Resenha: Palestra sobre Educação e RPG na FLIQ

Palestra_FLIQ_06A Feira de Livros e Quadrinhos de Natal — FLIQ — que em sua última edição, de 15 a 18 de outubro de 2015, na Cidade da Criança, teve entre suas atrações uma palestra sobre o uso de RPG na educação, ministrada pelos professores Raphael Lima e Robson Carmo, que (surpresa!) fazem parte do Mundos Colidem. A palestra foi realizada na Sala Moacy Cirne, no domingo, dia 18, começando às 09:00h e terminando por volta do meio dia, com uma partida experimental de RPG entre os participantes.

Como foi

Palestra_FLIQ_10Raphael e Robson iniciaram a apresentação falando sobre a história do RPG, das suas origens enquanto wargame a ícone lúdico nerd, explicando as mudanças que sofreu ao longo de seu percurso, desde meados dos anos 70, sendo daí reproduzido em várias culturas e países diferentes. Também explicaram quais eram os materiais necessários para jogar (papel e lápis, dados, cartas, fichas, marcadores), como é a relação entre narrador (ou mestre) e jogadores, os vários tipos de RPGs — desde as aventuras solo até os RPGs cooperativos muito comuns hoje em dia — os LARPs, os RPGs eletrônicos, os RPGs via e-mail; enfim, deram conta do recado de explicar o hobby com detalhes e clareza para uma platéia que, em alguns casos, era relativamente leiga sobre o assunto.
Raphael detalha a importância do lúdico na sala de aula
E foi aí que começou a parte legal: o projeto didático.
Primeiro, explicaram o processo de escolha de uma ferramenta didática para o ensino das disciplinas que ministravam (história, matemática e língua portuguesa) e destacaram as vantagens de usar RPG no lugar de outras narrativas lúdicas (como contar estórias da maneira tradicional) na sala de aula:

  • O jogador deve criar o personagem de acordo com as limitações impostas pelo sistema;
  • O personagem tem sua própria história e características;
  • A história pode ser criada a partir de qualquer universo (cinema, literatura, cotidiano e afins).

E após testar seu projeto em sala de aula, chegaram às seguintes conclusões:

O RPG funciona como ferramenta

  • Requer pouco material, de baixo custo e fácil obtenção, como papel, lápis, borrachas e dados de seis lados;
  • Para além do objeto fisico em si, o conceito de ferramenta também é usado para fazer referência a qualquer procedimento que melhore a capacidade de realizar determinadas tarefas;
  • Nesse ponto podemos usar o RPG para melhorar as capacidades de leitura e interpretação, conceitos matemáticos puros, ideias de conservação entre outros pontos.

O RPG funciona como um meio

  • O uso do RPG como meio abre várias possibilidades em todas as disciplinas possíveis, basta para isso que o professor em questão adicione as situações que devem contemplar aquele assunto em especial;
  • O desenvolvimento do aprendiz nesse caso será um processo imersível seguro, longe dos riscos que uma experiencia real teria com um nível de aprendizagem alto em relação a uma simples aula expositiva ou um conjunto de aulas multifacetadas, segundo a Pirâmide de Aprendizagem;
  • Assim sendo, a utilização do RPG como meio ou ferramenta possibilita uma apropriação de conhecimento com variações aproximadas de 70 a 90 por cento do conteúdo apresentado e não requer o dispêndio de uma grande quantidade de recursos físicos.

Pirâmide de Aprendizagem

Ou seja, quanto mais você interage com alguma coisa, melhor você entende e aprende aquilo que está fazendo, especialmente em grupo. A experiência de uso do RPG em sala de aula de Raphael e Robson demonstrou  que o aproveitamento dos alunos é razoavelmente melhor do que métodos tradicionais — embora seja necessário adaptar o método ao conteúdo a ser trabalhado, apesar de disciplinas com conteúdo ligado a humanidades, como história, geografia e literatura serem mais intuitivos neste aspecto, nada impede de levar os alunos para aprender os fundamentos de matemática e geometria com os sábios de Atenas, ou entender porque as descobertas de Copérnico, Galileu e Kepler causaram tanto burburinho. Eles podem não apenas aprender sobre um determinado conhecimento e aqueles que o desenvolveram; elas podem estar lá, junto com eles.

A Sessão de RPG

Para explicar de maneira definitiva como funcionava o RPG, o professor Robson Carmo iniciou uma rápida sessão de Old Dragon, um RPG de fantasia nacional, publicado pela editora Redbox. Os participantes puderam escolher seus personagens, receberam uma explicação mais prática de como funcionava uma sessão e jogo e sua versão mais longa, a campanha e começaram uma pequena aventura.

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No fim das contas

Fiquei feliz de ter ido à palestra, apesar de ter me atrasado um pouco e ter perdido parte da introdução sobre a história do RPG, mas a parte mais importante — o RPG como ferramenta didática — foi bem mais legal e despertou muito interesse por parte do público que assistiu à palestra e reagiu de maneira muito positiva, lembrando de várias tentativas de seus próprios professores, principalmente ao longo do ensino Fundamental, de apresentar um conteúdo didático de maneira menos engessada, tentando obter um desempenho melhor dos alunos sem sacrificar o interesse no assunto.

Minha surpresa maior foi saber que alguns coordenadores pedagógicos desdenham este tipo de prática, especialmente em escolas do sistema privado, dando preferência aos modelos tradicionais, baseando-se no argumento de que “é o que funciona”. Fica difícil entender como em uma época em que a sala de aula está repleta de dispositivos que são feitos para e pela interação (tablets, celulares, internet, redes sociais), uma ferramenta como o RPG — onde o trabalho em grupo, a interatividade e a criatividade são desenvolvidos de maneira harmoniosa — ainda é visto como algo dispensável.

Fica então a esperança de que o trabalho dos professores Raphael e Robson tenha continuidade e de que outros professores adotem o RPG enquanto prática de sala de aula. Mesmo que não seja de forma diária, mas pelo menos como uma fuga para aqueles momentos em que o cérebro do aluno emperra diante de tanta formalidade.

O Uso do RPG na Educação Básica Fundamental

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a atenção dos alunos é garantida

E aí pessoal, quero compartilhar com vocês um pouco da minha experiência com o uso do RPG em sala de aula com alunos do 4º e 5º ano do ensino fundamental em uma escola da rede municipal de Natal, onde atuo desde 2011.  Esse projeto é uma parceria minha com o Professor Robson Carmo, pedagogo e geógrafo (e antediluviano no cenário do RPG potiguar). Mas antes preciso fazer um breve histórico — isso se já não tiver feito antes em outro local nesse blog — sou professor desde 2007, com formação em Ciências da Religião e História. E jogador de RPG desde 1995, narrador desde 1998.

Novas tecnologias em educação é um tema muito recorrente, mas porque não se falar em novas metodologias em educação? A narrativa interativa — metodologia usada no RPG — se apresenta como um modelo que pode ser implementado em sala de aula, aliando-se às disciplinas de educação básica e se encaixando nelas de forma interdisciplinar, proporcionando um aprendizado lúdico para o discente.

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a experiência pedagógica usou o RPG Old Dragon

A ação desenvolvida é a utilização do RPG (e jogos de tabuleiro, ou boardgames) como ferramenta lúdica aliada ao processo de ensino-aprendizagem. A metodologia consiste em um processo onde os envolvidos participam da criação e desenvolvimento da história. Cada história/aventura é única; o narrador fornece o cenário e o pano de fundo e o mesmo é moldado pelos jogadores. O RPG não é necessariamente um jogo competitivo. Em muitas situações o resultado positivo da aventura dependerá da cooperação entre os membros do grupo e mesmo um resultado negativo — visto pelo olhar pedagógico — ainda gerará resultados positivos.

Como jogador/narrador de RPG e principalmente um entusiasta, sempre observei os projetos que ocorrem pelo Brasil afora com muito carinho. Ao ingressar na docência, comecei a pensar na ideia e formular algumas questões. Minha primeira experiência em utilizar a narração interativa (RPG), em sala de aula, foi com a disciplina História do Rio Grande do Norte (em outro momento relatarei essa experiência). A segunda experiência foi um pouco mais desafiadora por ter como público-alvo crianças das séries iniciais (4º e 5º ano do fundamental), com idade entre 10 e 12 anos.
Os encontros iniciaram-se em maio de 2014, com discentes do 4º ano e acompanhando os mesmo no 5º ano em 2015. O grupo acabou se consolidando após os processos de seleção (natural, principalmente), em um grupo com base de muitas meninas. Elas se interessaram mais que os meninos e se empolgam bem mais nas sessões: fazem planos, consultam livros e vão à procura de referências.

professor Robson Carmo usando o RPG First Quest

professor Robson Carmo usando o First Quest

Nos primeiros encontros foram trabalhados mais as questões teóricas, tipo: O que é RPG? Qual é a história do RPG? Como se joga RPG? Quais os sistemas de regras de RPG? E as possibilidades de crônicas e campanhas. Após esse período teórico e a apresentação de alguns sistemas, os jogadores decidiram pela temática de fantasia medieval, influenciados pelo desenho Caverna do Dragão, que até hoje atinge gerações de jogadores. Os sistemas usados foram o AD&D: First Quest e o Old Dragon.

Com a escolha do sistema e a compreensão das noções básicas do RPG, partimos para o processo prático. No início, eles demoraram um pouco a se familiarizar com a questão interpretativa (na verdade, ainda estão assimilando, pois muitos têm vergonha de interpretar na frente dos colegas), mas no que diz respeito aos recursos a serem utilizados e à observação dos mesmos nas fichas, foi uma total surpresa ver as meninas anotando todas as especificações de suas qualidades e realizando o raciocínio lógico para aplicar nas situações em jogo. É nesse processo que o discente alia as outras disciplinas nas sessões, quando se utilizam cálculos matemáticos, linguagem corporal e elementos de língua portuguesa, geografia, história, ciências e afins.