Narrando em O Senhor dos Anéis

Desde que comecei a narrar no universo tolkeniano, tenho dialogado bastante com outros narradores pelo Brasil afora. Uma das questões mais debatidas é “como construir uma campanha sem comprometer o cânone”; ou “é melhor narrar na Quarta Era, onde temos mais liberdade”. A Terra Média tem várias histórias épicas e maravilhosas, muitas delas relatadas nos apêndices do Retorno do Rei, no Contos Inacabados e no Silmarillion.

A Terra Média é um universo singular e uma boa leitura das obras de Tolkien é necessária para embasar o conhecimento do narrador — isso não quer dizer que você vá passar horas de sessão descrevendo o mundo nos mínimos detalhes, como o autor faz nos primeiros capítulos da Sociedade do Anel e no Silmarillion. Mas é imprescindível conhecer alguns detalhes peculiares do universo para que o jogador possa sentir-se imerso na Terra Média.

Por isso, recomendo a leitura das seguintes obras: O Silmarillion, O Hobbit, O Senhor dos Anéis (Sociedade do Anel, As Duas Torres e O Retorno do Rei) e Contos Inacabados. As anotações de particularidades das regiões são essenciais.

Agora vamos ao que interessa; eu, particularmente, gosto de inserir o grupo em demandas paralelas às grandes histórias da Terra Média. Muitas dessas grandes histórias, encontradas nos apêndices do Retorno no Rei, são uma excelente fonte de pesquisa para campanhas.

Vou exemplificar o modelo de organização que utilizo com base em uma campanha que preparei em 2014:

1º Passo: Estruturação da campanha

a) Fato Histórico: Ataque de Angmar ao Topo do Vento e a Fornost.
b) Objetivo do grupo: Levar o Príncipe Araphor em segurança aos Portos Cinzentos e solicitar ajuda aos elfos;
c) Locais: Fornost, Bri, Condado e Portos Cinzentos;
d) Personagens Históricos: Arveleg, Araphor e Círdan.

Você pode encontrar informações para a construção de campanhas nos apêndices do Retorno do Rei, Silmarillion e no Contos Inacabados.

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2º Passo: Sistema

Ultimamente, nas campanhas narradas, tenho usado o RPG do Senhor dos Anéis com o sistema CODA quando desejo algo mais épico e tento inserir grupos mais experientes paralelamente em fatos históricos mais importantes. O RPG Um Anel, é ótimo para jogadores iniciantes na Terra Média e para explorar uma das particularidades preferidas do universo de Tolkien: a magia sutil da terra.

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3º Passo: Referências

É muito importante organizar as referências dos locais por onde o grupo irá passar e dos personagens históricos que poderão encontrar. Não abusem dos grandes personagens, ou a campanha perderá a emoção — e a coerência, se Gandalf aparecer a cada cinco minutos. Particularmente, uso personagens icônicos apenas uma vez por campanha.

Uma boa leitura e anotações são importantes para a descrição dos locais. Os vários artistas que ilustraram a Terra Média ajudam bastante na hora dos jogadores terem uma ideia melhor de onde estão. Meus ilustradores favoritos são John Howe, Alan Lee, Ted Nasmith e os Irmãos Hildebrandt.

O conhecimento geográfico da Terra Média é muito importante — e nesse quesito recomendo o Atlas da Terra Média. Sempre é bom citar os fatos históricos importantes que ocorreram no período em que os jogadores estão atuando; assim se tem noção da importância da ação dos seus personagens.

Os Argonath marcam a fronteira sul de Gondor

Os Argonath, John Howe

4º Passo: Trilha sonora

A trilha ajuda na ambientação e na reprodução imaginária do cenário. Como quase todo mundo assistiu a O Hobbit e o Senhor dos Anéis, fica fácil usar as trilhas sonoras dos filmes de maneira adequada, de acordo com a região e o momento. Unindo trilha sonora, descrições e ilustrações, você obtém uma ótima reprodução imaginária de onde se passa o jogo para seus jogadores. As trilhas oficiais dos filmes já têm suas faixas nomeadas por região ou por cenas importantes do filme, o que facilita bastante a seleção.

5º Passo: Coerência

É importante manter a coerência nos desafios propostos para os aventureiros, pois o universo ficcional criado por Tolkien possui uma consistência interna muito forte, como por exemplo, os habitats próprios de cada criatura. Levar o grupo a atuar paralelamente a um grande fato histórico reduz suas chances de alterar o cânone histórico — e eu particularmente gosto dessa abordagem — mas nos casos em que a história é alterada, significa que o grupo não atingiu seu objetivo.

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6º Passo: Eventos

Fazer com que o grupo mantenha um diário é uma ótima ferramenta para registrar eventos. Temos duas formas de se fazer isso: pode ser em forma de cronologia, onde o grupo é levado a fazer um feedback pós-sessão, anotando os passos do grupo dia a dia e apresentando-o no início da próxima sessão, ou enviando-o através de redes sociais. Outra forma é fazer um sorteio por sessão; o jogador escolhido escreve um relato da sessão segundo a perspectiva do seu personagem e o apresenta na sessão seguinte.

Exemplo de crônica de campanha

    Bom pessoal, tentei aqui expor como me organizo para narrar as minhas campanhas na Terra Média. Como sou um apaixonado pelo universo Tolkieniano, tento manter os fatos históricos inalterados, levando o grupo a atuar na margem da história — mas sem perder sua importância, atuando em demandas secundárias que são essenciais para a resolução do fato principal.

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Novos parceiros!

Logo New Order

Diversão na Lagoa agora tem um novo parceiro: a Editora New Order, responsável pelo RPG nacional Crônicas RPG e os RPGs importados Lenda dos 5 Anéis, Numenéra, 13ª Era, The Strange e Yggdrasill.
As próximas aventuras de RPG na Cidade da Criança vão contar agora com o apoio de uma editora nacional de peso!

Crônicas do 1º Diversão na Lagoa

O domingo de 15 de novembro atraiu jogadores veteranos e curiosos para a a Cidade da Criança, onde encontraram uma grande variedade de boardgames e RPGs e a presença do músico Carlos Bem e da banda roqueira nacional UVelho Jones no show de encerramento, além de sorteio de jogos entre os participantes e uma excelente recepção junto ao público que visitou a Cidade da Criança neste dia. Aguardem outros Domingos de Diversão na Lagoa em 2016!

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1º Diversão na Lagoa: Mostra de RPG e Boardgames

Diversão cartaz

No próximo dia 15 de novembro de 2015, acontecerá o 1º Diversão na Lagoa: Mostra de RPG e Boardgames da Cidade da Criança em Natal/RN. O evento tem a organização da ZN Lúdica, e conta com o apoio: Governo do Estado do Rio Grande do Norte, Fundação José Augusto, CUT-RN, SINTE-RN, Trampolim da Aventura, Dunas Jogos de Tabuleiro e Red Hood.

O evento tem inicio as 10h, com mesas de RPG e Boardgames, que ocorrerão durante todo o dia. Entre as mesas de RPG, teremos D&D 5ª, Old Dragon (ambientando em Dark Sun), Star Wars, Savage Worlds e outros cenários/sistemas de autoria dos mestres participantes. As 14h teremos a oficina de RPG, com Raphael Lima e Robson Carmo, fazendo um debate sobre o uso do RPG no processo de ensino aprendizagem. Os boardgames terão a condução da galera do Trampolim da Aventura, e da Dunas Jogos de Tabuleiros.

O encerramento está previsto para as 17h com show de artistas potiguares.

Resenha: Palestra sobre Educação e RPG na FLIQ

Palestra_FLIQ_06A Feira de Livros e Quadrinhos de Natal — FLIQ — que em sua última edição, de 15 a 18 de outubro de 2015, na Cidade da Criança, teve entre suas atrações uma palestra sobre o uso de RPG na educação, ministrada pelos professores Raphael Lima e Robson Carmo, que (surpresa!) fazem parte do Mundos Colidem. A palestra foi realizada na Sala Moacy Cirne, no domingo, dia 18, começando às 09:00h e terminando por volta do meio dia, com uma partida experimental de RPG entre os participantes.

Como foi

Palestra_FLIQ_10Raphael e Robson iniciaram a apresentação falando sobre a história do RPG, das suas origens enquanto wargame a ícone lúdico nerd, explicando as mudanças que sofreu ao longo de seu percurso, desde meados dos anos 70, sendo daí reproduzido em várias culturas e países diferentes. Também explicaram quais eram os materiais necessários para jogar (papel e lápis, dados, cartas, fichas, marcadores), como é a relação entre narrador (ou mestre) e jogadores, os vários tipos de RPGs — desde as aventuras solo até os RPGs cooperativos muito comuns hoje em dia — os LARPs, os RPGs eletrônicos, os RPGs via e-mail; enfim, deram conta do recado de explicar o hobby com detalhes e clareza para uma platéia que, em alguns casos, era relativamente leiga sobre o assunto.
Raphael detalha a importância do lúdico na sala de aula
E foi aí que começou a parte legal: o projeto didático.
Primeiro, explicaram o processo de escolha de uma ferramenta didática para o ensino das disciplinas que ministravam (história, matemática e língua portuguesa) e destacaram as vantagens de usar RPG no lugar de outras narrativas lúdicas (como contar estórias da maneira tradicional) na sala de aula:

  • O jogador deve criar o personagem de acordo com as limitações impostas pelo sistema;
  • O personagem tem sua própria história e características;
  • A história pode ser criada a partir de qualquer universo (cinema, literatura, cotidiano e afins).

E após testar seu projeto em sala de aula, chegaram às seguintes conclusões:

O RPG funciona como ferramenta

  • Requer pouco material, de baixo custo e fácil obtenção, como papel, lápis, borrachas e dados de seis lados;
  • Para além do objeto fisico em si, o conceito de ferramenta também é usado para fazer referência a qualquer procedimento que melhore a capacidade de realizar determinadas tarefas;
  • Nesse ponto podemos usar o RPG para melhorar as capacidades de leitura e interpretação, conceitos matemáticos puros, ideias de conservação entre outros pontos.

O RPG funciona como um meio

  • O uso do RPG como meio abre várias possibilidades em todas as disciplinas possíveis, basta para isso que o professor em questão adicione as situações que devem contemplar aquele assunto em especial;
  • O desenvolvimento do aprendiz nesse caso será um processo imersível seguro, longe dos riscos que uma experiencia real teria com um nível de aprendizagem alto em relação a uma simples aula expositiva ou um conjunto de aulas multifacetadas, segundo a Pirâmide de Aprendizagem;
  • Assim sendo, a utilização do RPG como meio ou ferramenta possibilita uma apropriação de conhecimento com variações aproximadas de 70 a 90 por cento do conteúdo apresentado e não requer o dispêndio de uma grande quantidade de recursos físicos.

Pirâmide de Aprendizagem

Ou seja, quanto mais você interage com alguma coisa, melhor você entende e aprende aquilo que está fazendo, especialmente em grupo. A experiência de uso do RPG em sala de aula de Raphael e Robson demonstrou  que o aproveitamento dos alunos é razoavelmente melhor do que métodos tradicionais — embora seja necessário adaptar o método ao conteúdo a ser trabalhado, apesar de disciplinas com conteúdo ligado a humanidades, como história, geografia e literatura serem mais intuitivos neste aspecto, nada impede de levar os alunos para aprender os fundamentos de matemática e geometria com os sábios de Atenas, ou entender porque as descobertas de Copérnico, Galileu e Kepler causaram tanto burburinho. Eles podem não apenas aprender sobre um determinado conhecimento e aqueles que o desenvolveram; elas podem estar lá, junto com eles.

A Sessão de RPG

Para explicar de maneira definitiva como funcionava o RPG, o professor Robson Carmo iniciou uma rápida sessão de Old Dragon, um RPG de fantasia nacional, publicado pela editora Redbox. Os participantes puderam escolher seus personagens, receberam uma explicação mais prática de como funcionava uma sessão e jogo e sua versão mais longa, a campanha e começaram uma pequena aventura.

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No fim das contas

Fiquei feliz de ter ido à palestra, apesar de ter me atrasado um pouco e ter perdido parte da introdução sobre a história do RPG, mas a parte mais importante — o RPG como ferramenta didática — foi bem mais legal e despertou muito interesse por parte do público que assistiu à palestra e reagiu de maneira muito positiva, lembrando de várias tentativas de seus próprios professores, principalmente ao longo do ensino Fundamental, de apresentar um conteúdo didático de maneira menos engessada, tentando obter um desempenho melhor dos alunos sem sacrificar o interesse no assunto.

Minha surpresa maior foi saber que alguns coordenadores pedagógicos desdenham este tipo de prática, especialmente em escolas do sistema privado, dando preferência aos modelos tradicionais, baseando-se no argumento de que “é o que funciona”. Fica difícil entender como em uma época em que a sala de aula está repleta de dispositivos que são feitos para e pela interação (tablets, celulares, internet, redes sociais), uma ferramenta como o RPG — onde o trabalho em grupo, a interatividade e a criatividade são desenvolvidos de maneira harmoniosa — ainda é visto como algo dispensável.

Fica então a esperança de que o trabalho dos professores Raphael e Robson tenha continuidade e de que outros professores adotem o RPG enquanto prática de sala de aula. Mesmo que não seja de forma diária, mas pelo menos como uma fuga para aqueles momentos em que o cérebro do aluno emperra diante de tanta formalidade.

Memórias Perdidas: parte 2 de 4

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Dia 2

Amanheceu, mas quem disse que dormi com todo aquele barulho de grunhidos e grades forçadas? Priscila estava dormindo (a menina que salvamos no carro), Robson está com muita febre e dores. Bruno aflito, me fala que o Gordo fugiu com Igor, só ouviu o barulho da moto antes do amanhecer. Decido ir atrás de medicamentos para o meu colega, vou para o terreno do edifício, os malditos ficam loucos com a minha presença, não há como sair, Bruno me consola, mas logo uns sucessivos sons de alarmes dos carros são disparados e eu vejo um garoto correndo entre os zumbis. A maioria, parte em busca da presa mais fácil, ficando uns poucos à minha frente, abro o portão, mato três e sigo para a Deodoro, e tenho a grata surpresa de encontrar o Nordestão de Petrópolis (ele sempre esteve ali, mas a essa altura, eu não lembrava mais). Me aproximo lentamente entre os carros, há poucos no prédio, mas muitos na rua, vejo o garoto do outro lado da rua, faço um sinal com a mão e ele se aproxima.

O moleque parece ter uns 10 anos e disse para eu o chamar de Sibite. Falou que ainda resta um pouco de comida, e alguns medicamentos no supermercado. Conseguimos chegar sem problemas, matamos um que ficava na entrada e haviam uns poucos nos corredores, dava para desviar. Recolhemos alguns enlatados e alguns medicamentos (antibióticos, era o que Robson precisa), mas fomos surpreendidos, pelo sistema de som, que atraiu inúmeros monstros. Eles invadiram aos montes; Sibite conseguiu escapar por uma janela de ventilação que era pequena demais para mim. Me desviei, matei alguns, cometi o erro de atirar e atraí mais. Corri para os fundos do supermercado, tinha uma porta e uma câmera. Gritei, implorei, e a porta abriu. Quando entrei, levei um tiro na perna esquerda.

Um vigilante ainda estava refugiado no local, Michel era o seu nome, me pediu desculpas, mas disse que precisa me imobilizar. Tive vontade de mata-lo, mas tinha poucas balas, e o tiro não tinha sido letal, e eu precisava dele para fugir dali. Logo ele me falou de uma saída de ventilação pelo telhado, me levou até lá, escapei pulando algumas casas, e sai pela rua Floriano Peixoto; sem a comida nem medicamentos e o lugar está inacessível. Aquele cara vai morrer mais cedo, ou mais tarde.

Sigo pela rua e encontro mais alguns malditos, logo eles se aglomeram atrás de mim, esquisito, esses parecem ser mais rápidos, tanto, que quando me dou conta, quatro deles me cercam e entro em um restaurante; a porta estava quebrada, eu tento colocar uma mesa para impedir a passagem, mas eles são muitos, novamente cometo o erro de atirar, mais e mais se aglomeram e inevitavelmente sou mordido no braço direito. Penso em minha esposa, penso em me matar; quando vejo um facão decepar os zumbis, era um homem alto, magro, usando a farda do corpo de bombeiros.

O SD Magro, ele se apresentou assim, amputou meu braço, fez um curativo improvisado; encontrou alguns enlatados, e decidimos fugir. Não dava para voltar, tínhamos que seguir em frente, no sentido a catedral, era um dor infernal, eu me lembrei de Robson e dos medicamentos. Logo ouvimos um barulho de moto, era Igor; me senti aliviado ao vê-lo, mesmo tendo inúmeras perguntas. Ele me levou para o sindicato. O Magro seguiu o caminho a pé.

Em nosso refúgio, encontro Robson muito mal, e eu em estado semelhante ou pior. O Gordo deu um sorriso sarcástico ao me ver nessa situação. Priscila chorou, Robson ficou consternado. E Bruno? Havia sido morto, e ninguém sabia explicar como; mas Priscila, me falou que um tiro foi ouvido, minutos antes do retorno de Igor e o Gordo. E eu apaguei, mas ainda ouvi o Gordo questionar o aparecimento do Magro.

Leia  Dia 1.