Crônicas de Nova Amsterdã: Capítulo V

Cidade_mauricia

Capítulo V — O Duelo

04 de novembro 1646

Foi ao fim da tarde que Benito e Adele chegaram a Nova Amsterdã. Ao subir a colina na qual se localizava a cidade — que estava mais para um vilarejo — os mesmos foram presenteados com um lindo pôr do sol, que contrastava com o rio ao Norte. Mas logo foram surpreendidos com a presença de ciganos no local. E Valgram foi a figura avistada. O cigano os encarava, com o intuito de intimidar os recém-chegados.

O casal é recebido José Mauricio, que se oferece para guia-los até o local de suas acomodações. Durante o rápido caminho, Benito o questiona: “O que fazem ciganos aqui?”

“Eles são ‘funcionários’ do novo governador.”

“E esse governador, quem é?”

“Ele é um mistério, ninguém sabe o conhece.”

Chegam ao destino do marrano, e se despedem.

“Se o senhor precisar de algo, pode me procurar. Sua graça?”

“Baru—” ia respondendo, mas engole as palavras e rapidamente conserta: “Benito. Benito Simeão.”

José acena e parte com uma expressão confusa.

Quando a noite cai, Valgram encontra a porta do casarão aberta. Ao entrar, encontra o mesmo cenário da noite anterior. Apressa-se em direção à taça e bebe dela rapidamente, deleitando-se com a sensação.

“És um homem agora, meu pequeno.”

“Babá!”

“Tome, pegue a chave do casarão. Você agora é o líder.”

“Sim, eu sou o líder” repetiu um Valgram vaidoso, que a velha sempre conheceu, mas que coibiu por muito tempo.

“Não nos veremos mais.”

“Não babá, eu preciso dos seus conselhos.”

“Eu tenho contas a acertar e você precisa se casar.”

“Sim, com Samira.”

“Aproveite a festa e faça o que é certo. Não precisa ser justo.”

Valgram sai do casarão e não hesita em olhar para trás. Lá fora, os seus vassalos estavam em festa. A cidade inteira parecia espiar o seu casamento. Samira estava deslumbrante, dançando em um vestido vermelho, os cabelos negros longos e cacheados voando com o vento e os rodopios de sua dança. Ele se aproximou e a tirou para dançar. Segundo as tradições, o laço matrimonial estava firmado, só faltava a aceitação da comunidade para ele se tornar um legítimo líder.

Valgram recolheu uma taça, bateu com um talher e pediu a palavra. Não chegou nem a pronunciar as primeiras palavras quando foi interrompido por Tiago: “você não tem autoridade para ser nosso líder.”

“Está a me desafiar, Tiago?”

“Sim, até a morte!”

Valgram recolhe uma faca e parte em direção ao desafiante, que saca uma arma e atira em sua direção. O projétil acerta o peito e ele cai.

Mas levanta-se, para o susto de todos — principalmente do próprio Tiago: “como pode ser?”

“Eu sou seu líder, e de toda essa tribo” diz, enquanto crava a faca na boca do traidor e logo em seguida arranca seus olhos.

Os curiosos fugiram gritando, tamanho o terror criando pela cena. O padre tentou intervir, mas foi contido por Samira, que o levou para longe. Santiago já tinha olhado de forma diferente para a cigana, que despertava nele desejos mundanos. Benito Simeão ficara horrorizado, cobrando atitudes de José Mauricio, que por sua vez, alega não poder interferir na vida dos ciganos.

A festa acaba e quase todos se recolhem.

Samira diz a Santiago que precisa se confessar. O padre, enfeitiçado pelos encantos da cigana, atende ao seu pedido.

“Padre, eu ajudei o mal a vir para esta terra.”

“O mal está em todos os locais, minha filha.”

“Inclusive em você, Padre?”

“Sim, inclusive em mim.”

“Como pode o mal estar em um homem tão bom como o senhor?”

“Nem todos os homens são totalmente bons e totalmente maus.”

Eles conversam por longas horas noite adentro. Santiago, que desejava saber sobre o Barão e seus intentos, já se esqueceu dos seus objetivos. E próximo ao amanhecer, a cigana o fita bem nos olhos e pergunta: “Padre, o senhor me perdoa?”

“Por qual motivo?”

“Por esse!” e beija o padre, que se deixa levar pelo calor da jovem e a toma para si.

Valgram passa a noite acordado, aguardando por Samira. E vê uma jovem entrar no casarão no meio da noite, com a porta aberta. Ele vai conferir e a encontra fechada. “O barão abriu a porta,” pensou. Antes do nascer do sol, Samira retorna com um sorriso nos lábios.

“E o Padre?” perguntou Valgram.

“Não será mais problema.”

“Tiago também não será mais. Venha, vamos dormir.”

Nos primeiros minutos do raiar do sol, o padre reza pelo perdão de seus atos inconsequentes, quando é interrompido: “Padre Santiago…” sussurra o menino Quinho.

“Quinho!” responde o padre surpreso.

“Onde o senhor esteve? Eu tenho uma coisa pra falar!”

“Estive ocupado pecando; mas o que você tem a me dizer?”

“A menina Ana, a filha do pastor, entrou no meio da noite no casarão do Barão.”

“Tem certeza, Quinho?”

“Claro, claro que tenho!”

O padre agora está tomando de preocupações: “e agora mais essa notícia!” pensa, “Pode causar graves problemas!” Ele não sabe o que fazer, mas pensa em procurar a cigana, à noite. “Vá brincar, Quinho. Vou ver o que posso fazer.”

Leia o cap. 1

Leia o cap. 2

Leia o cap. 3

Leia o cap. 4

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