Memórias Perdidas 4/4

zumbis

Dia 4

 

Meu ferimento piorou, então decidimos começar a viagem para o Onofre Lopes, antes disso tudo era questão de minutos, hoje é caso de vida ou morte. Decidimos descer o telhado pela casa lateral, tinha dois daqueles demônios, mas em silêncio demos um jeito neles. Engraçado, Priscila não grita mais, não sei o que pensar sobre essa garotinha, mas precisamos ir. A rua de trás parecia tranquila, mas que merda, um surgiu no meio dos carros, o Magro ficou nervoso e foi mordido, que merda, tinha algo nos olhos daquele monstro, ele estava escondido atrás do carro e saiu na hora certa de pegar o Magro e Ricardo mais uma vez não fez nada. Mesmo com dores, matei o bicho, quando olho para cara do safado do Ricardo tenho vontade de resolver a vida dele e a minha, mas eu e o Magro estamos feridos e precisamos desse fi de quenga.

Mesmo com os ferimentos, conseguimos correndo chegar ao Onofre Lopes, entramos por uma das entradas laterais, vedamos o portão e conseguimos nos livrar de uma dezena de monstros. Eu e o magro, feridos, valemos mais que o fdp do Ricardo inteiro, porque que ele não foi mais o gordo? Então decidimos entrar no hospital.

Pela porta da frente? Que ideia massa, Magro, mas não temos escolha. Entramos, o Magro sai com seu facão cortando os zumbis, um deles está prestes a mordê-lo, puxo a arma e disparo, sabendo que posso ter assinado a nossa sentença de morte. Priscila grita ao ouvir o estampido, monstros aparecem no fim do corredor, tiros e mais tiros, matamos os que estão em nossa frente e avançamos prédio adentro, dá para ouvir os grunhidos dos que estão vindo atrás de nós, em nosso caminho alguns aparecem, ao fim do corredor uma sala, que merda, está fechada. Lá vem eles, mais alguns tiros e as balas acabam, olho nos olhos dos meus amigos, agora tenho uma faca em minhas mãos, o suor escorre, limpo o rosto e me dou conta que nesse prédio tem luz, eram quatro, e agora parecem ser dez cambaleando pelo corredor e mais aparecem. O cagão do Ricardo já está rezando. Uma porta se abre, rapidamente entramos.

Era um laboratório que ainda funcionava devido a um gerador e nele estava o doutor Emiliano. Ele cuidou dos nossos ferimentos e amputou o braço do Magro. Enquanto isso eu andei pelo laboratório e achei em uma sala alguns monstros presos em macas, caramba, que merda esse médico está fazendo aqui? Corro até ele e pergunto.

– Doutor, o que o senhor está fazendo aqui?

– Eu descobri um patogênico que retarda o processo de transformação das células.

Leia Dia 1

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Leia Dia 3 

Memórias Perdidas: parte 2 de 4

apocalipse-zumbi

Dia 2

Amanheceu, mas quem disse que dormi com todo aquele barulho de grunhidos e grades forçadas? Priscila estava dormindo (a menina que salvamos no carro), Robson está com muita febre e dores. Bruno aflito, me fala que o Gordo fugiu com Igor, só ouviu o barulho da moto antes do amanhecer. Decido ir atrás de medicamentos para o meu colega, vou para o terreno do edifício, os malditos ficam loucos com a minha presença, não há como sair, Bruno me consola, mas logo uns sucessivos sons de alarmes dos carros são disparados e eu vejo um garoto correndo entre os zumbis. A maioria, parte em busca da presa mais fácil, ficando uns poucos à minha frente, abro o portão, mato três e sigo para a Deodoro, e tenho a grata surpresa de encontrar o Nordestão de Petrópolis (ele sempre esteve ali, mas a essa altura, eu não lembrava mais). Me aproximo lentamente entre os carros, há poucos no prédio, mas muitos na rua, vejo o garoto do outro lado da rua, faço um sinal com a mão e ele se aproxima.

O moleque parece ter uns 10 anos e disse para eu o chamar de Sibite. Falou que ainda resta um pouco de comida, e alguns medicamentos no supermercado. Conseguimos chegar sem problemas, matamos um que ficava na entrada e haviam uns poucos nos corredores, dava para desviar. Recolhemos alguns enlatados e alguns medicamentos (antibióticos, era o que Robson precisa), mas fomos surpreendidos, pelo sistema de som, que atraiu inúmeros monstros. Eles invadiram aos montes; Sibite conseguiu escapar por uma janela de ventilação que era pequena demais para mim. Me desviei, matei alguns, cometi o erro de atirar e atraí mais. Corri para os fundos do supermercado, tinha uma porta e uma câmera. Gritei, implorei, e a porta abriu. Quando entrei, levei um tiro na perna esquerda.

Um vigilante ainda estava refugiado no local, Michel era o seu nome, me pediu desculpas, mas disse que precisa me imobilizar. Tive vontade de mata-lo, mas tinha poucas balas, e o tiro não tinha sido letal, e eu precisava dele para fugir dali. Logo ele me falou de uma saída de ventilação pelo telhado, me levou até lá, escapei pulando algumas casas, e sai pela rua Floriano Peixoto; sem a comida nem medicamentos e o lugar está inacessível. Aquele cara vai morrer mais cedo, ou mais tarde.

Sigo pela rua e encontro mais alguns malditos, logo eles se aglomeram atrás de mim, esquisito, esses parecem ser mais rápidos, tanto, que quando me dou conta, quatro deles me cercam e entro em um restaurante; a porta estava quebrada, eu tento colocar uma mesa para impedir a passagem, mas eles são muitos, novamente cometo o erro de atirar, mais e mais se aglomeram e inevitavelmente sou mordido no braço direito. Penso em minha esposa, penso em me matar; quando vejo um facão decepar os zumbis, era um homem alto, magro, usando a farda do corpo de bombeiros.

O SD Magro, ele se apresentou assim, amputou meu braço, fez um curativo improvisado; encontrou alguns enlatados, e decidimos fugir. Não dava para voltar, tínhamos que seguir em frente, no sentido a catedral, era um dor infernal, eu me lembrei de Robson e dos medicamentos. Logo ouvimos um barulho de moto, era Igor; me senti aliviado ao vê-lo, mesmo tendo inúmeras perguntas. Ele me levou para o sindicato. O Magro seguiu o caminho a pé.

Em nosso refúgio, encontro Robson muito mal, e eu em estado semelhante ou pior. O Gordo deu um sorriso sarcástico ao me ver nessa situação. Priscila chorou, Robson ficou consternado. E Bruno? Havia sido morto, e ninguém sabia explicar como; mas Priscila, me falou que um tiro foi ouvido, minutos antes do retorno de Igor e o Gordo. E eu apaguei, mas ainda ouvi o Gordo questionar o aparecimento do Magro.

Leia  Dia 1.

Sombras de Redenção: Somewhere I Belong


No beco escuro explode a violência
Eu tava preparado
Descobri mil maneiras de dizer o teu nome
Com amor, ódio, urgência
Ou como se não fosse nada

O Beco, Paralamas do Sucesso

orctief2Para mim é como se ela sempre estivesse lá.

No bar.

Quando ela entrou a primeira vez, eu estava enchendo a cara com a galera, feito como sempre, bebendo aquela porcaria de cerveja barata de soja, que eles tentam disfarçar o gosto com mijo de cachorro, mas não dá, o gosto de soja sempre aparece no final, pior que mijo de cachorro.

Tudo hoje tem gosto de soja.

Antigamente, não, os mais velhos dizem que era diferente, soja só de vez em quando, mas eles mesmos não lembram do que é que a cerveja tinha gosto. Só sabem que não era de soja.

Mas eu tô mudando de assunto. Eu faço isso o tempo todo, a galera fica zoada, eu mudando de assunto feito um daqueles xamãs de rua trincados na pôrra do totem deles ou sei lá o quê, falando merda sem parar e aí de repente BUM, o cara do lado dele reclamando sem parar do jogo dos Sonics ganha um buraco novo na cara, aberto de dentro pra fora.

Lá vou eu de novo.

Tavam tocando Here She Comes Again, aquela merda do Concrete Dreams que todo mundo acha foda, mas que eu acho que é só mais um mela-cueca depressivo em loop infinito. Mas naquela noite, quando ela entrou no bar, eu achei que era a música mais bonita da minha vida. Porque ela entrou e olhou direto pra mim, como se não tivesse mais ninguém no bar aquela hora e eu fosse melhor de olhar que as cadeiras e mesas. Foi como se ela ficasse aliviada, sei lá. Parece piada, eu valer a pena olhar duas vezes. Ou até uma. Quer dizer, eu sou ork, cara. Quinze anos, adulto, todo feito. Bela merda, se você pensar direito. Não pareço — em quase nada — humano.

Quer dizer… tá, eu sou forte, mais forte que a maior parte dos caras que não são ork nem troll. Mas não sou como o leão de chácara do Chez Gazelle, aquele cara você tem que olhar duas, três vezes pra ver todo, ou pelo menos até ele te olhar feio de volta. Dois metros e sei lá mais o que de altura, e quase o mesmo de largura. Cento e cinquenta quilos? Pelo menos. Só músculo, o cara. Aquele jeitão calado de milico, de meganha, saca? Perigoso.

Não é como eu. Eu sou igual a todo mundo, se todo mundo fosse ork. Mas deixa pra lá.

Ela olhou pra mim do mesmo jeito.

Entrando no bar como se não fosse o lugar mais perigoso do pedaço, caminhando naquele passo tranquilo de quem entra em casa e tranca a porta reforçada e vê que tá tudo no lugar, o alarme tá inteiro e não tem nada faltando. Segurança, sabe? Ela tinha essa coisa. Como se ninguém nem nada ali pudesse fazer mal pra ela. Andava meio dançando, sei lá, meio no passo de uma música que não era a que estava tocando, mas mesmo assim, era música. Dançando uma coisa que só ela ouvia sem parar dentro da cabeça dela e dançando o tempo todo, cada passo. Eu nunca tinha visto nada tão bonito na minha vida, nem em sensorama, nem em BTL, nada. Nada que nem ela.

O que eu tô querendo dizer é que ela não era bonita como gente, como um ser humano – nem como elfo (aqueles cabelos ruivos e dourados por cima do couro negro cheio de cromo e bottons de neon baratos), se você tá achando isso. Ela não era como a gente. Era melhor, muito melhor. Do jeito que eu achava que todo mundo devia ser quando eu era garoto, quando eu tinha um pai.

E isso nem faz muito tempo.

Ela continuou andando na minha direção e eu feito idiota, fiz o mesmo, ouvindo a galera na mesa reclamar, perguntando pra onde eu ia assim de repente, no meio de uma frase, e só pensando ah, pôrra, não deixa eu fazer papel de idiota, de novo, que merda! E eu fiz papel de idiota, claro, mas ela não se importou.

Ela riu da besteira que eu falei e conversamos a noite inteira sentados no balcão, ela derrubando um copo atrás do outro e nunca parecendo ficar chapada, um sorriso atrás do outro e um copo atrás do outro. Eu tentei acompanhar, mas ela estava em outro nível, sei lá – filtro nos rins? Só sei que acordei no meu muquifo no meio da tarde do outro dia, com uma dor de cabeça que era pra ter me matado, que era pra ter matado qualquer um, até o troll que era leão-de-chácara e muito maior e melhor do que eu. Estava nu, suado e com o corpo dolorido; braços e pernas e abdômen e tudo o mais que tem músculo e cansa e não quebra mas cansa pra cacete. Fiquei um tempo estendido no colchão, olhando para o teto coberto de teias de aranha, rachaduras e aquelas fitas luminosas presas só pelos fios que um dia vão despencar e fritar minha cara e eu vou acabar morrendo sem nem acordar. Fiquei pensando que não lembrava nada depois de uma certa dose, que deveria ter chegado em casa como todas as noites, no piloto automático, bêbado e vomitando e com hematomas que eu não lembro onde consegui.

Mas eu não tinha nada dessa vez, nem sangue seco saindo do nariz, da boca e dos ouvidos. Só o corpo cansado, nu e suado e aquele cheiro que flutuava por cima do suor rançoso de álcool e beta-anfetaminas. Aquele cheiro que não era de flores, mas que poderia muito bem ser. Aquele cheiro dela. Escuto um barulho vindo da sala — engraçado que não tem sala, tem um cômodo que deixa de ser sala, cozinha ou banheiro dependendo da posição da divisória de plástico roído e coberto de spray. Podia ser o gato, se eu tivesse gato, ou se gatos cheirassem como as flores do outro lado da vida.

Ela senta no colchão ao meu lado, sua nudez limpa, sem tatuagens nem cicatrizes nem nada e sorri enquanto passa a mão no meu cabelo desgrenhado de um jeito que nem minha mãe faria (se eu tivesse uma mãe). É quando a coisa toda vem, de uma vez só, a noite toda de uma vez só na minha cabeça e por um instante é tão forte, tão extremo, que eu acho que vou estourar uma veia ou sei lá, mas não acontece nada. Eu continuo vivo, com ela ali do meu lado, passando a mão no meu cabelo com um sorriso tão bonito que tem que ser implante.

Ela abaixa a cabeça e me beija e toda aquela sensação parece que piora, até eu entender que não é dor, que não é medo. Que é um alívio que eu nunca senti antes quase me faz chorar; só que o hábito não deixa. E nós nos abraçamos e fazemos a noite anterior parecer um ensaio. Eu fico pensando que minha vida pode até parecer que vai ficar boa, sem tentar me acostumar muito com a ideia. Eu quase acredito nisso. Porque dura muito. Dura semanas.

Tudo parece que dá certo demais enquanto ela tá por perto, enquanto ela tá comigo. Eu posso até esquecer que não tive uma vida antes disso tudo que não fosse feita de brigas e trabalhos de última categoria, de finais de semanas afundando no BTL, na solidão e sentindo que tudo o que você pode fazer é engolir toda a merda que a sua vida virou e que qualquer sonho que você tenha não vale nem o tempo que você dorme para poder sonhar. Porque nada nunca vai ser do jeito que você sonha.

Mas com ela isso não importa. Porque pela primeira vez eu pertenço a alguma coisa. Eu pertenço a essa coisa que não é ela — é isso que nós dois nos tornamos, que nós dois somos juntos enquanto fazemos meu apartamento virar um lar ao invés de um pit-stop de go-gangues. Ela traz a grana pesada — não vou enganar ninguém, nem a mim mesmo, achando que isso tudo mudou tão rápido só porque ela entrou na minha vida. Ela tem grana. Quando eu saio pra trabalhar, eu não sei onde ela consegue o dinheiro. Joygirl? Pode ser. Mas não quero saber, não quero ter ciúme. Só quero que isso não acabe mais.

Porque se acabar, eu vou junto. Às vezes ela me pergunta na madrugada, quando as sirenes e os tiros os canhões anti-tumulto se cansam da vizinhança e tudo que dá pra ouvir são as pessoas do cortiço na frente varrendo os cartuchos vazios da calçada — Por que você vive assim?

Era pra eu aproveitar pra dizer que a voz dela é feito música, mas não é bem assim. É como se ela estivesse acompanhando aquela melodia que parece tocar o tempo todo na cabeça dela, aquela coisa que faz ela dançar pelo dia — bailarina, atleta, ginasta, sei lá.

— Você fala, até parece que dá pra escolher — eu respondo, meio aborrecido, mas não de verdade. Não com ela.

Mas ela sorri sem mostrar os dentes e espera eu responder de verdade. Ela quer que eu fale sobre meu pai.

Quer dizer, ele não é meu pai de verdade. Pra começar, ele é humano. Mas foi a primeira pessoa que olhou pra mim no esgoto onde eu cresci, no pior buraco dos Puyallups, a primeira pessoa que olhou pra mim e não virou os olhos, com nojo, raiva ou medo. Ele se aproximou de mim e disse venha comigo de um jeito que eu não tinha como dizer não, embora não fosse, pensando bem, a coisa mais inteligente pra se fazer. Mas eu só tinha dois anos e nem sabia mais pra que lado ficava a casa com os irmãos e a mãe. Não era meu pai, mas foi a coisa mais parecida que eu conheci.

Ele e os amigos deles. Todos eram humanos, ou quase todos. E todos eram cuidadosos comigo, como se tivessem medo dele, ou tivessem medo de algo que ele pudesse fazer se olhassem pra mim do jeito errado. Mas nenhum deles olhou pra mim de outro jeito que não fosse com um pouco de pena, eu acho. Eu aprendi muita coisa com ele, com meu pai. E com seu amigos. O que eu mais aprendi foi aa sobreviver. Aprendi a lutar, a manter minha palavra, a defender meus amigos. Aprendi a ser um homem. Mesmo sendo um ork. Ele dizia que não fazia diferença, que no fim das contas, somos todos humanos. Eu nem sempre acredito, mas aprendi a sempre dizer isso. Então eu cheguei em casa um dia e ele não estava mais lá. A casa vazia, só um credstick no chão perto da porta — mais nuienes que eu podia gastar num ano. Sem bilhete nem nada. Eu tinha doze anos e já era um homem. Ou um ork.

Foi o pior dia da minha vida, descobrir que eu já era um homem. Mas ela sabia daquilo tudo. Eu já tinha falado daquilo tudo antes, várias vezes, de várias maneiras diferentes. Eu sorri de volta e ela passou a mão no meu braço, querendo dizer que não importava, que aquilo tudo não importava; eu ficava pensando que não importava mais, que bastava ela.

No dia seguinte, eu acordei com uma voz diferente na casa. Foi quando as coisas começaram a mudar.

Ela e uma amiga conversavam na porta, em alguma língua que eu não conhecia. Talvez chinês. A amiga dela parecia chinesa. Ou coreana. Ou tailandesa, eu não sei. Não era japonesa, não tinha aquela arrogância de quem sabe que é melhor do que você, só por ter nascido assim. Era bonita e pequena, feito um brinquedo, como uma daquelas apresentadoras virtuais de SenseTV – AnimeGirl, PixeLass, uma dessas coisas com um símbolo de marca registrada no final. Eu não sabia como ela tinha chegado no bairro sem um rifle de assalto pendurado nas costas, porque tem um mercado negro hoje em dia só pra olhos que nem os dela. Ela me apresentou sem dar nomes. A outra me fez uma reverência, baixando a cabeça quase até a cintura, os braços juntos do lado do corpo. Como se fosse algo muito importante estar ali na minha frente. Eu tentei repetir, mas acho que meu corpo não foi feito pra esse tipo de gentileza e saiu tudo esquisito. Ela não riu, nem torceu o rosto nem nada. Ficou apenas ali, muito séria, me encarando, como se eu fosse Jetblack voltando do túmulo ou coisa parecida. Aí ela se despediu e foi embora.

Naquela noite nós não saímos.

Ao invés disso, ela me abraçou de um jeito como se eu fosse morrer, me beijou e foi embora sem dizer nada, sem levar nada, vestida do mesmo jeito que estava no dia em que nos conhecemos. Eu só pude ficar parado e pensar em como a minha vida era uma merda de novo, e como aquilo só fazia tudo que veio antes parecer pior, muito pior do que ficar sem sonhar — e eu nem sonhava mais antes dela. Aí veio subindo um nó que eu achava que era na garganta, mas era uma coisa maior, que nascia de um buraco sem fundo lá dentro do peito e crescia e parecia que ia estourar, espremendo as lágrimas pra fora, eu só me ouvia rosnando alguma coisa que nem eu entendia enquanto sentia o mundo rodar na minha frente.

Rodando e caindo e quebrando.

A primeira coisa que eu pensei foi em quebrar tudo, em derrubar o apartamento todo com as mãos e pés — eu não sou muito forte, eu não sou muito grande, mas eu posso fazer isso, eu posso quebrar um apartamento inteiro do mesmo jeito que dois caras fortes com marretas. Mas eu não fiz isso. Eu deixei o apartamento em paz e fui brutalizar todos os bares da vizinhança — em especial os que não deixavam mais eu entrar. Não foi bonito, não foi bom pra ninguém mas naquela noite eu não estava bom também, então ficou tudo na mesma pra todo mundo. Em alguns lugares eu pedi, em alguns lugares eu briguei, Mas eu bebi em todos. Em todos.

Eu acho que o dia já estava nascendo quando eu vi que tinha chegado — pela noite de brigas e encontros com a sarjeta e uma neblina vermelha de álcool e estimulantes — no pior lugar da vizinhança. E aqui nos Puyllaps, isso quer dizer muita coisa. Mas era perfeito. A minha vida acabando daquele jeito, na mão de quem eu mais odiava sem nem saber porquê. Go-gangues do caralho. Encostei na esquina que dava de frente pra sede dos caras, um cortiço velho e acabado de primeiro andar onde eles consertavam as motos e davam festas e planejavam as merdas com o bairro todo: Chillers Thrillers. A pior go-gangue da zona, cobrando proteção de todo mundo. Toda semana. Motoqueiros cromados até os ossos, com aquelas tatuagens de fantasmas polinésios cobrindo a pele, viciados em BTL de tortura. Gritei pra o prédio e quem tivesse lá dentro as maiores merdas que eu lembrava e que o álcool deixava dizer. Mas eles não saíram pra me pegar.

Estavam ocupados. Ouvi barulho, não era comigo. Esperei mais um pouco. Era uma festa? Ninguém tinha me ouvido? Cheguei perto da porta, mais suicida que nunca.

Era a maior cena de carnificina que eu já tinha visto; em trídeo, sensorama, na vida real — O cortiço parecia que balançava na minha vista inflamada de bebida e dor, tremendo com o clarão de armas silenciadas que cortavam aquela escuridão traiçoeira da madrugada com munição traçante a mil e quinhentos tiros por minuto. Alguém estava matando os caras do mesmo jeito de quem chuta um cachorro morto: com força e sem remorso.

Fiquei sóbrio de repente, o sangue gelando. Mesmo assim, eu dei mais uns passos pra ver o show. Sobrevivência já tinha deixado de fazer parte do meu estilo de vida desde o começo da noite. Pela porta derrubada, eu podia ver o vão do térreo onde um dia teve uma garagem — coberto de corpos. Acho que quase metade da gangue, sei lá, estavam no chão, no meio de lixo e peças de motos depenadas. Os cartuchos choviam no chão, o bronze cortando uma neblina de pólvora, que era o ar que elas respiravam: a chinesa — agora eu tinha certeza, ela só podia ser chinesa, porque crueldade é um negócio genético — saltava entre as colunas de sustentação e as paredes quebradas, com uma Ingram Neuro em cada mão, dando rajadas curtas com aqueles bracinhos finos que não tremiam nem uma vez enquanto ela cortava os caras na bala de um em um. Era que nem ver um daqueles trídeos velhos de samurais, o mundo passando de câmera lenta pra uns borrões que mal davam pra ver o que tava acontecendo e depois pra câmera lenta de novo. Coisa de dançarino, pelo jeito como ela matava. Parecia que ela tava fazendo um favor pra eles, matando com arte.

A vista ficou turva um instante e eu arriei nos joelhos, sentindo o chão grudento de sangue e óleo e lama, mas não estava nem aí.

Ela estava lá.

Linda, louca e furiosa, correndo pelos destroços do andar de cima, gargalhando enquanto homens com o dobro do tamanho e do peso caíam feito sacos de lixo, morrendo com golpes das mãos nuas, os ossos trançados de titânio e plástico quebrando feito isopor. As mãos com a mesma ternura que fazia amor comigo, com a agilidade de quem tem as juntas girando para todos os lados errados e todos ao mesmo tempo, dançando ao som de algo rápido, pesado e denso e agora eu sabia:

Here She Comes Again.

Tudo terminou muito rápido, também que nem nos filmes. Elas nunca me viram ou nem fizeram nem questão de me ver. Naquela hora eu também não me senti com vontade de me verem. Eu tinha trepado com uma deusa da morte e nossa vida juntos era a mesma que dava à luz membros despedaçados feito plástico barato. A vizinhança me encontrou no mesmo lugar, de joelhos, coberto da cabeça aos pés de borrifos de sangue e sujeira do massacre, pensando que tinha sido obra minha, que eu havia seguido o caminho de meu pai, que — pôrra.

Que eu era um herói.

Mas não tem heróis numa favela.

A noite seguinte, eu passei tentando esquecer do melhor jeito que dava, que era enchendo a cara de novo. Todo mundo fez o possível para me ajudar, achando que eu tava em choque, que eu estava… Sei lá. Mas eu estava só morto por dentro, porque tudo o que eu acreditava e que eu tinha me atrevido a sonhar tinha virado uma piada de merda e de mau gosto.

Depois de três noites o que restou da gangue — fazendo negócios em outro bairro — me encontrou no Matchbox, tentando morrer na boca da garrafa, um gole por vez. Os caras não estavam felizes.

No começo, a dor me deixou feliz. A dor me deixou completo. Eu vi que a minha vida toda tinha sido para esse fim e para esse momento. Mais um ork massacrado em uma briga idiota de bar, por cinco caras com cento e trinta quilos de cromo no corpo. Tudo fazia sentido, tudo estava certo. Eu não tinha nada quebrado ainda. Eles eram cuidadosos e tinham experiência no que faziam. Evitavam os órgãos principais e as artérias, pegando só os lugares onde doía mais. Podia levar uma hora, sei lá, quem sabe mais. Eu sou forte.

Meu pai sempre me disse que eu era forte.

E por algum motivo idiota, aquilo me fez pensar em todo o tempo em que a gente praticava, nas coisas que seus amigos me ensinavam, coisas que um corpo humano — ou o meu, seja lá o que a gente era pra entender quando diz humano — não devia ser capaz de fazer. Como esmurrar ferrocreto, madeira, metal, carne; sem sentir a diferença. Coisas assim. Aquele buraco dentro do meu peito gelou, ficou escuro e perigoso. Não era só por mim. Me pai dizia aquela merda de sempre, éramos todos humanos, e eu pensava que não era bem assim, que não era bem assim, que tinha coisa que faziam diferença, que tinha gente que não ia gostar de mim, pôrra, tinham gente que ia me odiar só porque eu era ork.

E naquele instante, a única coisa que veio na minha cabeça foi se não somos todos humanos, se eu não sou igual a você, por que é que eu tenho que ser menor que você? Aí eu parei de sentir dor.

O primeiro deles, que estava chutando as minhas costelas, foi uma coisa meio descuidada, agora eu sei. Mas as botas com biqueiras de metal dele incomodavam, então eu quebrei a perna do cara na altura em que o fêmur se encontra com o quadril. Algumas coisas você nunca esquece. Basta um movimento rápido, do jeito certo, sem precisar nem de muita força. Mas eu usei muita força. E eu sou forte, muito forte. Os outros deram pra trás quando me viram deitado, segurando uma perna inteira na mão, me encharcando de sangue enquanto seu amigo estrebuchava do meu lado, com um jato de roxo arterial escapando do lugar onde devia ter uma coxa. Levantei do chão, os caras com os olhos presos em mim sem entender. Mas eu entendia tudo.

O resto foi fácil. Não foi bonito.

Mas foi fácil.

***

— Juan.

— Diz.

— O que você vai fazer agora, cara?

— Hein?

— Cê vai começar sua gangue, cara?

Eu baixei os olhos pro chão e pensei bem. O chão do Matchbox tava limpo, o sangue lavado e desinfetado já tinha mais que um dia. O cheiro de morte, de açougue tinha sumido e deixou só o de álcool e anfetaminas de terceira que era a marca registrada do lugar. As coisas estavam mais claras na minha cabeça: gangue não. Gangue era coisa do tempo em que eu era garoto, que correr solto na rua e fazer merda sem saber nem por que, era só o que a gente tinha. Mas eu era um homem agora e tinha que ter sonhos de homem.

E porque meus sonhos sozinhos não iam pra canto nenhum, eu respondi:

— Não. Sem gangue. Só a gente. Só o bairro todo.

E ele foi chamar todo mundo.

Sombras de Redenção: Blaze of Glory

Há uns dez anos atrás, quando eu estava narrando em Shadowrun 2ª Edição, escrevi uma série de contos com personagens centrados no tema principal da campanha, a redenção de criminosos profissionais em prol de um mundo melhor (sério!). Embora possa parecer inverossímil a princípio, foi uma mudança de rumo interessante e que deu origem a quatro pequenas estórias de NPCs que apareceriam esporadicamente dentro da campanha para orientar os personagens dos jogadores. Esta foi a primeira que escrevi:

Shadowrun: Anarchist Berlin, by raben aas

“Eu não miro com minha mão.
Aquele que mira com sua mão esqueceu a face de seu pai.

Eu miro com meu olho.

Eu não atiro com minha mão.
Aquele que atira com sua mão esqueceu a face de seu pai.

Eu atiro com minha mente.

Eu não mato com minha mão.
Aquele que mata com sua mão esqueceu a face de seu pai.

Eu mato com meu coração.”

— A Litania do Pistoleiro, Stephen King.

Eu digo e repito: nunca mire na cabeça. Mirar na cabeça só vai resultar em uma bala perdida (se você não tiver a mão firme ou um bom compensador de recuo) ou em um cadáver. E a guarda do Metroplexo não paga por cadáveres, a menos que eles sejam classificados como integrantes dos cem mais procurados pelas agências policiais da UNECAN ou dos EACON. Contudo, os EACON têm o hábito de fazer vista grossa se o prisioneiro ainda estiver vivo — mesmo se for por pouco tempo.

Assim, a maior parte dos meus serviços vai para os EACON. É simples, na verdade.

Eu deveria dizer que o trabalho em si não é simples, bem como o seu aprendizado. Na verdade, a única coisa fácil são os horários, a liberdade de escolher seu equipamento (caçadores de recompensa licenciados têm acesso à maior parte do instrumental padrão da polícia — sim, mesmo Lone Star) e de definir quais tarefas serão executadas e em que ordem.

Todo o resto é difícil, muito difícil, e eu não recomendaria este trabalho para ninguém, a menos que você goste de passar a maior parte do seu tempo em uma dieta de bagana e café gelado. Se você tem algum vício pessoal (eu estou tentando largar os cigarros, são péssimos para a visão noturna), eu também aconselharia a largá-lo ou procurar outra atividade.

Não há nenhum treinamento institucionalizado para a atividade, e se houvesse, eu não sei se seria capaz de apontar uma boa escola. Caçar gente na rua é uma coisa que só se aprende na rua. Ponto final.

— Comece com a comida. O que você come?

— Bom… Eu estou fazendo uma dieta, sabe?

— Pra quê?

— Pra quê? Bom, pra emagrecer. Eu sei que sou gordo, e isso é ruim nessa profis — Ai! — O que eu disse de errado?

— Primeiro, que queria emagrecer. Depois, que caçar era uma “profissão”.

Eu fiquei esperando um segundo ou dois antes de abrir a boca de novo. Não queria levar um outro tapa daqueles. Como não veio, eu perguntei, desta vez já preparado:

— E o que é, então?

Ele coçou a cabeça, impaciente. Tinha a cara de quem tenta explicar alguma coisa muito simples para um retardado e a explicação possível mais simples não foi o bastante. Na verdade, eu levei muito tempo pra entender essas coisas pelo rosto dele. Kane não é o que se pode chamar de expressivo. Aliás, é Kane, não “sensei” ou “mestre”. Chamar ele de “mestre” ou “sensei” garante que você vai levar uma surra ao invés de um tapa na cabeça.

E os tapas já são ruins o bastante. Achei que ia ter um derrame ou coisa parecida depois da primeira semana.

— O que acontece quando você vê um cara gordo na sua frente? Querendo confusão?

— Bom, se ele for forte…

— Não. Só um cara gordo, do seu tamanho, do seu peso.

Pensei um instante em como eu pareço no espelho. Não é grande coisa. Tenho um metro e setenta e coisa de uns cento e vinte, cento e trinta quilos, dependendo da semana de rodízio de pizza. Uso o cabelo comprido preso num rabo-de-cavalo (não é tão comprido assim) e cavanhaque. O tipo de cara que você para pra rir quando encontra na rua.

— Eu acho graça… certo?

Foi a primeira vez que vi a coisa mais próxima de um sorriso aparecer no rosto dele.

— Sim. É isso que todo mundo acha. Um cara gordo e pequeno é só para fazer rir.

Eu acho que devo ter mudado de expressão de uma forma muito drástica, porque no instante seguinte, ele disse:

— Esta é a primeira coisa que você aprende comigo. E é a mais importante. Não porque é a primeira, mas porque é sobre você.

— Porque eu sou gordo?

— E ninguém vai achar que você é capaz de alguma coisa. Ninguém vai levar você a sério. O que acontece quando ninguém acha que você é uma ameaça? — eu tive que pensar um instante pra responder, mas a resposta veio logo.

— Todo mundo vai baixar a guarda perto de mim. — era simples.

— E essa é a segunda coisa que você aprende comigo: um inimigo de guarda baixa é um inimigo pela metade.

Eu assenti e quase disse “sim, sensei”. Mas a cabeça já doía o bastante, então eu achei que na verdade, tinha aprendido três coisas naquele dia.

E às vezes o trabalho nem compensa tanto. Veja só o meu caso: esse cara que eu estava caçando devia mais de trezentos mil nuyens em golpes de credstick em variadas transações dentro de bancos e lojas de conveniência. Pura esperteza; nunca usou uma arma, só crédito falso e empréstimos em contas fantasmas pela Matrix. Claro, ele não deve agir sozinho. Pode ser uma quadrilha, ou só ele e um tecnauta experiente que prepara o terreno.

Você começa daí.

A recompensa não é muita coisa, mas o banco pode se mostrar agradecido e abrir uma linha de crédito pra você. Quando sua maior despesa são custos de manutenção com armas, munição e equipamento de vigilância, uma linha de crédito nunca é demais.

Então você passa uma semana chacoalhando seus contatos, outra semana perguntando nos vizinhos para confirmar o endereço (o truque é nunca dar a impressão que você quer achar o alvo: diga que é o funcionário de uma firma legal que tem que fazer um pagamento a ele e que você está aliviado por não encontrá-lo; o dinheiro acabará ficando com a firma).

E é aí é que o trabalho de verdade começa.

Não foi difícil arrumar um lugar perto da residência dele. O alvo é esperto e mora em um apartamento de classe média, num condoplexo discreto e sem muitos luxos. Nem aparenta ter todo aquele dinheiro em notas de crédito e credsticks avulsos legalizados através de sabe deus quantas operações de lavagens de dinheiro automatizadas na Matrix.

Você monta o equipamento de escuta, os grampos de linhas de comunicação, instala câmeras e espera; com sorte, mais uma semana.

Um mês depois, você já sabe que ele realmente tem um tecnauta trabalhando pra ele(anão, por sinal. Deve haver um clichê maior, mas esta não é minha linha de trabalho), que eles se encontram duas vezes por dia no apartamento, e que o alvo tem uma namorada que deve ter investido pesado em implantes cosméticos. Algumas vezes esta atividade vale a pena.

Aí é hora de fazer a prisão.

Isso quer dizer que você pega uma arma leve, carrega com munição não-letal, leva um taser só por precaução e se achar que vai ter problemas, uma arma extra. Pra garantir, duas granadas de ofuscamento, coloca uma blindagem leve e pronto: você já pode chutar a porta, dar voz de prisão e ir até a representação dos EACON mais próxima pegar o dinheiro.

Bem simples, né?

Só que não.

— Como você mata alguém?

Kane às vezes faz essas perguntas que parecem idiotas na primeira vez que se ouve, mas que depois de três ou quatro tapas, tornam-se verdades sábias, gravadas a fogo no fundo da sua alma. Geralmente ele espera até que você esteja fazendo algo que precisa de muita concentração e força, como disparar um fuzil de assalto em modo automático e conseguir que todas as balas caibam num círculo de dois centímetros e meio no centro do alvo.

— Com uma arma?

Ele virou a cabeça de lado, como se considerasse a pergunta.

— E o que é uma arma?

— O que eu estou segurando?

Dizer que os tapas vêm sem aviso é enunciar o óbvio. Ele estava a dois metros de mim, mas no instante seguinte, estava no local onde eu me encontrava de pé, segurando meu rifle descarregado enquanto eu rolava na poeira, a quatro metros dali.

— Errado.Você é a arma. Estas coisas grandes e desajeitadas que cospem pedaços de chumbo são apenas ferramentas. Não são nem mesmo extensões de você. Só servem para encurtar a distância até seu alvo, enquanto você for um aprendiz.

Claro, claro. Eu deveria saber disso. Ele me massacra há semanas, mesmo eu sendo capaz de cortar qualquer outra pessoa ao meio com uma arma automática. Um aprendiz.

— Quando você for um profissional, lembre-se de que estas coisas têm uma função muito simples, que é inferior à que você possui.

E com um movimento que eu não posso estar certo de ter visto por inteiro, ele recarregou o M-23 e disparou com displicência, a arma firme na altura do peito, quase não olhando para o alvo e usando uma só mão. Todas as balas passaram pelo mesmo buraco, em três ponto dois segundos.

Um aprendiz.

A essa altura, você já conhece as rotinas principais de todo o prédio, e pode passar pelos corredores e subir no elevador sem ninguém te ver. A segurança desses lugares de classe média é pequena: nada de vigias, apenas umas câmeras baratas que às vezes funcionam e um botão de AtivaAlerta da Lone Star em cada apartamento. O mais importante é que você não chuta a porta. Você coloca umas poucas gramas de explosivo plástico nas dobradiças e na fechadura. Detone-as, e jogue uma granada de ofuscamento logo em seguida.

O resto deveria ser simples.

Mas eu não contava que o tecnauta tivesse duas Berettas 101T com munição explosiva e a namorada, mais implantes de combate que o go-ganguer médio. O alvo ficou gemendo no chão, com a mão nos olhos, atordoado, cego e molhando as calças enquanto eu começava meu aviso de prisão.

Quatro tiros mal dados abriram buracos na parede acima e à esquerda da minha cabeça. Duas armas em cada mão é um pouco demais, mesmo para mim. Não é de se espantar que o tecnauta tenha errado. Agora, a namorada é outra conversa. Ela esticou o braço na minha direção, mostrando a palma da mão com os dedos bem abertos, sem mostrar nenhum sinal de estar ofuscada. Eu sabia que o anão contava com uma visão termográfica residual, mas ela deveria ter algum tipo de compensação ótica. Enquanto eu perdia tempo pensando nisso, um trem de carga de doze vírgula cinco milímetros me atropelou e quase que a noite acaba ali mesmo.

— E se as coisas derem errado durante uma caçada?

— Nada dá errado. Você pode fazer elas darem errado.

Mantive minha expressão idiota de quem não tinha entendido nada. Era bem melhor do que dizer algo errado e ganhar mais um hematoma na cabeça.

— Quando você não planeja, quando você acha que sabe o bastante sobre o alvo. Aí você faz as coisas darem errado.

— E aí? O que se faz?

— Você morre.

Engoli em seco. Não gostava de pensar nesse tipo de resultado.

— Mas você é um aprendiz. Aprendizes costumam ter sorte, no começo.

— E os profissionais? Se não têm sorte, têm o quê?

Quando levantei meu corpo dolorido do chão e me dei conta de que desta vez, o nariz tinha sido definitivamente quebrado, ele me disse:

— Profissionais não precisam de sorte.

Tirei a mão do nariz, coberta de sangue. Naquele momento, ele me pareceu a coisa mais próxima da morte que eu já tinha conhecido. Kane suspirou.

— Eles têm coisa melhor.

Encostei o corpo no que restou da porta, ainda presa por uma dobradiça à moldura e disparei com a arma na mão esquerda em direção ao tecnauta. Ele não era o alvo mais importante, mas com duas armas atirando ao mesmo tempo, uma hora ele ia acertar alguma coisa, mesmo que levasse a noite toda.

Obviamente, eu não tinha a noite toda.

Foi por isso que trouxe as minhas Berettas 200ST. Uma delas ia para o chão, porque com a mão direita eu sacava o taser. Mas a da esquerda colocou seis cartuchos de gel no esterno do tecnauta. Quase pude ouvir o osso partindo enquanto ele caía desacordado e muito provavelmente precisando de assistência médica. Mas eu tinha outras coisas para me preocupar. A namorada do alvo, por exemplo. Como eu imaginava, a espingarda implantada no braço só tinha um cartucho. Um recurso defensivo comum em quem tinha membros bioeletrônicos como necessidade profissional.

Infelizmente, não era só o que ela tinha.

As lâminas saltaram sob as unhas — todas as dez. Cromadas e brilhando sob a luz indireta da pequena sala, elas descreveram um movimento duplo fechado sobre meu braço esquerdo, que teria sido cortado fora na altura do cotovelo, se não fosse pela armadura anatômica. Lembrem-se bem disso: proteção corporal nunca é demais. Mesmo assim, aquele braço já era, pelo menos até eu poder costurar os tendões de volta no lugar.

— O que eu faço com a dor?

— Ignore.

— Falar é fácil…

Arregalei os olhos, não acreditando que tinha dito aquilo em voz alta. Mas tinha sido um dia difícil, e Kane parecia estar particularmente mal-humorado. Trinquei os dentes e relaxei o corpo, esperando pelo tapa, mas ele não veio. O que havia de errado? Ele olhava para mim como se fosse pela primeira vez.

— É verdade. Falar é fácil. — ele ponderou por mais um instante, como se estivesse decidindo se eu era digno ou não da informação — as a dor pode ser ignorada, embora você não deva se acostumar com isso. A dor não deve ser esquecida. Ela também é sua aliada. A dor lhe ensina.

Bom, era verdade. Kane me dava muitas lições todo o dia, e a maior parte envolvia o quesito dor.

— Então eu não devo ignorá-la?

— Não. Você deve abraçá-la. A dor é sua amiga. Ela lhe lembra de que você está vivo.

É aqui que se diferencia o novato do veterano: você tem garras de carbono, um braço bioeletrônico, uma arma implantada, reflexos ampliados e olhos bioeletrônicos com amplificação luminosa e compensadores de ofuscação. Um gordo de sobretudo com rabo-de-cavalo e cavanhaque chega na sua frente gritando ordens, e ele não apenas perde uma arma, mas deixa a outra cair, logo antes de você transformar o braço dele em espaguete. O que você faz? O que todo mundo faz.

Ela riu. Riu e avançou para terminar o serviço.

No tempo em que levou para rir, eu saquei a Defiance Super Shock — modelo padrão, modificado para usar dardos capacitores —, destravei, regulei para carga máxima e rajada automática. Ela recebeu os quatro dardos no pescoço de uma vez só.

Cada dardo tem uma carga nominal de cinquenta mil volts. Um dardo não é letal, geralmente. Mas ela recebeu quatro. Faça as contas.

Seus bioeletrônicos fritaram antes do cérebro, o que permitiu um grito engasgado e um passo para frente, de forma a poder morrer tranquilamente aos meus pés.

Olhei ao redor. Dez segundos haviam se passado. A namorada guarda-costas estava morta, o tecnauta respirava com dificuldade pela boca, através de uma barba de espuma avermelhada e o alvo estava morto, com dois buracos fumegantes nas costas.

Como eu disse, uma hora o anão ia acabar acertando.

Antes que as sirenes chegassem, eu já estava no térreo, com a chuva começando a cair com uma irritante disposição para terminar o que poderia ter sido uma boa noite de trabalho. O que tinha dado de errado? Passei as horas seguintes costurando o braço e empacotando o equipamento. Do outro lado da rua, o bloco de apartamentos do alvo fervilhava de testemunhas, policiais e mídia. E eu não sabia quem era pior.

As coisas estavam diferentes naquele dia. Kane estava sentado na mesa — inacreditavelmente vazia —, sem sua habitual carga de diferentes armas, munições e kits de limpeza e lubrificação. Não haviam alvos no estande de tiro. O lugar nem mesmo cheirava do mesmo jeito.

— Qual é seu maior medo?

Aquilo era meu maior medo. Quando ele me ensinava algo novo, que eu nem tinha idéia do que seria.

— Da morte?

— Você já está morto, menino. Desde que nasceu. Foi a primeira coisa que aprendeu, quando eu te encontrei. Você aceita isso, ou desiste. O que mais?

Morrer não era. Sofrer? Não, dor também não. Do que eu tinha medo? Foi simples descobrir: bastou olhar para a mesa vazia de armas, das coisas que eu conhecia intimamente e nas quais confiava minha vida e minha recém-descoberta arte. Ele acenou com a cabeça, confirmando meu pensamento.

— Hoje você vai aprender que tudo isso é besteira, que tudo isso que eu venho lhe ensinando só serve como peso de papel quando está sem munição. Mas o que é que nunca fica sem munição?

Eu olhei para minhas mãos desarmadas, tentando entender. Fiquei ali um longo tempo, imaginando que tipo de arma não ficava sem munição. Só quando deixei de olhar para o que não estava nas mãos foi que entendi. Fechei os punhos com firmeza até que os nós dos dedos ficassem brancos e olhei de volta para ele.

— Bom. Vamos começar. Mas não se preocupe: eu trouxe algo pra você.

E saiu da mesa, mostrando a caixa de primeiros socorros que ocultava com o corpo.

Acho que ficamos ali por três dias, não sei bem. Também podem ter sido três horas. Depois de um determinado pornto, o tempo deixou de fazer sentido. O soco começou sendo só um soco, depois deixou de ser só um soco e finalmente voltou a ser só um soco. Eu não sei. A única coisa que ele me disse foi para bater com força, bater no lugar certo e para bater sempre primeiro.

E também fez questão de não parar até que eu tivesse conseguido quebrar seu nariz.

Eram três me esperando no apartamento, apesar de todos os alarmes e todas as precauções. Apesar dos sensores de infravermelho na porta e nas janelas e apesar dos explosivos acionados por pressão embaixo do carpete de entrada.

Eu realmente odeio ninjas.

Mas quando você mata uma guarda-costas oriental de um estelionatário em ascensão a serviço da Yakuza, o que mais você pode esperar senão a Yakuza? Pelo menos eles eram profissionais também. Não é tão ruim morrer quando há profissionais cuidando de você. Não é vergonhoso nem desonroso. É apenas ridículo.

O primeiro saltou sobre mim da escuridão da sala, brandindo uma droga de uma espada samurai. Aposto que estava coberta de dikote, pelo reflexo e pelo som enquanto cortava o ar em direção à minha cabeça. Ele não era o problema. Em algum lugar da sala, seus dois companheiros esperavam que eu me concentrasse nele para descarregarem duas espingardas de assalto na minha direção. Quem sabe até com munição perfurante, ou se eu estivesse realmente com sorte, flechette.

Eu sabia que o imbecil da espada deveria estar blindado da cabeça aos pés, com aquele capuz colante mostrando só os olhos. Então, atirei nos olhos.

Olhos são um alvo fácil, brancos e brilhantes, refletindo de volta toda a luz ambiente quando olham para você. O resto do pente da minha 200ST foi para ele. À queima-roupa e através de tecido macio, até mesmo projéteis de gel não-letal fazem um bocado de estrago. Atravessam a órbita do crânio e esmagam os ossos frágeis acima da cavidade nasal, enviando uma chuva de fragmentos para o cérebro.

O truque é pular no chão enquanto faz isso, com a arma em modo de rajada e um braço inutilizado.

Eu rolo para o lado do capanga número dois — fácil de identificar pelo desodorante barato e ineficiente —, ouvindo as espingardas pulverizarem o local onde eu estava meio segundo antes. Centro e trinta quilos de corpo humano são uma coisa impressionante quando acertam nas pernas de alguém. Fazem ela literalmente subir no ar. No escuro, com a adrenalina jorrando de todos os poros, com seus implantes oculares ofuscados por disparos contínuos de espingardas, o capanga número três fez o melhor que pôde e descarregou o resto de seu pente — eu contei os tiros de cada um deles — no seu colega, que me cobriu de sangue alheio e estofamento do sofá.

Deviam estar usando espingardas CMDT sem neuroconexão, ou ele não teria pressionado convulsivamente o gatilho por dois segundos inteiros após a munição ter acabado. Agora, existe uma coisa importante a se saber sobre mim. Eu sou gordo, uso um rabo-de-cavalo e cavanhaque. As pessoas tendem a confundir isso com estar fora de forma. Não é o caso. Boa parte dos meus centro e trinta quilos é composta de musculatura sólida, que eu cubro com gordura cuidadosamente cultivada por idas frequentes a restaurantes de comida italiana e africana. É fantástico o que o amido pode fazer por você. Faz parecer que você é apenas mais um gordo lento e desajeitado, outro alvo fácil.

Faz você parar para rir.

No primeiro segundo, eu estava de pé, e no seguinte, esmurrando seu pescoço exposto com o punho fechado, colocando o meu peso e a velocidade do deslocamento por trás de tudo. Isso é outra coisa que eu aprendi: artes marciais são besteira. Você só precisa saber onde bater, com força e com precisão. Todo o resto é inútil.

Ele esguichou alguma coisa pela boca dentro de sua máscara e caiu, talvez com o pescoço quebrado. Eu não sei. Mas quando eu bato desse jeito, ninguém levanta — pode ser ork ou troll, não levanta mais.

Eles não eram nem uma coisa nem outra.

Juntei o que cabia no carro e saí sem fechar a porta.

Aquele dia foi diferente dos outros, porque foi quando eu aprendi o que ele tinha de melhor para me ensinar.

— Hoje é sua última aula.

Por um instante, eu achei que íamos ter um daqueles duelos mortais entre aluno e mestre. Com o sobrevivente do que só poderia ser um combate até a morte conhecendo seu destino definitivo ou procurando outro aluno, dependendo do vencedor.

Tudo bem. Já não levava tapas há semanas, fosse por não perguntar coisas estúpidas, fosse por ter ficado mais rápido.

— A partir de hoje você fica por sua própria conta. A partir de hoje, o mundo lhe ensina. Aprenda bem — eu deveria ter pensado em algo melhor para dizer, mas tudo o que saiu, sem gaguejar, foi:

— Qual… qual é a diferença?

— A diferença é que quando você erra comigo, você leva um tapa na cabeça e se levanta pra entender onde errou. Com o mundo, você não levanta mais. Aprenda bem. Eu fui muito displicente com você, mas você aprende rápido. Continue assim. Continue vivo.

E jogou algo para mim.

Identifiquei o que era antes de ver o brilho da prata nos detalhes bem-cuidados, nas gravações feitas no corpo de titânio no calibre quarenta e cinco. Couro de verdade com enfeites simples em filigranas e baixos-relevos em símbolos arcanos. Sete tiros cada.

— Seis para seus inimigos. O último para o inimigo do mundo. Aprenda.

— Quem é o inimigo do mundo? — perguntei, levantando os olhos da armas.

Mas ele não estava mais ali. Sozinho no grande galpão repleto de armas, munição e alvos. O cheiro de pólvora e propelente sólido parecia um perfume que eu sentia pela primeira vez, o último indício da presença de Kane. Lembro de ter querido chorar como um garoto que perde os pais. Mas eu nunca tinha conhecido meus pais e nunca achei importante sentir saudade do que não tive. Só senti falta daquele maldito velho intratável como se fosse o resto de humanidade que me impedia de sair matando quem eu encontrasse na rua até que a munição ou a sorte acabassem. O que viesse primeiro.

Mas não fiz nada disso.

Prendi o cinturão de couro e ajustei as tiras de suporte nas coxas, mantendo os coldres baixos, na altura ideal para sacar. Os revólveres não tinham neuroconexão — nem eu tampouco —, mas tinham o peso e o equilíbrio que você espera na espada do anjo da morte, forjada no inferno e temperada no sangue da besta do apocalipse. Coloquei doze tiros de cada uma em único buraco no centro do alvo.

A sétima bala eu guardei.

Naquele dia, eu aprendi a coisa mais importante: que só ia morrer quando fosse velho ou idiota demais, ou ambos. Mas como eu não era mais idiota, e iria demorar a ficar velho, decidi viver da única maneira que tinha conhecido.

Tenho um outro apartamento, agora. E acho que outra vida também. Adeus EACON e Lone Star. Adeus dinheiro fácil e legalizado. Pelo menos parei de fumar. Cigarro é muito mais caro quando você não pode ir numa loja de conveniência sem ver sua cara estampada em 3-D no Confederated American States: Most Wanted logo após o noticiário. Tenho amigos novos, também.

Deixe-me colocar de maneira melhor: eu tenho amigos também. Todos eles sofrem do mesmo problema de má publicidade, e todos fazem trabalhos contra os gigantes, contra os inimigos do mundo. Alguns eu reconheço do trídeo. Outros — os mais dedicados, os verdadeiros profissionais — eu nunca vi em lugar algum. Eu aprendo com eles. Aprendo com o mundo.

Tenho menos equipamento pra me preocupar. Só o que tenho é o que posso carregar nos coldres. E hoje, é só o que eu preciso. Sete tiros em cada, com direito a duas recargas. Nunca se sabe o que você pode encontrar nas ruas.

Está tudo bem. Como Kane disse, eu não tenho uma profissão.

E agora eu sei: eu tenho um destino.

Memórias Perdidas: parte 1 de 4

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E aí pessoal? Gostaria de compartilhar com vocês, memórias de uma campanha, que foi narrada em um dos meus sistemas favoritos. Mas no geral, só não ocupa esse posto devido a minha grande paixão que é a literatura Tolkiana, e os sistemas referentes a O Senhor dos Anéis, que vocês já viram outras postagens aqui no blog, e muitas ainda droparam aqui nesse local. Mas vamos falar sobre Terra Devastada, um sistema simples, rápido, e que dispensa comentários e longas discussões sobre mecânicas e regras de jogo. É só escolher as características e rolas dados, par sucesso, impar fracasso. Maravilhoso!

Nesses primeiros contatos, eu venho compartilhar com vocês quatro fragmentos, de relatos de campanha, construídos na vivencia de uma campanha narrada no ano de 2013, que usou a minha cidade Natal/RN como pano de fundo, para essa aventura. O interessante em narrar um apocalipse zumbi, em uma cidade familiar aos jogadores, é o fato dos mesmos conhecerem a cidade, e a ajuda na construção dos espaços da narrativa, que é um fator que dinamiza a exemplificação da sessão.

Espero que vocês apreciem este primeiro fragmento.

 Memórias Perdidas

Estou escrevendo para tentar manter minha mente firme, e conseguir entender tudo o que está acontecendo. E assim, quem sabe, poder sair dessa situação, seja ela qual for! Quando toda essa merda começou, eu estava de férias. Em casa, vi um vídeo na net, onde um velho em Shangai mordia violentamente uma criança em um metrô. Na hora eu ri, e pensei: Esse povo está cada dia mais louco. E eu, apesar de ter treinado exaustivamente durante 15 anos, não estava preparado para essa situação, e parece quem nem meus amigos fuzileiros.

Com o passar dos dias, os relatos aumentavam na tv e na net. E eu não dava importância, continuava rindo de toda a situação. Até que um dia, meu vizinho mordeu a minha esposa, e eu tive que o matar. Então notei que a situação tinha chegado até mim, e me dei conta que deveria fazer algo. Peguei minhas armas, e parti, tentando salvar a única coisa que sempre amei em toda a minha vida. Peguei meu carro em vão; estavam um engarrafamento só no Alecrim, ninguém conseguia ir de carro para nenhum canto, até que o inesperado aconteceu, minha esposa me atacou, e eu tive que fazer com ela, o mesmo que fiz com o meu vizinho. Todas as noites sonho com seu rosto desfigurado, enquanto tentava em vão faze-la voltar a si, e ela só pensar em me morder como um animal selvagem, e faminto.

Foram horas, dias e meses esquisitos, e só agora, após vagar como um louco, sem dormir por dias, me deparo com um caderno velho, e um lápis quebrado, em frente a uma escola no bairro do Alecrim. Sim eu estava tentando voltar para casa, mas eu não tinha mais casa.

Dia 1

Depois de dias escondido nos arredores de minha antiga casa (não coloquei a data, pois sinceramente não sei, é algo em torno de agosto ou setembro de 2014), dormindo nos carros dos meus antigos vizinhos (a duas noites atrás tive que matar o seu Geraldo, velhote pão duro, nem na “morte” saiu de perto do carro); Ouvi o som de uma moto, que parecia ir para o centro da cidade. Recolhi minhas poucas coisas (um rifle de longo alcance; uma 44; uma faca, e uma mochila, com algumas poucas munições), e parti. O caminho foi ficando cada minuto mais difícil, haviam muitos zumbis na Avenida Rio Branco, e cortei caminho pelas ruelas. Enfim chego nas proximidades do Ducal, vejo uma luz no 6º andar e decido subir. A energia elétrica ainda funcionava em alguns grandes prédios; se havia sobreviventes, eles não ousavam usar, acho que tinham medo de atrair os zumbis. Entro no prédio, e as duras penas, chegou ao sexto andar, ouço gritos, mato zumbis no corredor com a minha 44; em uma sala, um homem luta com o fim de suas forças, na tentativa de matar um dos zumbis, sou surpreendido por um que estava ao chão, e acerto um tiro no braço do homem que estavam tentando ajudar. Me recomponho, e mato os demais. Apesar do tiro, Robson estava bem, ele me diz ser auxiliar de escritório, e que estava a semanas escondido ali.

Decidimos ir para a cobertura, tentar uma visão melhorada. E as coisas não melhoraram, lá embaixo, um rapaz tenta ajudar uma menina presa em um carro, pobre garoto, são muito comedores, ele vai morrer. Pego meu rifle, miro, e mato o garoto. Agora ele está em paz. Robson quer ajudar a criança, mas são muitos. Até que novamente o som da moto é ouvido, e os zumbis são atraídos, vemos a oportunidade e decidimos ajudar a menina, na decida encontramos algumas dificuldades [nota: não entrar mais no Ducal], não precisamos matar ninguém, é tão esquisito, que quando não é necessário, me sinto estranho. Salvamos a garota, e seguimos pelas ruelas, até o beco da lama. Retornamos a Rio Branco, e encontramos o cara da moto, Ricardo, um louco. Mas nos salvou. Arrombamos um carro, Igor fez uma ligação direta, e decidimos partir. O motoqueiro nos relatou dos boatos nas rádios, sobre um local seguro na estação de rádio da Marinha, na Hermes da Fonseca, e decidimos ir para lá.

Descemos a Rio Branco, e entramos na rua Juvino Barreto, as ruas estavam bloqueadas na altura da Avenida Deodoro da Fonseca. Robson começa a sentir dores, devido ao ferimento, e retornamos, e uma bandeira branca balança em um prédio que parece ser um sindicato, paramos o carro em frente ao portão, um jovem garoto, nos recebe, Bruno o seu nome, ele estava com um senhor, que apenas se apresentou como o Gordo. Esses caras estão aqui desde o início, o Gordo relatou que há um campo para refugiados no Parque das Dunas. Que derrubaram a ponte de Igapó, e tem uma barricada na Newton Navarro, e um homem conhecido como “Carbureto”, fez uma milícia, e domina a região, e criou campos de concentração e cultivo em ceara-mirim. O grupo decidi dormir neste local. Durante a noite, algo chamou a atenção dos malditos, pois o ruído e os grunhidos eram ouvidos aos milhares dentro do prédio.

Mesa de Bar


Um conto de Aparição: o Esquecimento

Wraith Walker

Há quanto tempo estou aqui? Eu não sei informar com certeza, os dias do lado de cá sempre são dias cinzas, mas posso dizer que já vi muita coisa boa e ruim desses lados. Minhas roupas? Bem, na verdade elas nem existem… são expansões de meu próprio ser, menos essa moeda, ela é… especial, uma imagem que eu tinha de meus últimos dias do outro lado. Acho que devemos começar pelo fim… meu fim.

Eu tinha vinte e três anos, era filho de um grande comerciante em Natal… não, não vou dizer o nome de minha família… sei lá, vai que ainda exista alguém por ai, mas voltando ao assunto, era jovem, solteiro e gostava de jogos, nos dados de osso não tinha gambé que me ganhasse e mesmo que não fosse de bom tom, nas cartas meu baralho tinha mais saias do que paus e foi numa dessas que minha vida virou ao avesso.

Era uma noite como qualquer outra, nada de mais, estávamos em uma dessas casas que hoje vocês chamam de casa de drinks, eu tinha uma mão perfeita e uma negra com a boca ocupada, mas aquele maldito marujo tinha que desconfiar, acredite, ele não desconfiou de minha casaca, mas da negra com o busto exposto e de joelhos ao lado da mesa… se tivesse puxado pela minha casaca, eu simplesmente pediria desculpas e pagaria as mãos que ele tinha perdido, mas ele tinha que chutar minha puta preferida? Já comecei quebrando a moringa na cabeça dele, eu era um filho da terra, não tinha porque carregar armas comigo, mas aquele imbecil tinha seu canivete de cortar fumo de rolo e não se fez de rogado e me deu  um belo corte no braço.

Quando você entra em um briga de bar, você não pensa no que vai acontecer, eu lutava para manter aquela faca longe de mim e aquele lazarento tentava abrir meus fatos com ela. Não sei como, mas a negra que estava comigo me jogou uma peixeira — o que é isso? Uma faca grande, bem maior que o canivete de cortar fumo do marujo — a luta mudara de rumo, agora os dois cachorros podiam morder, mas eu te juro… nunca quis fazer aquilo, nem lembro como, mas a peixeira cravou fundo na barriga do homem… me lembro do pânico ao ver o sangue e as tripas dele saltando para fora, não sei se ouvi ou pensei ter ouvido ele dizer “você me matou!

No desespero, corri para casa e me tranquei no meu quarto. Meu pai era um homem justo e sensato, mas ainda assim respeitava minhas noites de farra e não me perguntava o que tinha feito, por isso tão logo o medo passou, a “marvada” veio me botar para dormir. Ninguém ia me pegar, eu tinha livrado o flagrante, o marujo era de outro país, seria enterrado como indigente e o capitão do navio ia dividir seus pertences… todos sairiam lucrando.

Menos meu pai, que quando soube do ocorrido voltou para casa, foi até meu quarto, me acordou, me obrigou a me vestir e me acompanhou até a casa de câmara e cadeia… me entregou como o bandido que eu era, um assassino… mas nada daquilo me abateu — o que me abateu mais foi os olhos de meu pai, a decepção que ele carregava no peito.

Foi para não ver essa dor que eu tomei coragem de fazer o que fiz, antes do meirinho vir deixar o café da manhã: torci minha camisa e improvisei uma corda curta, amarrei no teto baixo da cadeia e passei ao redor do pescoço. Não havia altura suficiente para pular… então dobrei os joelhos como jamais havia feito na vida… o ar não chegava mais, os momentos pareciam longos e por vezes pensei em desistir, mas então a escuridão, o frio e o silêncio chegaram para mim… é estranho lembrar, mas a ultima coisa que pensei foram nos seios da negra.

Meu despertar desse lado foi doloroso, mas não vou entrar em detalhes, basta dizer que meu senhor original era um idiota (pois é, a escravidão também existia desse lado) e lembra do marujo? Chegou uns dias antes de mim. Imagina, pensei que aqui era o inferno e então fui compreendendo as coisas… aqui era pior que o inferno.

Eu podia ver todos os que amava do outro lado sem jamais tocá-los, eu podia ver os amigos na farra sem poder participar… e como eu amava meus dados, minhas cartas, minha negra… e cada uma dessas coisas foi sumindo com o tempo. Meu pai me fez um grande favor me mandando minhas cartas, mas o mesmo não aconteceu com minha negra.

Sabe, uma coisa que descobri quando cheguei aqui… amava a loja de meu pai, sempre achei que era dali que vinha meu sustento, mas mesmo depois que ele a fechou, mesmo depois que ela mudou de dono, até hoje gosto de ver a fachada decadente dela.

Você pergunta de meu pai… Demorou para ele partir, estava lá, tanto para me despedir como para protegê-lo, mas meu pai não veio para esse lado, não viria; ele viveu bem, viveu toda sua vida e cumpriu todas as suas missões, acho que ele alcançou o paraíso. E não, não tenho esperanças de encontrá-lo lá.

O que me prende aqui? Acho que o velho prédio onde funcionou a loja de meu pai. Toda vez que olho para ele, me dá uma dor, uma espécie de saudade… é algo bom, alimenta o pouco que sou. Ah, essa moeda? Lembra do marujo? pois é… ele não teve tanta sorte como eu e hoje carrego ele comigo… sim, é isso mesmo o que você pensou; acho que a condenação dele é pior que a minha.

No final das contas, ele devia ter puxado a manga da minha casaca.