Crônicas de Nova Amsterdã: Capítulo V

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Capítulo V — O Duelo

04 de novembro 1646

Foi ao fim da tarde que Benito e Adele chegaram a Nova Amsterdã. Ao subir a colina na qual se localizava a cidade — que estava mais para um vilarejo — os mesmos foram presenteados com um lindo pôr do sol, que contrastava com o rio ao Norte. Mas logo foram surpreendidos com a presença de ciganos no local. E Valgram foi a figura avistada. O cigano os encarava, com o intuito de intimidar os recém-chegados.

O casal é recebido José Mauricio, que se oferece para guia-los até o local de suas acomodações. Durante o rápido caminho, Benito o questiona: “O que fazem ciganos aqui?”

“Eles são ‘funcionários’ do novo governador.”

“E esse governador, quem é?”

“Ele é um mistério, ninguém sabe o conhece.”

Chegam ao destino do marrano, e se despedem.

“Se o senhor precisar de algo, pode me procurar. Sua graça?”

“Baru—” ia respondendo, mas engole as palavras e rapidamente conserta: “Benito. Benito Simeão.”

José acena e parte com uma expressão confusa.

Quando a noite cai, Valgram encontra a porta do casarão aberta. Ao entrar, encontra o mesmo cenário da noite anterior. Apressa-se em direção à taça e bebe dela rapidamente, deleitando-se com a sensação.

“És um homem agora, meu pequeno.”

“Babá!”

“Tome, pegue a chave do casarão. Você agora é o líder.”

“Sim, eu sou o líder” repetiu um Valgram vaidoso, que a velha sempre conheceu, mas que coibiu por muito tempo.

“Não nos veremos mais.”

“Não babá, eu preciso dos seus conselhos.”

“Eu tenho contas a acertar e você precisa se casar.”

“Sim, com Samira.”

“Aproveite a festa e faça o que é certo. Não precisa ser justo.”

Valgram sai do casarão e não hesita em olhar para trás. Lá fora, os seus vassalos estavam em festa. A cidade inteira parecia espiar o seu casamento. Samira estava deslumbrante, dançando em um vestido vermelho, os cabelos negros longos e cacheados voando com o vento e os rodopios de sua dança. Ele se aproximou e a tirou para dançar. Segundo as tradições, o laço matrimonial estava firmado, só faltava a aceitação da comunidade para ele se tornar um legítimo líder.

Valgram recolheu uma taça, bateu com um talher e pediu a palavra. Não chegou nem a pronunciar as primeiras palavras quando foi interrompido por Tiago: “você não tem autoridade para ser nosso líder.”

“Está a me desafiar, Tiago?”

“Sim, até a morte!”

Valgram recolhe uma faca e parte em direção ao desafiante, que saca uma arma e atira em sua direção. O projétil acerta o peito e ele cai.

Mas levanta-se, para o susto de todos — principalmente do próprio Tiago: “como pode ser?”

“Eu sou seu líder, e de toda essa tribo” diz, enquanto crava a faca na boca do traidor e logo em seguida arranca seus olhos.

Os curiosos fugiram gritando, tamanho o terror criando pela cena. O padre tentou intervir, mas foi contido por Samira, que o levou para longe. Santiago já tinha olhado de forma diferente para a cigana, que despertava nele desejos mundanos. Benito Simeão ficara horrorizado, cobrando atitudes de José Mauricio, que por sua vez, alega não poder interferir na vida dos ciganos.

A festa acaba e quase todos se recolhem.

Samira diz a Santiago que precisa se confessar. O padre, enfeitiçado pelos encantos da cigana, atende ao seu pedido.

“Padre, eu ajudei o mal a vir para esta terra.”

“O mal está em todos os locais, minha filha.”

“Inclusive em você, Padre?”

“Sim, inclusive em mim.”

“Como pode o mal estar em um homem tão bom como o senhor?”

“Nem todos os homens são totalmente bons e totalmente maus.”

Eles conversam por longas horas noite adentro. Santiago, que desejava saber sobre o Barão e seus intentos, já se esqueceu dos seus objetivos. E próximo ao amanhecer, a cigana o fita bem nos olhos e pergunta: “Padre, o senhor me perdoa?”

“Por qual motivo?”

“Por esse!” e beija o padre, que se deixa levar pelo calor da jovem e a toma para si.

Valgram passa a noite acordado, aguardando por Samira. E vê uma jovem entrar no casarão no meio da noite, com a porta aberta. Ele vai conferir e a encontra fechada. “O barão abriu a porta,” pensou. Antes do nascer do sol, Samira retorna com um sorriso nos lábios.

“E o Padre?” perguntou Valgram.

“Não será mais problema.”

“Tiago também não será mais. Venha, vamos dormir.”

Nos primeiros minutos do raiar do sol, o padre reza pelo perdão de seus atos inconsequentes, quando é interrompido: “Padre Santiago…” sussurra o menino Quinho.

“Quinho!” responde o padre surpreso.

“Onde o senhor esteve? Eu tenho uma coisa pra falar!”

“Estive ocupado pecando; mas o que você tem a me dizer?”

“A menina Ana, a filha do pastor, entrou no meio da noite no casarão do Barão.”

“Tem certeza, Quinho?”

“Claro, claro que tenho!”

O padre agora está tomando de preocupações: “e agora mais essa notícia!” pensa, “Pode causar graves problemas!” Ele não sabe o que fazer, mas pensa em procurar a cigana, à noite. “Vá brincar, Quinho. Vou ver o que posso fazer.”

Leia o cap. 1

Leia o cap. 2

Leia o cap. 3

Leia o cap. 4

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Crônicas de Nova Amsterdã: Capítulo IV

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Capítulo IV — Benito Simeão (Baruch Shimeon)

Baruch é um homem de estatura média e um pouco magro, com a pele branca, cabelos escuros e olhos do mesmo tom. Tem 38 anos, tendo nascido em 14 de julho de 1608. É filho de Aaron Shimeon e Avivah e nasceu e viveu os primeiros anos de sua vida em Cádiz (Espanha). Sempre introspectivo — desde a infância — passou toda sua vida constantemente ao lado dos pais, sem amigos e sempre devotado às ocupações religiosas de sua família judia.

Em sua infância ainda, um fato o impressionou: encontrou no porão de sua casa um velho sufi acorrentado e que vinha sendo constantemente torturado por seu pai e outros judeus de Cádiz. Por várias noites, Baruch levou água e comida para o velho, que sempre o agradecia com um ensinamento. Um dia o homem desapareceu, o que deixou o menino muito triste, pois achava que o seu pai e os amigos o haviam matado. Mas feliz foi a sua surpresa em escutar uma conversa à noite; o velho havia sumido. A partir desse momento, a criança passou a enxergar o velho em todos os locais que frequentava, especialmente nos cômodos da sua casa, mas nunca se aproximou. As visões duraram até o início da adolescência.

Com a intensificação da já cruel inquisição espanhola, a família se viu obrigada a fugir do reino. Na fuga para Portugal, que teve início em 1629, seus pais foram mortos em Huelva, ainda na fronteira. Em 1631, Baruch se instala em Lisboa e passa a viver entre os cristãos novos, onde conhece Adele, uma judia que como ele, se oculta entre os marranos. Em 1634, Baruch conhece um holandês chamado Rutger, que no ano seguinte consegue a entrada do casal nos países baixos através de uma viagem de barco, partindo de Lisboa em direção a Amsterdã.

Em Amsterdã, Baruch prospera nos negócios e tem uma vida tranquila, até o retorno de Rutger em 1643, com uma proposta de trabalho em Nova Amsterdã e uma carta com a assinatura real. Assim, após uma longa conversa com o amigo, o judeu decide vir para Nova Amsterdã.

O conteúdo da conversa é desconhecido até pela esposa de Baruch.

31 de outubro de 1646

O agora cristão novo, Benito Simeão jantava na casa do seu anfitrião, Moisés Coelho, na véspera de sua partida para Nova Amsterdã. Não muito acostumado com o calor dos trópicos, está derretendo de suor, mas mantem o recato e a postura perante o seu convidado, que o indaga:

“Não estás acostumado com esse calor, amigo?”

“E há como se acostumar?”

“Quando cheguei menino, também reclamava bastante. Mas me acostumei.”

“Espero me acostumar rápido então; na verdade, preciso.”

Coelho ri, acompanhado por Simeão, o que faz com que a sua esposa esboce um sorriso.

“O que há de engraçado, Moisés?”

“Envergonhamos os nossos ancestrais, que viviam no deserto: estamos aqui a reclamar de uma quentura.”

“Pode ser, mas não esqueça que se estamos aqui, há grande possibilidade de nossos ancestrais terem partido no exilio babilônico, e terem ficado por vontade própria no mesmo.”

“Não muda nada, Benito, acaba por ser a mesma coisa, meu amigo.”

“Muda muita coisa.”

“Por exemplo?”

“Um judeu deve enxergar a presença de Deus em tudo.”

“Enxergar Deus em todas as coisas…” pôs-se pensativo, “Tens razão amigo, mas se ficares por aí falando que sois judeu, logo a Inquisição te acha.”

“Não fale nem por inocência, amigo, já tive noites horríveis.”

“E não penses que terá noites melhores por aqui.”

“Por que dizes isso?”

“Vallen. É um mistério. Ninguém o conhece, mas meu bisavô parece ter conhecido algum ancestral.”

Simeão não deu muita atenção às últimas palavras de Moisés. E concluiu o seu jantar.

02 de novembro de 1646

Ao amanhecer, Benito se despede do seu amigo Coelho, que lhe deseja boa sorte e acena enquanto a carruagem conduzida pelo jovem João Maria segue em direção ao Norte. A viagem transcorre tranquila, na medida das condições de tranquilidade referentes à colônia, pois a paisagem marcou o casal, em especial a esposa de Benito, a farmacêutica Adele.

Na medida em que a noite avança e joga seu manto negro sobre a carruagem, o casal Simeão indaga o cocheiro sobre a hospedagem nessa noite, que responde com um aceno de cabeça em direção a uma luz à frente, que nesse momento parecia pequenina e a cerca de 200 metros, mas que ainda era vista devido à escuridão total que os envolvia, pois era uma noite sem lua.

Chegando a modesta casa, o casal é recebido por Iara, uma senhora que mantém o modesto casebre como repouso dos viajantes.

“Boa noite, sejam bem-vindos.”

“Boa noite!” respondem os Simeão.

“Venham, vou mostrar onde vocês irão ficar esta noite. Podem vir, não tenham medo.”

Benito segura a mão de sua esposa e hesita ir por alguns segundos. Adele, por duas vezes, tenta seguir a senhora, mas o seu esposo a impede. O cocheiro faz sinal para que entrem na casa.

“Senhor, não há outro local. Temos que ficar aqui. Não me olhe assim, não vou guiar a carruagem à noite.”

João parte para acomodar os cavalos na cocheira improvisada que se encontra na lateral da propriedade, onde há uma vaca desnutrida, que mal consegue ficar em pé. É um ano de seca muito forte e aqueles que não têm recursos estão sucumbindo às intempéries do clima.

Benito e Adele estão acomodados em um pequeno quarto que não dispõe de cama, mas um tapete grosso e pouco confortável. O homem se aborreceu com acomodação, mas logo foi acalmado pela esposa: “Já dormimos em locais piores, meu esposo”.

“Mas em nenhum desses locais eu precisei pagar.”

“Mas em nenhum dos que você não precisou pagar, nós vamos dormir em p—”

A última palavra é roubada da boca de Adele quando um uivo é ouvido próximo e a porta é arrombada pelo cocheiro em estado de choque, no mesmo momento que um grito ensurdecedor e agonizante ecoa por toda a casa. Benito se põe de pé e vai até o homem. Dona Iara está de pé, aos prantos. João Maria tenta falar, soluçando de medo: “Ela me mordeu, tinha algo lá, mas ela me rasgou… Ela me rasgou…”  não parava de repetir.

“Quem te rasgou, homem de deus?” perguntou Benito.

“Ela me rasgou, ela me rasgou, como um bicho que come carne.”

“Quem? Quem fez isso?”

“A vaca, a vaca magra!”

“Hã? E o grito?” indagou Benito.

“Tinha outro bicho lá, foi ele que mexeu na vaca. Esse bicho gritou e saiu voando.”

“Ele tá ferido, veja o braço dele!” disse Iara.

“Adele, cuide desse homem.”

Benito, assustado com toda a situação, reuniu o pouco de força e coragem que restava, pegou algo em sua mala e saiu. Dona Iara o acompanhou, mas a alguns passos atrás, pois estava com tanto medo, que era possível escutar o bater de seus dentes.

Na cocheira, ambos viram a vaca debruçada como se a beber algo. Ao tentar iluminar o local, a luz revela a vaca desnutrida, com os olhos avermelhados na escuridão e a beber do chão, onde o sangue do cocheiro havia caído.

Adele ouviu o estrondo de um tiro no lado de fora da casa e alguns segundos depois, quando Benito e Iara retornam, o terror é perceptível nos olhos da senhora. Benito parece estar mais tranquilo, com a arma ainda fumegante em punho. Ele havia matado a vaca.

Ninguém mais falou nessa noite, nada mais se ouviu e ninguém dormiu. As primeiras palavras foram ditas apenas ao amanhecer.

03 de novembro de 1646

Benito desperta e abre os olhos ao som da voz de Dona Iara: “Bom dia seu Benito, venha comer algo.”

“Sim Dona Iara, pretendo tomar um café. Aquilo a noite passada foi de certa forma, muito assustador. Quero partir o mais rápido possível.”

“Me perdoe a perturbação, isso não é normal.”

“Isso não é Deus, a senhora quer dizer.”

“Mas não foi culpa minha, e ainda ficarei no prejuízo.”

“Sobre a sua vaca, deixarei dinheiro para que compre outra; pois é justo, já que eu a matei.”

“E a porta?”

“Deixarei algo para o conserto.”

“Fico muito agradecida.”

Enquanto Benito terminava o seu desjejum, pediu para que Dona Iara levasse o café de Adele. Após alguns minutos, a sua companheira aparece pronta para a viagem, no mesmo instante em que os cavalos são ouvidos. Ambos se despendem da senhora e lhe desejam boa sorte. Sobem na carruagem e partem em direção a Nova Amsterdã.

Durante quase todo o dia, os viajantes dormiram, mas Benito dormiu bem mais, acordando já no cair da noite, com a carruagem parada em um engenho abandonado. Ele olhou em volta e sentiu náuseas. A paisagem estava diferente. Desceu da carruagem e à medida que andava, as náuseas aumentavam. Olhou para o céu. Estava límpido, mas as estrelas estavam borradas, tudo estava distorcido. Ouviu o som de chicotes e foi mais à frente, onde viu um negro sendo açoitado por uma criatura que com certeza não era deste mundo. Hesitou em chegar perto, mas não foi notado.

Virou-se para retornar a carruagem e ouviu o sibilar de uma cobra. Olhando na direção do som, viu dois olhos vermelhos na escuridão. Sentiu um calafrio e correu para a carruagem — e acordou. Foi o sonho mais real que teve em toda a sua vida. Estava com febre e ficou sob os cuidados de Adele. Adormeceu novamente, mas não mais foi perturbado por pesadelos.

Em Nova Amsterdã

Ao cair da noite, Valgram entrou na casa do Barão e encontrou a taça da noite passada, cheia do precioso líquido. Não pensou duas vezes e tomou tudo novamente, bebeu por ganância. Limpou a boca e saboreou. E como estava doce.

Leia o cap. 1

Leia o cap. 2

Leia o cap. 3

 

Crônicas de Nova Amsterdã: Capítulo III

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Capítulo III — Anton Valgram

Valgram é um homem alto e de porte atlético, nascido em Bucareste e aparentando cerca de trinta e dois anos de idade. É conhecido mais pelos seus atos do que a capacidade de dialogar, o que faz dele um homem rígido e severo. Com as peregrinações de sua tribo, conheceu várias cidades da Europa, especialmente sua porção Oriental: Istambul, Ankara, Budapeste, Viena, Florença, Gênova, Genebra, Paris, Bruxelas e Amsterdã.

Foi criado por sua avó Hanucá após a fuga de seus pais, quando ainda tinha cinco anos. Apesar de nunca ter entendido o motivo da partida deles, sempre quis provar seu valor para com todos da tribo, demonstrando grande interesse e domínio com as lutas tradicionais e sendo reconhecido principalmente pela habilidade com as armas e esportes físicos — que também era um talento inato do pai. Suas ambições sempre estiveram voltadas ao seu reconhecimento dentro da tribo, pois Valgram é um defensor fervoroso das tradições e deseja acima de tudo, provar que é um homem valoroso e honrado.

Quando muito jovem, nutriu afeto e um grande amor por Samira, a qual cortejou desde a adolescência, sendo sempre rejeitado. A velha Célia Cruz, amiga de sua vó, é uma aliada fiel ao cigano, pois sempre o auxiliou em momentos difíceis, independente de seus ideais. O jovem Hector, um admirador de Valgram, enxerga no cigano um pai e um líder valoroso.

Um episódio em sua infância o marcou profundamente — quando atravessava uma floresta na pequena cidade de Arad, na borda ocidental da Romênia, na companhia de outro grupo de ciganos oriundos da Ásia e que haviam cruzado com sua caravana, perdeu-se junto com outra criança, uma garotinha. Era noite de lua cheia e havia acabado de conhecê-la. Sentiu uma curiosidade e uma profunda atração pela pequena Liane. Ambos se distraíram enquanto brincavam nas proximidades da floresta e quando perceberam estavam perdidos, sendo então perseguidos por seres que pareciam enormes lobos, ferozes e de pelagem negra. Foi encontrado aos farrapos quase dois dias depois, dormindo muito próximo de onde brincavam. Quando acordou apenas na manhã do outro dia, não se lembrava de nada do que havia se passado naquela noite, nem mesmo de ter conhecido a pequena Liane, que insistia em dizer que tinha salvado o pequeno Anton.

Seus pais também haviam partido às presas e foi quando ficou sabendo que desde então estaria aos cuidados de sua avó. Passou a ter flashes de memórias espaças e pesadelos sobre o acontecido. Por vezes, sonhava estar perdido nas sombras, ouvir a voz de seus pais chamando por ele, gritando e tateando na escuridão sem nunca conseguir encontra-los. Outras vezes sonhava com uivos e com uma voz de outra criança, por vezes falando em uma língua incompreensível e por outras, acalmando-o.

Aos poucos a frequência desses flashes e pesadelos foi diminuindo gradativamente, ao ponto de nunca mais pensar sobre seus pesadelos da infância.

2 de novembro de 1646

Eram as primeiras horas do dia e Valgram organizava o desembarque dos pertences do Barão. Aos poucos, toda a parafernália foi colocada nas carroças e começaram a subir a cidade alta em busca do casarão construído para abrigar o novo morador. Durante o caminho, foi acompanhado pelo menino Quinho e o vendedor de cocos Pedroca. Nas proximidades do casarão, o cigano observou um homem a espreitar a movimentação por trás de uma porta em uma pequena casa.

A chegada ao ponto final e o descarregar dos pertences de Vallen, tudo foi supervisionado pelos olhos atentos de Valgram e só uma coisa fugiu a sua atenção — onde estava a sua avó. Seguiu com passos firmes por entre os ciganos, descalço e como se a sentir a terra em que agora habitaria e ao se aproximar da casa, viu a sua porta entreaberta. Algo raro, que nunca acontecera. E mesmo assim decidiu entrar.

O silêncio era mortal lá dentro, parecia que toda a agitação da chegada à nova terra não penetrava naquele local. Sentiu um medo profundo pela segunda vez na sua vida e essa sensação reviveu memórias antigas, que há muito achou estarem perdidas. Estava em uma espécie de transe, que foi quebrado por uma voz:

“Valgram?”

“Baba!” respondeu assustado.

“Venha, sente-se à mesa.”

Valgram, com medo, seguiu em direção à mesa, que estava posta. Não havia uma só vela a iluminar a sala e a pouca luz que ousava entrar por entre as cortinas era da lua atrevida. A velha se pôs ao lado do neto e com a mão em seus ombros.

“É um fardo demasiado para mim, meu neto.”

“Que fardo, Baba?”

“A tribo, a casa, tudo!”

“Mas a senhora faz tudo tão bem. Tenho orgulho de seu comando.” Ele foi sincero, mas viu a oportunidade, seu orgulho cresceu mais do que o amor que sentia pela a avó. E achou que essa era a sua hora. Mas logo uma presença, apenas sentida na sala, o fez recuar de suas intenções.

“Eu sei, meu filho, eu sei. Mas agora preciso que você faça isso. Mas não tenho muito tempo para te ensinar” disse, acariciando os cabelos do neto.

“Eu estou pronto, Baba!” falou com pouca segurança, intimidado pela figura invisível no outro lado da mesa e envolta na escuridão.

“Pois bem. Terás que provar da tua boa vontade com a tua tribo e o teu senhor” e enquanto falava isto, derramava algo similar a vinho em uma taça de ouro ornamentada com pedras. “Beba! Isso te tornará um líder legítimo da tua tribo”.

“Que gosto único e maravilhoso” disse o cigano após beber tudo sem pensar no que seria. “Poderia beber mais, para me tornar ainda mais legitimo?”

“Beberás por mais duas noites, e até lá paciência, pois não serás líder até beber por três noites.”

Leia o cap. 1

Leia o cap. 2

Crônica de Nova Amsterdã: Capítulo II

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Capítulo II — Padre Santiago

Santiago nasceu em um dia ensolarado, na data de 04 de março de 1611, na capitania de Pernambuco. Na infância sempre se comportou tal como as crianças da sua idade, alegres e travessas — todavia, no seu período etário púbere, foi arrematado por um lamentável acontecimento: a morte da sua amada mãe. Estes dias foram de angústias e constantes lamentos para a pobre alma de Santiago, com apenas 12 anos de idade.

A partir desse episódio lastimável, o garoto decidiu ingressar na vida religiosa para tentar acalentar-se com o sagrado, na tentativa de encontrar um refúgio para aquela incessável dor.

Os anos se passaram e o Santiago continuou na igreja, se fez um homem imponente e respeitado pelos demais, entretanto, estranhamente, o jovem padre não tinha dentro de si o toque “santo”. Havia se acostumado com o seminário, posteriormente com o clero, mas parecia que em seu âmago algo lhe faltava: fé. Não que ele não acreditasse em Deus ou nos santos dogmas da sua Igreja Católica, mas como ele não ingressou nesta vida por vocação — como os demais colegas — ele se via diferente por nunca ter sentido de fato a presença que os seus companheiros tanto ressaltavam: o Divino Espírito Santo.

Em 1629, o jovem e recém-formado padre parte para o Rio Grande a mando da própria instituição que defende e propaga. Ao chegar, logo impõe respeito, embora a sua pouca idade seja notável e inicialmente contestada; entretanto a sua retórica e inigualável facilidade de comunicação facilmente lhe fez ganhar inúmeros seguidores para a casa de Deus.

Um ano após sua chegada em terra potiguar, Santiago já é um nome forte na capitania. Seus ensinamentos são absorvidos como verdades incontestáveis pelos homens do campo e até pelos latifundiários, que sempre lhe procuram antes de tomarem difíceis decisões.

A invasão dos holandeses no Rio Grande ocorreu no final de 1633, apesar do flerte com a capitania ser antigo. Todas as estruturas da região sofreram mudanças, inclusive a Igreja e o Padre Santiago.

Tudo que o jovem religioso construíra havia ficado no passado.

Contudo, ele tenta ainda reerguer a sua força política e religiosa na agora, Nova Amsterdã.

2 de novembro de 1646

O padre parte em direção à fazenda de Inácio Cortês, após receber o convite para uma conversa — que aparentava ser urgente — por intermédio de José Mauricio. Santiago dispensa o cavalo oferecido pelo mensageiro, pois desejava caminhar e pensar nos acontecimentos da noite anterior. E em muitos momentos se questionava sobre o que tinha feito nos últimos 13 anos e até em toda a sua vida.

Imerso em seus pensamentos, quando se deu conta estava em frente à porteira da fazenda de Cortês, onde observava uma aglomeração de escravos e o proprietário, reunidos ao redor de um boi morto.

“Que tanta aglomeração pode causar um boi morto senhores?”

Os presentes, que não tinham notado a repentina chegada do padre, viraram-se assustados, como se esperassem o pior. Mas no susto o respondem: “Sua benção, seu padre?”

“Deus os guarde em seu coração.”

“Olhe você mesmo, padre!” Disse Inácio.

Santiago se aproximou e o que viu foi um animal dilacerado na altura do pescoço e sem nenhum sangue em seu corpo. Inácio fita os olhos do padre: “Onde é que esses selvagens vão parar com seus rituais para os seus demônios?”

“O que é isso, Inácio? Sabes melhor que ninguém que não é obra dos nativos! Deixe da sua loucura em prol desta guerra que tanto desejas!”

“Desejando ou não, padre, irei falar com o tal Barão. Ele há de dar um jeito nesses índios folgados.”

O padre faz um sinal para os escravos se livrarem do animal morto e conduz o fazendeiro à casa grande.

“Você precisa ter cautela, Inácio, essa reunião de hoje é muito importante. Johannes, Bock e o Pastor Jacob estarão presentes e terás uma forte oposição. Acho que antes, deveria conversar com os nossos.”

“Preciso muito de seus conselhos, padre!”

Leia o cap. 1

Crônica de Nova Amsterdã: Capítulo I

Em meus pensamentos sobre RPG e meu trabalho, sempre me pego pensando na minha formação como cidadão. Nesses pensamentos, volto ao tempo de escola e me recordo o como é mínimo o estudo de história do RN, especialmente no meu tempo, na década de 1990. Hoje em dia tivemos muitos avanços, mas precisamos melhorar ainda mais.

O ingresso em História e suas teorias e áreas afins me fez despertar para a história local. E por que não narrar crônicas evidenciando a história do RN? Nessa ideia, em 2012, comecei uma campanha de Vampiro que se passava no período da dominação holandesa no RN. Não tentando repetir a história fielmente e nem modificá-la por completo, mas sim trabalhar atores indiretos — fictícios, claro — desse recorte histórico.

Três anos depois, eu decido revisitar a crônica de Nova Amsterdã e dar sequência a esse projeto, mas na ideia de continuidade, com novos atores, seguindo o rumo de um barco em andamento.

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Capítulo I – Barcos ao horizonte

1º de novembro de 1646

Por volta das duas horas da tarde, Francisco correu em direção à igreja de Nossa Senhora da Apresentação — menino de rua que vivia aos arredores da igreja e que era alimentado e recebia cobertas todas as noites do padre Santiago, que também cuidava do garoto, mandando-lhe tomar banho e cuidar dos seus bichos de pé; apesar de o menino viver fugindo da hora do banho.

Quinho, como gostava de ser chamado, ainda não tinha almoçado — o que deixava o padre muito preocupado, pois o mesmo já era raquítico e apresentava um grau acentuado de desnutrição. A cidade de Nova Amsterdã — como os holandeses passaram a chamar e que mais parecia uma vila, com no máximo quarenta casas — não dispunha de um médico. Apenas quando havia necessidade de algum fidalgo local, era enviado um médico da capitania de Pernambuco, a cada dois meses.

Ao se aproximar dos arredores da igreja, Quinho já vai gritando “Padre Santiagooo!” A igreja tinha passado a ser local de culto dos protestantes e ao padre foi dado o direito de ficar na vila, caso desejasse sanar as necessidades espirituais dos católicos locais. Santiago era um homem bom, temente a deus e ciente de suas responsabilidades com seus fiéis.

“Aí está você, Quinho, não acha que já passou da hora de tomar um banho e ir almoçar?”

“Depois, padre; veja isso, olhe o mar!”

A igreja desfrutava de uma localização privilegiada na vila e ao levantar a visão, Santiago contempla o mar e observa uma esquadra com treze navios se aproximado do castelo Keulen — que outrora fora chamado de Forte dos Reis Magos. Vivendo nos arredores da igreja, rapidamente vai até sua casa para procurar algo entre os seus pertences, que encontra após alguns segundos de busca. Ao retornar, descobre não apenas o menino Quinho, mas várias pessoas que se reuniam para saber o que era tamanha esquadra a se aproximar da vila. Santiago tinha nas mãos uma luneta — coisa rara na época e que poucos dispunham, a não ser que fossem homens do mar.

Rapidamente ele a abriu, mirou com o olho e apontou o instrumento para o mar. Quinho, ao seu lado, mal segurava sua curiosidade para dar uma espiada. Um homem próximo aos dois, conhecido como Pedroca, não parecendo ter mais que um metro e sessenta de altura, com a barba por fazer e sem camisa, perguntou ao padre o que eram os navios, enquanto repousava os cocos que carregava.

“São navios da Companhia das Índias Ocidentais,” respondeu Santiago. “Não há motivos para se preocupar.”

“E não há mesmo,” respondeu Pedroca, “pois irei às proximidades do cais” — bem humilde na época, mais parecendo um malocado de canoas — “para vender os meus cocos. Com tantos navios chegando, a tripulação deve ter sede.”

“E eu irei junto com o senhor!” Logo se adiantou Quinho, que saiu correndo antes que o padre pudesse falar algo.

Apesar dos holandeses serem de um país de maioria protestante, não impuseram empecilhos às práticas religiosas da população ao chegarem no Rio Grande — tanto os católicos, como os indígenas eram livres para realizar seus rituais, desde que a ocupação e convivência com os batavos fosse pacifica. E isso muito privilegiou os índios, que passaram a viver mais tranquilos, embora não estivessem livres de todos os problemas; o avanço das fazendas no sertão e a criação de gado fizeram desaparecer os espaços de caça e os índios passaram a caçar os bois das fazendas. Mesmo isso não chegou a tornar-se um problema, sendo resolvida a situação de forma amigável.

De início, os católicos, gostaram da ocupação holandesa, mas logo deixaram de apoia-la, devido à liberdade e os acordos feitos entre os batavos e os indígenas. Não existiam restrições às atividades do padre, desde que o mesmo não se metesse em assuntos da capitania; coisa difícil, pois o bispo responsável pela diocese raramente estava presente ou se comunicava com o padre. As poucas correspondências trocadas eram sobre o comportamento dos batavos. Os holandeses com os protestantes e indígenas, os portugueses com os católicos, ainda assim haviam informantes, o que eventualmente começou a irritar os batavos — que logo trataram de enviar um governante com mão de ferro para resolver os problemas da capitania.

Enquanto algumas pessoas se encaminhavam para as proximidades do cais, Santiago continuou a olhar os navios e notou algo que não vira antes. Que navio era aquele destoando dos demais, todo em madeira negra, sequer parecendo vir do mesmo estaleiro? “É muito diferente dos demais, será o navio do Barão?” Santiago ficara sabendo da chegada do Barão por intermédio do bispo, em sua última correspondência. Sentiu calafrios ao contemplar o navio, que ele julgava ser do tal Barão Van der Valen.

Algumas horas depois, quando se aproximava do pôr do sol, Inácio visitou o padre para ter notícias. Era fazendeiro e líder dos católicos portugueses. Santiago mostrou-lhe a esquadra que se aproximava e o barco que destacava-se dos demais.

“Mas o que é isso,” perguntou o fazendeiro.

“Provavelmente deve ser a chegada do tal Barão que seria mandado para governar a capitania.”

“Mas são necessários tantos barcos, padre?”

“Não sei, talvez seja por acaso; eles podem estar indo para outro local.”

“Não sei quais são as intenções desses batavos com esse governador vindo da Europa, mas que essa política de aliança com os índios deve ser revista, eles são bárbaros desculturados e sem religião, que andam nus, não trabalham e comem apenas do que a natureza dar.”

“Eles têm a sua forma de organização social, Inácio, que devemos respeitar. Apesar de não cultuarem o nosso deus, eles também são filhos dEle.”

“É por isso que a capitania não é respeitada! Nem o nosso padre tem poder com o povo, fica compartilhando da ideia batava de proteger os indígenas.”

“Não podemos reclamar dos holandeses, meu nobre fazendeiro, eles nos permitiram manter as nossas tradições e fazem a manutenção da paz na capitania — ou vai me dizer que os seus negócios não andam bem?”

“Meus negócios andam muito bem, mas mesmo assim tenho tido alguns prejuízos.”

“Não há do que reclamar.”

“Me escute bem, padre; quando esse Barão descer, eu mesmo vou conversar com ele sobre esses índios que se acham dono das terras! E se ele não der jeito, o diabo irá dar!”

“Cuidado com os seus desejos, Inácio; eles podem se realizar mais cedo do que você imagina.” As últimas palavras do padre saíram instintivamente, ele mesmo se assustou com o que disse, colocando a mão na boca como se segurasse mais palavras.

Inácio o olhou no momento das palavras proferidas, colocou o seu chapéu, despediu-se com um “Passar bem padre!” e regressou a passos rápidos regressou à sua fazenda, nas regiões as margens do rio — onde muito depois seriam as proximidades do bairro do Alecrim. Em seu caminho de volta pensava alto, “tenho que convencer esse Barão que a política de boa vizinhança com os indígenas só nos traz prejuízos; mas como farei isso? Espero que ele ainda não esteja totalmente a par da situação dos termos batavos com os índios… Tenho que ser rápido e convocar uma reunião com os fazendeiros, e aí sim, falar com o Barão!”

Caía o crepúsculo. O padre continuava no mesmo local, vislumbrando a esquadra que se aproxima sem nenhuma noção de tempo, sequer sabe que há horas está sentado, paralisado; como se aquele barco exercesse algum poder sobre o seu corpo. Apenas ao cair da noite, sem ver regressarem Quinho e Pedroca, que ele se levantou e deu início às suas visitas noturnas. Andando em direção ao centro da vila, ele se deu conta para quem seria o casarão construído às pressas pelos batavos e parou em frente ao mesmo, ainda encoberto na escuridão, pois ainda não tinha moradores.

Mas não seria a última vez que o padre Santiago estaria neste local, e nem a última que ele estaria escuro.

Já era por volta das vinte e três horas quando os barcos chegaram ao tímido cais. Pedroca e Quinho estavam desde o início da tarde esperando por essa ocasião, ambos próximos ao atraente barco negro, que o padre dissera supostamente pertencer ao Barão. Logo a música soou alta e forte, em uma língua incompreensível para os dois nativos da terra do Rio Grande. E com a música, homens e mulheres de roupas coloridas em tons pastéis, sem o mínimo arranjo de combinação, começaram a saltar do barco e a trabalhar incessantemente, como se tivessem passado toda a viagem dormindo.

“Gosta de trabalhar, garoto?” perguntou um dos primeiros homens a pular do barco.

“Dependendo de quanto vai me pagar, posso até gostar,” respondeu Quinho.

“Mas veja, tem um menino muito esperto aqui; mas não venha ser mais esperto do que eu, menino!” Pedroca já era um pouco mais vivido, e com um rápido esforço na memória, ele chegou à conclusão correta sobre tal homem.

“Ele é um cigano, Quinho,” murmurou para o menino, “e ciganos não são confiáveis.” O cigano se chamava Anton Valgram. Já iam se afastando lentamente quando o cigano falou: “ei! Para onde vão? Abra os cocos rapaz, estamos com sede e pagaremos em ouro!” Mas foi com receio que Pedroca abriu os cocos e serviu estes homens, temendo não ser pago pelo seu esforço. Os ciganos se deliciaram com os cocos e logo em seguida pagaram uma moeda de ouro a Pedroca, que nunca tivera visto ou tido tanto dinheiro. Esses homens trabalhavam rápido e logo após beberem dos cocos, começaram a trabalhar no transporte dos pertences do Barão.
As carroças com a mudança do Barão já estavam prontas. Eram por volta das três horas da madrugada e mesmo sendo Nova Amsterdã uma vila pacata de cidadãos quase todos religiosos e tementes a Deus, os ciganos subiram a colina que dava para o centro da cidade cantando em voz alta, o que acordou muitos moradores.

Durante o caminho, Pedroca perguntou a Quinho, “será que o tal Barão veio? Nós não vimos ele.”

“Ele veio sim, seu Pedroca, ele veio.”

“E como você sabe, garoto?”

“Porque ele falou comigo.”

“Como, se você não saiu do meu lado, e eu não vi você conversar com ele?”

E apontando para a sua cabeça, o menino olhou para o vendedor de cocos e disse “ele falou aqui; aqui ó!”

2 de novembro de 1646

Era uma noite quente na capitania do Rio Grande. Santiago agora morava com uma beata de nome Maria de Fátima, que o acolheu após ser expulso da igreja — a mesma se tornando domínio do Pastor Jacob. Um homem rústico que tratava Santiago e os católicos do vilarejo com desdém. Eram aproximadamente três horas da madrugada quando o vilarejo foi acordado com a cantoria dos ciganos que subiam a colina com as suas carroças enfeitadas, trazendo os pertences do Barão Van der Vallen. Santiago correu para a porta, abrindo a sua parte superior sem se preocupar com o que veria e o que aconteceria. Logo avista dois conhecidos.

“Quinho, Pedroca!” disse Santiago, achando que sussurrava, mas no silêncio da madrugada era quase um grito. “Venham aqui, por que a demora?”

“Padre, padre, o Pedroca vendeu todos os cocos aos ciganos! Não é isso Pedroca, não são ciganos?”

“Sim, são ciganos, moleque!” respondeu Pedroca. “Padre, eles pagaram com moeda de ouro!”

“Ora que bobagem, seu Pedroca, a prata já é custosa de se ver, imagine se os ciganos esbanjariam ouro!”

Nesse momento, o pobre vendedor de cocos abriu a mão e mesmo na fraca luz da madrugada, a solitária moeda brilhou. Santiago se limitou apenas a olhar seu emblema, guardando na memória para uma investigação posterior. Ele coloca Quinho para dentro de casa enquanto alguns populares despertavam para observar a movimentação dos ciganos.

“Tenha uma boa noite, seu Pedroca!”

“Uma boa noite para o senhor também padre!” disse o radiante vendedor de cocos que já tinha planos para a sua moeda de ouro. Ao fechar a porta, Santiago observa um animal sobrevoar a vila em direção ao rio. Era um pouco anormal seu tamanho para as espécies da fauna local — que era do conhecimento do padre — mas na hora não deu muita atenção, devido aos fatos ocorridos durante o longo dia.

Ao amanhecer, Santiago acorda de seu cochilo momentâneo e descobre por intermédio de Dona Fátima que o menino já havia partido. “Ele se levantou, lavou o rosto e partiu, Padre, só falava nos ciganos e que queria ganhar uma moeda de ouro como a do Pedroca!”

“Meu Deus, Dona Fátima, esse menino junto com aqueles ciganos, não sei o que fazer!”

“Padre, é verdade que os ciganos deram uma moeda de ouro para o Pedroca?” Santiago confirmou com um aceno de cabeça. “Uma vez me disseram que os ciganos são enviados do demônio para fazer serviços em seu nome, é verdade?”

“Não, não, não senhora; somos todos filhos de Deus e devemos nos respeitar, não há nada de demônio aqui, isso eu não permitirei!” Santiago tentava esconder também um pouco de seu preconceito, mas estas palavras deram-lhe um calafrio, apesar do calor e o verão que se avizinha. Após um rápido desjejum, Santiago partiu sem falar mais nada, à procura de José Maurício, um homem forte, ex-soldado da coroa portuguesa e que agora era responsável pela pequena força de proteção civil da capitania — o outro grande poder militar estava no Castelo Keulen, sob o domínio direto holandês e que constantemente recebia embarcações da Companhia das Índias Ocidentais.

Maurício tinha no máximo quinze homens ao seu dispor, espalhados pela capitania do Rio Grande, sendo que as suas forças se concentravam em resolver os problemas dos fazendeiros e não dos trabalhadores, o que tornava uma figura não muito benquista pela população, especialmente os indígenas. Santiago o encontra sentado sob a sombra de um cajueiro nas proximidades da igreja, de onde tinha uma boa visão do casarão recém-construído para o Barão e de toda a atividade dos ciganos.

“Bom dia, senhor José Maurício!” Quase hipnotizado pela observação dos ciganos, Maurício volta-se para Santiago, e após reconhecê-lo, se inclina e segura sua mão, que relutantemente a cede para ser beijada.

“Sua benção, padre?”

“Deus te abençoe, homem.”