas ações — desde atacar com uma pistola de raios a reprogramar um robô — e usam recursos comuns a regras da primeiríssima edição de D&D, como pontos de vida, XP, jogadas de proteção e classe de armadura (que é ascendente). Cada classe possui habilidades distintas, quatro perícias únicas que descrevem o total de suas capacidades. O Soldado, por exemplo possui Demolição (para trabalhar com toda sorte de explosivos), Sobrevivência (para se virar em mundos inóspitos), Artes Marciais (para detonar os inimigos até com um pedaço de madeira) e especialização em um tipo de arma, garantindo bônus para dano e ataques com aquela arma, enquanto o Cientista possui Computadores (para analisar e processar informações científicas), Medicina (para usar a tecnologia médica do futuro de forma adequada), Ciências (englobando todas as ciências naturais, como Astronomia, Biologia, Química, etc.) e Sociologia (para entender sociedades humanas e alienígenas). É possível também aprender perícias de outras classes durante a evolução do personagem, tornando-o mais versátil.

A lista de equipamentos e armas não é exaustiva, mas possui todo o necessário para qualquer tipo de aventura (e é fácil e divertido extrapolar novos itens para sua campanha), e a regra para combate entre naves espaciais é ao mesmo tempo simples e elegante. O livro termina com um exemplo de espécie alienígena (os Greys), um mini-bestiário do espaço, plantas completas de duas naves e vários NPCs comuns em campanhas espaciais.

??????????????????A apresentação é agradável, com capa cartonada colorida e interior em preto e branco, completo com excelentes ilustrações — evocativas de uma idéia de “como seria o RPG se Gygax e Arnesson curtissem ficção científica ao invés de fantasia?” — de Pete Mullen (que é figurinha carimbada no Swords & Wizardry) e Steve Zieser.

De uma maneira geral, vale como base para construir sua própria campanha de RPG no espaço, desde um futuro próximo, onde a humanidade começa a se espalhar pelo Sistema Solar até impérios inerestelares que dominam uma galáxia inteira. Ou várias galáxias. As regras são simples e fáceis o suficientes para que você possa adaptá-las para seu estilo de jogo, adicionando regras caseiras, equipamentos, naves e espécies alienígenas ao seu bel-prazer. Pessoalmente, mal posso esperar para começar uma campanha.