Sombras de Redenção: Blaze of Glory

Há uns dez anos atrás, quando eu estava narrando em Shadowrun 2ª Edição, escrevi uma série de contos com personagens centrados no tema principal da campanha, a redenção de criminosos profissionais em prol de um mundo melhor (sério!). Embora possa parecer inverossímil a princípio, foi uma mudança de rumo interessante e que deu origem a quatro pequenas estórias de NPCs que apareceriam esporadicamente dentro da campanha para orientar os personagens dos jogadores. Esta foi a primeira que escrevi:

Shadowrun: Anarchist Berlin, by raben aas

“Eu não miro com minha mão.
Aquele que mira com sua mão esqueceu a face de seu pai.

Eu miro com meu olho.

Eu não atiro com minha mão.
Aquele que atira com sua mão esqueceu a face de seu pai.

Eu atiro com minha mente.

Eu não mato com minha mão.
Aquele que mata com sua mão esqueceu a face de seu pai.

Eu mato com meu coração.”

— A Litania do Pistoleiro, Stephen King.

Eu digo e repito: nunca mire na cabeça. Mirar na cabeça só vai resultar em uma bala perdida (se você não tiver a mão firme ou um bom compensador de recuo) ou em um cadáver. E a guarda do Metroplexo não paga por cadáveres, a menos que eles sejam classificados como integrantes dos cem mais procurados pelas agências policiais da UNECAN ou dos EACON. Contudo, os EACON têm o hábito de fazer vista grossa se o prisioneiro ainda estiver vivo — mesmo se for por pouco tempo.

Assim, a maior parte dos meus serviços vai para os EACON. É simples, na verdade.

Eu deveria dizer que o trabalho em si não é simples, bem como o seu aprendizado. Na verdade, a única coisa fácil são os horários, a liberdade de escolher seu equipamento (caçadores de recompensa licenciados têm acesso à maior parte do instrumental padrão da polícia — sim, mesmo Lone Star) e de definir quais tarefas serão executadas e em que ordem.

Todo o resto é difícil, muito difícil, e eu não recomendaria este trabalho para ninguém, a menos que você goste de passar a maior parte do seu tempo em uma dieta de bagana e café gelado. Se você tem algum vício pessoal (eu estou tentando largar os cigarros, são péssimos para a visão noturna), eu também aconselharia a largá-lo ou procurar outra atividade.

Não há nenhum treinamento institucionalizado para a atividade, e se houvesse, eu não sei se seria capaz de apontar uma boa escola. Caçar gente na rua é uma coisa que só se aprende na rua. Ponto final.

— Comece com a comida. O que você come?

— Bom… Eu estou fazendo uma dieta, sabe?

— Pra quê?

— Pra quê? Bom, pra emagrecer. Eu sei que sou gordo, e isso é ruim nessa profis — Ai! — O que eu disse de errado?

— Primeiro, que queria emagrecer. Depois, que caçar era uma “profissão”.

Eu fiquei esperando um segundo ou dois antes de abrir a boca de novo. Não queria levar um outro tapa daqueles. Como não veio, eu perguntei, desta vez já preparado:

— E o que é, então?

Ele coçou a cabeça, impaciente. Tinha a cara de quem tenta explicar alguma coisa muito simples para um retardado e a explicação possível mais simples não foi o bastante. Na verdade, eu levei muito tempo pra entender essas coisas pelo rosto dele. Kane não é o que se pode chamar de expressivo. Aliás, é Kane, não “sensei” ou “mestre”. Chamar ele de “mestre” ou “sensei” garante que você vai levar uma surra ao invés de um tapa na cabeça.

E os tapas já são ruins o bastante. Achei que ia ter um derrame ou coisa parecida depois da primeira semana.

— O que acontece quando você vê um cara gordo na sua frente? Querendo confusão?

— Bom, se ele for forte…

— Não. Só um cara gordo, do seu tamanho, do seu peso.

Pensei um instante em como eu pareço no espelho. Não é grande coisa. Tenho um metro e setenta e coisa de uns cento e vinte, cento e trinta quilos, dependendo da semana de rodízio de pizza. Uso o cabelo comprido preso num rabo-de-cavalo (não é tão comprido assim) e cavanhaque. O tipo de cara que você para pra rir quando encontra na rua.

— Eu acho graça… certo?

Foi a primeira vez que vi a coisa mais próxima de um sorriso aparecer no rosto dele.

— Sim. É isso que todo mundo acha. Um cara gordo e pequeno é só para fazer rir.

Eu acho que devo ter mudado de expressão de uma forma muito drástica, porque no instante seguinte, ele disse:

— Esta é a primeira coisa que você aprende comigo. E é a mais importante. Não porque é a primeira, mas porque é sobre você.

— Porque eu sou gordo?

— E ninguém vai achar que você é capaz de alguma coisa. Ninguém vai levar você a sério. O que acontece quando ninguém acha que você é uma ameaça? — eu tive que pensar um instante pra responder, mas a resposta veio logo.

— Todo mundo vai baixar a guarda perto de mim. — era simples.

— E essa é a segunda coisa que você aprende comigo: um inimigo de guarda baixa é um inimigo pela metade.

Eu assenti e quase disse “sim, sensei”. Mas a cabeça já doía o bastante, então eu achei que na verdade, tinha aprendido três coisas naquele dia.

E às vezes o trabalho nem compensa tanto. Veja só o meu caso: esse cara que eu estava caçando devia mais de trezentos mil nuyens em golpes de credstick em variadas transações dentro de bancos e lojas de conveniência. Pura esperteza; nunca usou uma arma, só crédito falso e empréstimos em contas fantasmas pela Matrix. Claro, ele não deve agir sozinho. Pode ser uma quadrilha, ou só ele e um tecnauta experiente que prepara o terreno.

Você começa daí.

A recompensa não é muita coisa, mas o banco pode se mostrar agradecido e abrir uma linha de crédito pra você. Quando sua maior despesa são custos de manutenção com armas, munição e equipamento de vigilância, uma linha de crédito nunca é demais.

Então você passa uma semana chacoalhando seus contatos, outra semana perguntando nos vizinhos para confirmar o endereço (o truque é nunca dar a impressão que você quer achar o alvo: diga que é o funcionário de uma firma legal que tem que fazer um pagamento a ele e que você está aliviado por não encontrá-lo; o dinheiro acabará ficando com a firma).

E é aí é que o trabalho de verdade começa.

Não foi difícil arrumar um lugar perto da residência dele. O alvo é esperto e mora em um apartamento de classe média, num condoplexo discreto e sem muitos luxos. Nem aparenta ter todo aquele dinheiro em notas de crédito e credsticks avulsos legalizados através de sabe deus quantas operações de lavagens de dinheiro automatizadas na Matrix.

Você monta o equipamento de escuta, os grampos de linhas de comunicação, instala câmeras e espera; com sorte, mais uma semana.

Um mês depois, você já sabe que ele realmente tem um tecnauta trabalhando pra ele(anão, por sinal. Deve haver um clichê maior, mas esta não é minha linha de trabalho), que eles se encontram duas vezes por dia no apartamento, e que o alvo tem uma namorada que deve ter investido pesado em implantes cosméticos. Algumas vezes esta atividade vale a pena.

Aí é hora de fazer a prisão.

Isso quer dizer que você pega uma arma leve, carrega com munição não-letal, leva um taser só por precaução e se achar que vai ter problemas, uma arma extra. Pra garantir, duas granadas de ofuscamento, coloca uma blindagem leve e pronto: você já pode chutar a porta, dar voz de prisão e ir até a representação dos EACON mais próxima pegar o dinheiro.

Bem simples, né?

Só que não.

— Como você mata alguém?

Kane às vezes faz essas perguntas que parecem idiotas na primeira vez que se ouve, mas que depois de três ou quatro tapas, tornam-se verdades sábias, gravadas a fogo no fundo da sua alma. Geralmente ele espera até que você esteja fazendo algo que precisa de muita concentração e força, como disparar um fuzil de assalto em modo automático e conseguir que todas as balas caibam num círculo de dois centímetros e meio no centro do alvo.

— Com uma arma?

Ele virou a cabeça de lado, como se considerasse a pergunta.

— E o que é uma arma?

— O que eu estou segurando?

Dizer que os tapas vêm sem aviso é enunciar o óbvio. Ele estava a dois metros de mim, mas no instante seguinte, estava no local onde eu me encontrava de pé, segurando meu rifle descarregado enquanto eu rolava na poeira, a quatro metros dali.

— Errado.Você é a arma. Estas coisas grandes e desajeitadas que cospem pedaços de chumbo são apenas ferramentas. Não são nem mesmo extensões de você. Só servem para encurtar a distância até seu alvo, enquanto você for um aprendiz.

Claro, claro. Eu deveria saber disso. Ele me massacra há semanas, mesmo eu sendo capaz de cortar qualquer outra pessoa ao meio com uma arma automática. Um aprendiz.

— Quando você for um profissional, lembre-se de que estas coisas têm uma função muito simples, que é inferior à que você possui.

E com um movimento que eu não posso estar certo de ter visto por inteiro, ele recarregou o M-23 e disparou com displicência, a arma firme na altura do peito, quase não olhando para o alvo e usando uma só mão. Todas as balas passaram pelo mesmo buraco, em três ponto dois segundos.

Um aprendiz.

A essa altura, você já conhece as rotinas principais de todo o prédio, e pode passar pelos corredores e subir no elevador sem ninguém te ver. A segurança desses lugares de classe média é pequena: nada de vigias, apenas umas câmeras baratas que às vezes funcionam e um botão de AtivaAlerta da Lone Star em cada apartamento. O mais importante é que você não chuta a porta. Você coloca umas poucas gramas de explosivo plástico nas dobradiças e na fechadura. Detone-as, e jogue uma granada de ofuscamento logo em seguida.

O resto deveria ser simples.

Mas eu não contava que o tecnauta tivesse duas Berettas 101T com munição explosiva e a namorada, mais implantes de combate que o go-ganguer médio. O alvo ficou gemendo no chão, com a mão nos olhos, atordoado, cego e molhando as calças enquanto eu começava meu aviso de prisão.

Quatro tiros mal dados abriram buracos na parede acima e à esquerda da minha cabeça. Duas armas em cada mão é um pouco demais, mesmo para mim. Não é de se espantar que o tecnauta tenha errado. Agora, a namorada é outra conversa. Ela esticou o braço na minha direção, mostrando a palma da mão com os dedos bem abertos, sem mostrar nenhum sinal de estar ofuscada. Eu sabia que o anão contava com uma visão termográfica residual, mas ela deveria ter algum tipo de compensação ótica. Enquanto eu perdia tempo pensando nisso, um trem de carga de doze vírgula cinco milímetros me atropelou e quase que a noite acaba ali mesmo.

— E se as coisas derem errado durante uma caçada?

— Nada dá errado. Você pode fazer elas darem errado.

Mantive minha expressão idiota de quem não tinha entendido nada. Era bem melhor do que dizer algo errado e ganhar mais um hematoma na cabeça.

— Quando você não planeja, quando você acha que sabe o bastante sobre o alvo. Aí você faz as coisas darem errado.

— E aí? O que se faz?

— Você morre.

Engoli em seco. Não gostava de pensar nesse tipo de resultado.

— Mas você é um aprendiz. Aprendizes costumam ter sorte, no começo.

— E os profissionais? Se não têm sorte, têm o quê?

Quando levantei meu corpo dolorido do chão e me dei conta de que desta vez, o nariz tinha sido definitivamente quebrado, ele me disse:

— Profissionais não precisam de sorte.

Tirei a mão do nariz, coberta de sangue. Naquele momento, ele me pareceu a coisa mais próxima da morte que eu já tinha conhecido. Kane suspirou.

— Eles têm coisa melhor.

Encostei o corpo no que restou da porta, ainda presa por uma dobradiça à moldura e disparei com a arma na mão esquerda em direção ao tecnauta. Ele não era o alvo mais importante, mas com duas armas atirando ao mesmo tempo, uma hora ele ia acertar alguma coisa, mesmo que levasse a noite toda.

Obviamente, eu não tinha a noite toda.

Foi por isso que trouxe as minhas Berettas 200ST. Uma delas ia para o chão, porque com a mão direita eu sacava o taser. Mas a da esquerda colocou seis cartuchos de gel no esterno do tecnauta. Quase pude ouvir o osso partindo enquanto ele caía desacordado e muito provavelmente precisando de assistência médica. Mas eu tinha outras coisas para me preocupar. A namorada do alvo, por exemplo. Como eu imaginava, a espingarda implantada no braço só tinha um cartucho. Um recurso defensivo comum em quem tinha membros bioeletrônicos como necessidade profissional.

Infelizmente, não era só o que ela tinha.

As lâminas saltaram sob as unhas — todas as dez. Cromadas e brilhando sob a luz indireta da pequena sala, elas descreveram um movimento duplo fechado sobre meu braço esquerdo, que teria sido cortado fora na altura do cotovelo, se não fosse pela armadura anatômica. Lembrem-se bem disso: proteção corporal nunca é demais. Mesmo assim, aquele braço já era, pelo menos até eu poder costurar os tendões de volta no lugar.

— O que eu faço com a dor?

— Ignore.

— Falar é fácil…

Arregalei os olhos, não acreditando que tinha dito aquilo em voz alta. Mas tinha sido um dia difícil, e Kane parecia estar particularmente mal-humorado. Trinquei os dentes e relaxei o corpo, esperando pelo tapa, mas ele não veio. O que havia de errado? Ele olhava para mim como se fosse pela primeira vez.

— É verdade. Falar é fácil. — ele ponderou por mais um instante, como se estivesse decidindo se eu era digno ou não da informação — as a dor pode ser ignorada, embora você não deva se acostumar com isso. A dor não deve ser esquecida. Ela também é sua aliada. A dor lhe ensina.

Bom, era verdade. Kane me dava muitas lições todo o dia, e a maior parte envolvia o quesito dor.

— Então eu não devo ignorá-la?

— Não. Você deve abraçá-la. A dor é sua amiga. Ela lhe lembra de que você está vivo.

É aqui que se diferencia o novato do veterano: você tem garras de carbono, um braço bioeletrônico, uma arma implantada, reflexos ampliados e olhos bioeletrônicos com amplificação luminosa e compensadores de ofuscação. Um gordo de sobretudo com rabo-de-cavalo e cavanhaque chega na sua frente gritando ordens, e ele não apenas perde uma arma, mas deixa a outra cair, logo antes de você transformar o braço dele em espaguete. O que você faz? O que todo mundo faz.

Ela riu. Riu e avançou para terminar o serviço.

No tempo em que levou para rir, eu saquei a Defiance Super Shock — modelo padrão, modificado para usar dardos capacitores —, destravei, regulei para carga máxima e rajada automática. Ela recebeu os quatro dardos no pescoço de uma vez só.

Cada dardo tem uma carga nominal de cinquenta mil volts. Um dardo não é letal, geralmente. Mas ela recebeu quatro. Faça as contas.

Seus bioeletrônicos fritaram antes do cérebro, o que permitiu um grito engasgado e um passo para frente, de forma a poder morrer tranquilamente aos meus pés.

Olhei ao redor. Dez segundos haviam se passado. A namorada guarda-costas estava morta, o tecnauta respirava com dificuldade pela boca, através de uma barba de espuma avermelhada e o alvo estava morto, com dois buracos fumegantes nas costas.

Como eu disse, uma hora o anão ia acabar acertando.

Antes que as sirenes chegassem, eu já estava no térreo, com a chuva começando a cair com uma irritante disposição para terminar o que poderia ter sido uma boa noite de trabalho. O que tinha dado de errado? Passei as horas seguintes costurando o braço e empacotando o equipamento. Do outro lado da rua, o bloco de apartamentos do alvo fervilhava de testemunhas, policiais e mídia. E eu não sabia quem era pior.

As coisas estavam diferentes naquele dia. Kane estava sentado na mesa — inacreditavelmente vazia —, sem sua habitual carga de diferentes armas, munições e kits de limpeza e lubrificação. Não haviam alvos no estande de tiro. O lugar nem mesmo cheirava do mesmo jeito.

— Qual é seu maior medo?

Aquilo era meu maior medo. Quando ele me ensinava algo novo, que eu nem tinha idéia do que seria.

— Da morte?

— Você já está morto, menino. Desde que nasceu. Foi a primeira coisa que aprendeu, quando eu te encontrei. Você aceita isso, ou desiste. O que mais?

Morrer não era. Sofrer? Não, dor também não. Do que eu tinha medo? Foi simples descobrir: bastou olhar para a mesa vazia de armas, das coisas que eu conhecia intimamente e nas quais confiava minha vida e minha recém-descoberta arte. Ele acenou com a cabeça, confirmando meu pensamento.

— Hoje você vai aprender que tudo isso é besteira, que tudo isso que eu venho lhe ensinando só serve como peso de papel quando está sem munição. Mas o que é que nunca fica sem munição?

Eu olhei para minhas mãos desarmadas, tentando entender. Fiquei ali um longo tempo, imaginando que tipo de arma não ficava sem munição. Só quando deixei de olhar para o que não estava nas mãos foi que entendi. Fechei os punhos com firmeza até que os nós dos dedos ficassem brancos e olhei de volta para ele.

— Bom. Vamos começar. Mas não se preocupe: eu trouxe algo pra você.

E saiu da mesa, mostrando a caixa de primeiros socorros que ocultava com o corpo.

Acho que ficamos ali por três dias, não sei bem. Também podem ter sido três horas. Depois de um determinado pornto, o tempo deixou de fazer sentido. O soco começou sendo só um soco, depois deixou de ser só um soco e finalmente voltou a ser só um soco. Eu não sei. A única coisa que ele me disse foi para bater com força, bater no lugar certo e para bater sempre primeiro.

E também fez questão de não parar até que eu tivesse conseguido quebrar seu nariz.

Eram três me esperando no apartamento, apesar de todos os alarmes e todas as precauções. Apesar dos sensores de infravermelho na porta e nas janelas e apesar dos explosivos acionados por pressão embaixo do carpete de entrada.

Eu realmente odeio ninjas.

Mas quando você mata uma guarda-costas oriental de um estelionatário em ascensão a serviço da Yakuza, o que mais você pode esperar senão a Yakuza? Pelo menos eles eram profissionais também. Não é tão ruim morrer quando há profissionais cuidando de você. Não é vergonhoso nem desonroso. É apenas ridículo.

O primeiro saltou sobre mim da escuridão da sala, brandindo uma droga de uma espada samurai. Aposto que estava coberta de dikote, pelo reflexo e pelo som enquanto cortava o ar em direção à minha cabeça. Ele não era o problema. Em algum lugar da sala, seus dois companheiros esperavam que eu me concentrasse nele para descarregarem duas espingardas de assalto na minha direção. Quem sabe até com munição perfurante, ou se eu estivesse realmente com sorte, flechette.

Eu sabia que o imbecil da espada deveria estar blindado da cabeça aos pés, com aquele capuz colante mostrando só os olhos. Então, atirei nos olhos.

Olhos são um alvo fácil, brancos e brilhantes, refletindo de volta toda a luz ambiente quando olham para você. O resto do pente da minha 200ST foi para ele. À queima-roupa e através de tecido macio, até mesmo projéteis de gel não-letal fazem um bocado de estrago. Atravessam a órbita do crânio e esmagam os ossos frágeis acima da cavidade nasal, enviando uma chuva de fragmentos para o cérebro.

O truque é pular no chão enquanto faz isso, com a arma em modo de rajada e um braço inutilizado.

Eu rolo para o lado do capanga número dois — fácil de identificar pelo desodorante barato e ineficiente —, ouvindo as espingardas pulverizarem o local onde eu estava meio segundo antes. Centro e trinta quilos de corpo humano são uma coisa impressionante quando acertam nas pernas de alguém. Fazem ela literalmente subir no ar. No escuro, com a adrenalina jorrando de todos os poros, com seus implantes oculares ofuscados por disparos contínuos de espingardas, o capanga número três fez o melhor que pôde e descarregou o resto de seu pente — eu contei os tiros de cada um deles — no seu colega, que me cobriu de sangue alheio e estofamento do sofá.

Deviam estar usando espingardas CMDT sem neuroconexão, ou ele não teria pressionado convulsivamente o gatilho por dois segundos inteiros após a munição ter acabado. Agora, existe uma coisa importante a se saber sobre mim. Eu sou gordo, uso um rabo-de-cavalo e cavanhaque. As pessoas tendem a confundir isso com estar fora de forma. Não é o caso. Boa parte dos meus centro e trinta quilos é composta de musculatura sólida, que eu cubro com gordura cuidadosamente cultivada por idas frequentes a restaurantes de comida italiana e africana. É fantástico o que o amido pode fazer por você. Faz parecer que você é apenas mais um gordo lento e desajeitado, outro alvo fácil.

Faz você parar para rir.

No primeiro segundo, eu estava de pé, e no seguinte, esmurrando seu pescoço exposto com o punho fechado, colocando o meu peso e a velocidade do deslocamento por trás de tudo. Isso é outra coisa que eu aprendi: artes marciais são besteira. Você só precisa saber onde bater, com força e com precisão. Todo o resto é inútil.

Ele esguichou alguma coisa pela boca dentro de sua máscara e caiu, talvez com o pescoço quebrado. Eu não sei. Mas quando eu bato desse jeito, ninguém levanta — pode ser ork ou troll, não levanta mais.

Eles não eram nem uma coisa nem outra.

Juntei o que cabia no carro e saí sem fechar a porta.

Aquele dia foi diferente dos outros, porque foi quando eu aprendi o que ele tinha de melhor para me ensinar.

— Hoje é sua última aula.

Por um instante, eu achei que íamos ter um daqueles duelos mortais entre aluno e mestre. Com o sobrevivente do que só poderia ser um combate até a morte conhecendo seu destino definitivo ou procurando outro aluno, dependendo do vencedor.

Tudo bem. Já não levava tapas há semanas, fosse por não perguntar coisas estúpidas, fosse por ter ficado mais rápido.

— A partir de hoje você fica por sua própria conta. A partir de hoje, o mundo lhe ensina. Aprenda bem — eu deveria ter pensado em algo melhor para dizer, mas tudo o que saiu, sem gaguejar, foi:

— Qual… qual é a diferença?

— A diferença é que quando você erra comigo, você leva um tapa na cabeça e se levanta pra entender onde errou. Com o mundo, você não levanta mais. Aprenda bem. Eu fui muito displicente com você, mas você aprende rápido. Continue assim. Continue vivo.

E jogou algo para mim.

Identifiquei o que era antes de ver o brilho da prata nos detalhes bem-cuidados, nas gravações feitas no corpo de titânio no calibre quarenta e cinco. Couro de verdade com enfeites simples em filigranas e baixos-relevos em símbolos arcanos. Sete tiros cada.

— Seis para seus inimigos. O último para o inimigo do mundo. Aprenda.

— Quem é o inimigo do mundo? — perguntei, levantando os olhos da armas.

Mas ele não estava mais ali. Sozinho no grande galpão repleto de armas, munição e alvos. O cheiro de pólvora e propelente sólido parecia um perfume que eu sentia pela primeira vez, o último indício da presença de Kane. Lembro de ter querido chorar como um garoto que perde os pais. Mas eu nunca tinha conhecido meus pais e nunca achei importante sentir saudade do que não tive. Só senti falta daquele maldito velho intratável como se fosse o resto de humanidade que me impedia de sair matando quem eu encontrasse na rua até que a munição ou a sorte acabassem. O que viesse primeiro.

Mas não fiz nada disso.

Prendi o cinturão de couro e ajustei as tiras de suporte nas coxas, mantendo os coldres baixos, na altura ideal para sacar. Os revólveres não tinham neuroconexão — nem eu tampouco —, mas tinham o peso e o equilíbrio que você espera na espada do anjo da morte, forjada no inferno e temperada no sangue da besta do apocalipse. Coloquei doze tiros de cada uma em único buraco no centro do alvo.

A sétima bala eu guardei.

Naquele dia, eu aprendi a coisa mais importante: que só ia morrer quando fosse velho ou idiota demais, ou ambos. Mas como eu não era mais idiota, e iria demorar a ficar velho, decidi viver da única maneira que tinha conhecido.

Tenho um outro apartamento, agora. E acho que outra vida também. Adeus EACON e Lone Star. Adeus dinheiro fácil e legalizado. Pelo menos parei de fumar. Cigarro é muito mais caro quando você não pode ir numa loja de conveniência sem ver sua cara estampada em 3-D no Confederated American States: Most Wanted logo após o noticiário. Tenho amigos novos, também.

Deixe-me colocar de maneira melhor: eu tenho amigos também. Todos eles sofrem do mesmo problema de má publicidade, e todos fazem trabalhos contra os gigantes, contra os inimigos do mundo. Alguns eu reconheço do trídeo. Outros — os mais dedicados, os verdadeiros profissionais — eu nunca vi em lugar algum. Eu aprendo com eles. Aprendo com o mundo.

Tenho menos equipamento pra me preocupar. Só o que tenho é o que posso carregar nos coldres. E hoje, é só o que eu preciso. Sete tiros em cada, com direito a duas recargas. Nunca se sabe o que você pode encontrar nas ruas.

Está tudo bem. Como Kane disse, eu não tenho uma profissão.

E agora eu sei: eu tenho um destino.

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