Os sábios tornaram-se demônios?

Uma das coisas a se observar no cenário rpgístico brasileiro é o desdém pela produção nacional. E infelizmente, esse processo é realizado pela velha guarda. Sim os nossos anciões, aqueles que desbravaram o RPG nacional em meados dos anos 1980, segurando firme o timão nas campanhas de inquisição dos anos 1990 até as aguas calmas dos anos 2000. Os mares se abrandaram, os motins foram contornados, mas os nossos capitães não souberam sair em busca de novos horizontes.

Os marujos ansiavam pelos seus barcos, prometidos pelos velhos mestres, mas estes não deixavam os neófitos partirem em suas próprias aventuras. Então veio a “revolução” e com ela novas ideias, novos conceitos e novas práticas. E os velhos mestres abominam essa pratica e se enclausuram em seus castelos, escondem seus neófitos, abandonam seus princípios aos quais juraram defender. Luxuria, ganância, soberba e ira são os pecados cometidos. A gula metafórica é praticada de forma exacerbada sobre o novo. Os antigos sábios se tornam os novos demônios, aqueles que agora tinha a missão de usurpar toda e qualquer aspiração à nova realidade.

“Não abram os olhos”, eles falaram, mas nem todos optaram pela escravidão. Muitos tomaram a liberdade em grandes goles, um gosto de “cor” belíssima que tem seu simbolismo e representatividade. Poucos quebraram a película dos velhos senhores e rasgaram a carne em vitória, muitos ainda falam com as paredes, ou melhor, escrevem para si mesmos.

Nossos conselheiros se agarraram aos cânones que foram pilares para nossa construção lúdica, mas em prol disso, criaram a sua própria cruzada contra o novo pensar; sim, o pensar local. “Heresia, isso não edifica!” disseram, “Venham para a caverna, a luz de Prometeu nada tem a te acrescentar!” Mas alguns partiram em busca desse saber, uma luz que só prometia inspiração e ideias novas. Mas alguns retornaram, mais por medo do que por falta de ideias.

E muitos que seguiram nesta jornada acabaram escrevendo para si próprios.

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Advogado de Regras

Jogador 1: Eu levanto minha metranca e dou outra rajada completa no desgraçado!

*rola dados*

Jogador 1: Três sucessos! Acertei!
Narrador: OK, ele cai com essa, mas o capanga dele aproveita que você está sem munição e… espera, você deu sua segunda rajada completa, são 20 tiros no total. Então…

*checa notas rapidamente*

Narrador: …ah, a sua submetralhadora tem um carregador de 25 tiros, tudo bem.
Jogador 1: errr… claro que sim…
AdR: Aham! Na verdade, a submetralhadora H&K MP5 TX dele só tem 20 tiros. Ela tem que estar descarregada.

*jogadores olham para o AdR com olhos injetado de sangue e fúria*

Jogador 1: O narrador já não falou que eram 25 TIROS NA METRANCA?!
AdR: …mas ele está errado, são só —

*AdR é apedrejado pelo grupo. Não, eles não usaram os dados. Eu disse APEDREJADO*

RLawyer_GroupO que é o Advogado de Regras? Em princípio, é um tipo de jogador de RPG que se preocupa mais com a execução das regras do jogo do que com qualquer outra coisa (às vezes, incluindo a diversão). Mas não se trata de um único tipo de jogador. Alguns tipos de Advogado de Regras (vamos chama-lo de AdR de agora em diante, certo?) só se preocupam que as regras sejam seguidas à risca quando elas estão a seu favor — ou seja, algumas vezes ele inclui o resto no grupo no processo, às vezes não.

Em minha experiência, conheço três tipos de AdR:

Advogado do Cenário

Para ele, o cenário é um conjunto coeso, uno e indivisível de informações (que ele conhece profundamente e em detalhes) que não podem mudar, de forma alguma, a menos que ao longo da campanha, algo mude, dentro dos conceitos do cenário. Ele irá defender as estatísticas, características e decisões de cada equipamento, organização e NPC que aparecer pela frente.

O bom deste tipo de jogador é que ele é uma enciclopédia ambulante do cenário. Ele já leu sobre todos os NPCs ou (no caso de ser um cenário criado pelo narrador) fez extensas anotações sobre todos os locais, pessoas, criaturas, divindades, organizações e artefatos que o grupo já encontrou. Ele lembra o quanto cada personagem tem na carteira, as taxas de câmbio entre quatro nações diferentes (e duas delas nem usam moedas) e o nome da irmã do seu personagem, que você esqueceu-se de anotar na ficha.

Advogado do Sistema

Este é o especialista clássico, o proverbial Advogado de Regras. Alguns exercem seu “ofício” porque acreditam que as regras devem ser seguidas da forma como estão escritas no livro. Afinal de contas, alguém se deu ao trabalho de criá-las, testá-las e escrevê-las, certo? Nada mais justo que sejam seguidas. Senão, é melhor ir logo brincar de faz de conta com seu pijama do Homem-Aranha.

O problema é que eles jogam fora boa parte da graça de modificar o jogo segundo as necessidades narrativas. Ninguém pode tentar um truque ou uma variante das regras, tudo tem que ser seguido à risca, como está escrito no livro. Sempre. O lado interessante disso é que eles vão seguir as regras, mesmo que levem a um desdobramento na estória que sejam negativo para eles. E isso pode ser bom. Nada faz um personagem parecer mais interessante do que quando ele fica vulnerável.

Advogado de Si Mesmo

Alguns deles, independente de advogarem o cenário ou suas regras, só o fazem quando isso lhe dá alguma vantagem pessoal. O resto do grupo e o narrador que se danem. Eles não se deram ao trabalho de decorar o conteúdo de todos aqueles suplementos, então eles que se virem sozinhos. As regras/cenário estão ali para servir àqueles que realmente as conhecem. Como ele. E quando lhe for conveniente, ele irá esquecer-se de chamar a atenção do narrador para alguma regra que limite seu personagem. É, eles são assim.

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Quando o Advogado de Regras é seu amigo

Basicamente, quando o seu narrador está se revelando um sádico que distorce as regras de maneira a tornar os objetivos inalcançáveis, os inimigos invencíveis e a diversão impossível (exceto pra ele). Sim, esse tipo de coisa acontece. E quando acontecer com você, tenha o cuidado de apontar o AdR do seu grupo na direção certa quando for hora de usar suas… habilidades. Quem faz com que as regras funcionem ou não, é o narrador (claro, no seu jogo cooperativo, pode ser que nem exista narrador/GM/mestre, mas ele facilita bastante o processo), mas quando o narrador não é seu amigo, alguém precisa ser. Por que não o AdR?

Um amigo narrador já disse uma vez, “as regras que você tem que saber, cabem na ficha”.

Os jogadores podem lembrar um ou outro detalhe, claro, mas a ideia é que o narrador está destacando certas regras enquanto esquece outras, porque a estória está ficando mais divertida assim. Quando ele “esquece” as regras de dano agravado porque seu personagem não conseguiu se esquivar daquela rajada de balas explosivas perfurantes de armaduras radioativas envenenadas, é porque ele está dando uma chance do seu personagem continuar no jogo. Como quando ele rola os dados escondidos para checar se o antagonista principal da campanha iria chamar mais uma horda de seus capangas — e vê que não seria uma boa hora para os jogadores. Então ele deixa pra lá. É adeus regras por um momento.

Às vezes, dependendo do RPG e das próprias regras, isso pode ser positivo. RPGs com regras mais complexas ou cuja execução necessita de várias rolagens de dados e a consulta a vários livros e tabelas, acabam consumindo muito tempo e mesmo que o grupo todo e o narrador gostem de consultar livros e rolar dados vááárias vezes (nada de errado com isso), pode ser que eles acabem não aproveitando tanto assim o tempo livre para jogar. Ou pode ser que a sessão esteja em um determinado momento onde o uso das regras “quebre” o clima.

Sei lá. Às vezes, as regras entram no caminho da diversão. Saiba quando usá-las e quando deixá-las de lado…

Parafraseando outro colega narrador: “Curta a estória e deixe as regras comigo.”

Mas qual o problema, afinal?

Em princípio, nenhum. As regras do RPG são feitas para que todos os jogadores tenham uma chance justa — dentro do que é possível após rolar dados — de diversão. E aí chegamos na famosa Regra de Ouro:

Se uma regra estiver fazendo o jogo deixar de ser divertido,
deixe essa regra pra lá.

E daí chegamos à chamada Regra Zero, que pode ser resumida da seguinte forma:

O Narrador tem sempre razão.

O AdR vai tentar manter uma visão estrita das regras/cenário por vários motivos. Em alguns aspectos, isto pode ser positivo, como quando enriquece a narrativa ou apoia a ação de outros jogadores sobre enganos ou fuleiragens do narrador. Mas de uma maneira geral, o AdR é um pé no saco. Converse com ele, tente fazê-lo ver existem outras pessoas jogando, e que o narrador também faz parte do grupo.

2º Diversão na Lagoa!

Olá Pessoal!  No próximo dia 31/01/2016 teremos o 2º Diversão na Lagoa: Encontro de RPG e Boardgames na Cidade da Criança, em Natal-RN. O Mundos Colidem está na reta final dos preparativos dessa edição, e gostariamos de convidar todos vocês para um tarde de muito RPG e Boardgames! Confiram a nossa programação e a lista de Narradores que participarão do evento.

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O que é Indie?

Nos últimos dias tenho observados alguns debates nos grupos virtuais de RPG em que participo. E o que tenho visto, é que a comunidade rpgistica não tem uma noção básica, e muito menos consensual do que seja o termo. E quando se parte para os exemplos a coisa se torna ainda pior, gerando inúmeras controvérsias e quase nenhum consenso. Os próximos parágrafos vão expressar a minha opinião, longe de querer emplaca-la como uma verdade absoluta.

Então o que seria uma RPG Indie? Observando as definições vi abordagens referentes a tiragem de livros por edição; a editora; e até a nacionalidade. Esse último ponto é um dos mais abordados, pois na classificação dos jogadores que gostam dos chamados sistemas “robustos”, quase todos os sistemas nacionais são Indie. E o que são sistemas “robustos”? Ao meu humilde entendimento são os livros de grandes marcas, com inúmeros suplementos. Um livro escrito por um grande autor, mas pelo fato de não ter tido uma grande tiragem, ele pode ser considerado independente? Um sistema ser considerado bom ele precisa ter suplementos?

Mas mesmo assim a definição ainda é complexa, eu particularmente considero um RPG Indie, um sistema produzido de forma independente, com trabalho não profissonal, longe dos grandes centros editoriais, pensando no gosto do público ao qual se propõem o seu trabalho, e com uma abordagem voltada para uma produção local e profissional.

Um bom RPG sendo indie ou não, ele não tem a necessidade de ter inúmeros suplementos, e um detalhamento esmiuçado do seu cenário, pois quem tem a necessidade é o narrador e não o sistema. Alguns optam por sistemas fechados e completos, outros necessitam de sistemas abertos ondem podem adicionar suas pesquisas, ou se aprofundar nas mesmas. Mas o debate sobre um RPG ser considerado independente ou não ainda vai perpassar por muitos “embates”, e creio que não haverá um consenso sobre o tal conceito e quais livros se encaixam nessa classificação.

Mas o que realmente seria um sistema independente?

O que esperar do Mundos Colidem para 2016?

2016 é um ano que promete alavancar ainda mais o cenário do RPG na Cidade de Natal, e nós não podemos deixar de seguir a maré. Como ouvi recentemente , não se lembra de período em que se teve tanto evento, e apoio ao RPG na cidade, e nesse contexto que vamos lançar a proposta de um planejamento para 2016, mas que vise a divulgação do RPG, e a sua versatilidade, e também como proposta para ferramenta didática.

É um ano em que é necessário apoiar as atividades que estão sendo construídas, e de incentivar a produção autoral local, e de cada vez mais ir estreitando os laços com velhos e novos jogadores em prol da consolidação de uma atividade organizada.

Mas o que esperar do Mundos Colidem? Bom organizamos uma pequena pauta, que bem podemos chamar de planejamento para 2016, vamos lá?

1) Diversão na Lagoa (Encontro de RPG e Boardgames da Cidade da Criança): que é uma organização do Mundos Colidem, tem 6 edições confirmadas para 2016, em discussão ainda se será em um formato mensal, contemplando o primeiro semestre, ou bimestral para contemplar todo o ano. Ocorrendo no último domingo do mês, tendo sua primeira edição do ano no dia 31/01/2016;

2) ZN Lúdica (Encontro de RPG da Zona Norte de Natal): tradicional encontro de RPG na Zona Norte da Cidade, que tem edição confirmada para o mês de Junho, e ocorre no Shopping Estação. Mais uma organização do Mundos Colidem;

3) Medievo RPG: livro de fantasia na Baixa Idade Média, de autoria de Raphael Lima, com base em projetos com o uso do RPG em sala de aula, teve o Jogo Rápido lançado no dia 10/10/2016, no RPG na Dunas. E previsão de edição completa (e-book) para agosto de 2016;

4) Guerra dos Bárbaros: um jogo de cartas desenvolvido por Raphael Lima e Robson Carmo, usando como base o sistema de cartas  do Martin Wallace, com base em projetos utilizando o RPG em sala de aula. Previsão de lançamento em dezembro de 2016;

5) Coletivo de Narradores: manter a ativa as atividades deste coletivo, que tem como principais objetivos fomentar a formação e divulgação de diversas mesas de RPG pela cidade, e o incentivo a formação de novos narradores;

6) Iniciar as atividades com o Podcast do Mundos Colidem. Skype: mundos.colidem

7) RPG na Dunas: evento mensal que ocorre na Arena Geek, no segundo domingo do mês. É uma organização em PARCERIA do MUNDOS COLIDEM e da Dunas Jogos de Tabuleiros.

Pois bem pessoal, esperamos continuar fomentando a atividade em prol do RPG na capital potiguar, e porque não no estado? Sempre contado com novos e velhos parceiros para que tudo isso se concretize, se os últimos seis meses de 2015 foram maravilhosos, imaginem como será todo o ano de 2016.

 

 

2ª Diversão na Lagoa!

A 2ª Diversão na Lagoa: encontro de RPG e Boargames da Cidade da Criança, será no dia 31/01/2016. E vem para mostrar que em 2016 o Mundos Colidem não tá de brincadeira não, e já na edição desse mês além de várias mesas de RPG, teremos uma mesa redonda sobre Técnicas de Narrativa em RPG com Petras Furtado, Raphael Lima, Kadu Oliveira e Antunes Rocha. Os debates serão algo fomentado nas edições do Diversão na Lagoa nesse ano, e para março, já temos a presença confirmada do Álvaro Botelho, autor do RPG Espadas & Punhais. E ai tá bom? Mas calma que ainda vem muito mais coisas em 2016, é só ficar de olho nas novidades do Mundos Colidem.

Então aguardamos todos vocês no dia 31/01/2016, a partir das 12h na Cidade da Criança, que fica na Avenida Rodrigues Alves, Petrópolis, Natal-RN.

Crônicas do 2º RPG na Dunas

A chuva não deu trégua na cidade do sol, mesmo assim o pessoal saiu de casa para prestigiar  o 2º RPG na Dunas, que ocorreu dia 10/01/2016, evento mensal que se consolida no cenário Rpgístico da cidade do Natal. Muitos mestres/jogadores iniciantes e experientes mais uma vez atenderam ao chamado do Mundos Colidem e da Dunas Jogos de Tabuleiro, para uma tarde de RPG. As duas grandes atrações da tarde foi a Roda de Mestres, muitos dos desbravadores do RPG na cidade do Natal, estavam presentes compartilhando suas experiencias e histórias. E o lançamento do Medievo RPG, de autoria de Raphael Lima.

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Esquerda: Leonardo, Hélio, Alessandro, Franciolli, Tendson, Leandro, Robson, Raphael e Nicholas.

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Aguardamos todos vocês no Diversão na Lagoa no dia 31/01/2016 na Cidade da Criança!