Resenha: Marvel Heroic Roleplaying

Capa MHREsta resenha é, curiosamente, sobre um sistema que apesar de recente, já não existe mais: Marvel Heroic Roleplaying. Publicado pela Margaret Weis Productions em 2012, era o mais novo RPG a utilizar o sistema Cortex, desenvolvido pela editora para jogos anteriores, como Smallville, Leverage, Firefly e Battlestar Galactica — notem que todas as primeiras adaptações do Cortex foram feitas a partir de séries de TV, populares na época. Parecia natural que os quadrinhos da Marvel fossem sua próxima escolha de conteúdo para um RPG sobre super-herois.

Infelizmente, Marvel Heroic Roleplaying teve vida curta; o custo alto da franquia logo cobrou seu preço, junto a uma estratégia irregular de lançamento e de contexto, orientada pela própria Marvel, sobre os suplementos e conteúdos dos primeiros livros a serem lançados — que tinham como tema a saga Guerra Civil, terminada nos quadrinhos pelo menos cinco anos antes do lançamento do RPG. Apesar de ter recebido uma boa recepção da crítica especializada — tendo sido vencedor do Ennie Awards de 2012 na categoria Melhores Regras — Marvel Heroic Roleplaying foi descontinuado no início de 2013. Todas as cópias digitais foram retiradas das lojas online e apenas as cópias impressas já distribuídas puderam ser vendidas. Contudo, a Margaret Weis Productions anunciou recentemente que lançará uma versão do conjunto de regras — sem a franquia Marvel —, mas ainda não especificou uma data.

Essencialmente, a mecânica básica do sistema Cortex implica em lançar um grupo de dados, ligados às características do personagem, que vão de d4 até d12 e escolher dois deles, somando-os, para definir seu resultado. Quanto maior o valor, melhor. Este valor é comparado contra a rolagem de outro jogador, NPC, ou um valor arbitrário definido pelo Narrador, segundo as circunstâncias.

Todo o sistema poderia ser resumido assim, mas cada tipo de Cortex tem suas próprias nuances. Atualmente, existem três variantes: Dramatic Roleplaying, usado em Smallville, com forte ênfase na interpretação das características pessoais dos personagens e sua relação com as tramas e reviravoltas da narrativa; Action Roleplaying, que foca em cenários de ação e resolução de problemas de maneira pragmática e astuta, usado em Leverage; e Heroic Roleplaying, usado em (adivinhem!) Marvel Heroic Roleplaying, que daqui em diante, passarei a chamar de MHR.

Após um upgrade do Cortex, ano passado, ele passou a ser chamado de Cortex Plus, unificando a mecânica dos três modos, chamados de Cortex Plus Action, Drama e Heroic. Cada um possui regras específicas no que diz respeito às suas particularidades, mas a mecânica geral de uso dos dados foi mantida para todos.

A linha de publicações de MHR incluía o livro básico, com uma variante contendo a estrutura de campanha (chamada pelo sistema de Arco) de Guerra Civil, seguido de suplementos sobre os X-Men, Iniciativa Vingadores, Jovens Vingadores e Fugitivos (todos com laços narrativos em relação a Guerra Civil) e finalmente, um novo Arco — Aniquilação — com várias regras extras de combate espacial, criação de espaçonaves e como lidar com eventos cósmicos; Galactus, por exemplo.

O Personagem

Personagens em MHR são definidos por tipos de dados: d4, d6, d8, d10 e d12. Eles funcionam em uma espécie de escala, onde d4 seria algo na escala medíocre humana — ligeiramente abaixo da média — e d12 seria a escala máxima sobre-humana, como o poder do martelo do Thor ou um murro do Hulk durante um de seus acessos de fúria. Estes dados são distribuídos por suas Características:

Ficha do Homem-AranhaAfiliações: define se o herói trabalha melhor quando está sozinho (Solo), em Dupla (Parceiro) ou com vários companheiros (Equipe). No caso, distribui-se um d6, um d8 e um d10 entre as Afiliações. Dependendo da situação, o jogador terá um destes dados para adicionar à sua Pilha de Dados.

Distinções: Três características importantes do personagem (como Sentinela da Liberdade para o Capitão América e Bilionário, Playboy, Filantropo para Tony Stark), uma delas geralmente negativa (como um Eu Estou Sempre com Raiva, do Dr. Banner). Se qualquer uma delas se aplicar à situação, o jogador acrescenta um d8 à sua Pilha de Dados.

Conjuntos de Poderes: É aqui que definimos poderes, armas, equipamentos especiais e tudo o que faz um super-heroi ser super. Cada um dos poderes comuns tem uma definição no livro — ou você pode criar o seu próprio poder, embora a lista seja bem abrangente. De qualquer maneira, cada poder recebe um dado, que vai de d6 (para os níveis mais básicos) até d12 (poder cósmico!). Um bom exemplo é Wolverine, que possui um conjunto de Poderes chamado de Mutante Feral, composto de Vigor (d12), Sentidos (d10), Força (d8) e Reflexos (d8). Traduzindo, podemos dizer que ele tem Força e Reflexos Ampliados — pouco acima do limite humano; Sentidos Sobre-Humanos, que representam sua capacidade sobrenatural de perceber o ambiente ao seu redor (como seu olfato capaz de distinguir entre pessoas, robôs e até clones) e Vigor Super-Humano (alguém já viu o velho Wolvie cair de cansado?). Personagens com mais de um Conjunto de Poder (Como o próprio Wolverine, que possui os conjuntos  Mutante Feral e Programa Arma X — de onde vêm seu esqueleto e garras de Adamantium) beneficiam-se de uma Pilha de Dados maior, já que cada Conjunto de Poder permite adicionar um dado adicional à Pilha de Dados.

Especializações: Representam habilidades, perícias e conhecimentos do personagem. A lista é curta, e representa aquele escopo bem aberto dos heróis de quadrinhos, que geralmente possuem habilidades muito acima do nível dos meros humanos, realizando até tarefas para as quais jamais tiveram treinamento ou mesmo prática. São classificadas como d8 (nível de Especialista) ou d10 (nível de Mestre).

As Regras

Todo o sistema se resume a isso: cada Característica da ficha de personagem adiciona um dado à Pilha de Dados (às vezes mais), que é rolada; dela, escolhemos dela dois dados (os de maior valor) e os somamos, chegando a um total, que por sua vez, é comparado contra um teste de um oponente, definido pelo GM.

Finalmente, um terceiro dado é escolhido da sua rolagem — não pelo seu valor, mas pelo seu tipo (um d8 é melhor que um d6, e assim por diante) servindo como um Efeito contra seu oponente ou obstáculo e dependendo das circunstâncias, ser o suficiente para derrotá-lo ou superá-lo.

Dados para MHR

Não é uma má ideia separar os dados por cores

A Pilha de Dados pode ser incrementada com dados extras ou a ativação de recursos especiais dos Conjuntos de Poderes, chamados de Efeitos Especiais, que aumentam a efetividade do poder (como o raio ótico do Ciclope sendo capaz de ricochetear até alcançar seu alvo) a um certo custo e Limitações, que reduzem ou “desligam” os poderes (como Tempestade sendo incapaz de usar seus poderes durante um ataque de claustrofobia), mas permitindo ao jogadores receber um Ponto de Plot pelo desconforto narrativo.

Pontos de Plot são representados no jogo por uma ficha plástica, pedaço de papel ou qualquer marcador físico (eu gosto de usar fichas de pôquer, daquelas de lojas de 1,99) e podem ser usadas para incrementar a Pilha de Dados com dados extras, ativar efeitos especiais de poderes, refazer rolagens sem sucesso e simular vários outros efeitos comuns às ações de super-herois. O jogador as recebe quando interpreta bem o personagem ou quando usa uma Distinção contra si mesmo (o alcoolismo de Tony Stark, a falta de conexão do Capitão América com os dias atuais) ou quando ativa um dos Limites de seus poderes, desligando-os temporariamente.

O sistema não possui sucessos e falhas críticas, mas sempre que um dado resultar em um valor de 1, ele não pode ser usado pelo jogador. É o que se chama de Oportunidade. Quando acontece com um teste do GM, o jogador pode usar um de seus Pontos de Plot para comprar aquele dado e adicioná-lo à sua Pilha — mas uma vez usado, ele desaparece. No caso do GM, quando um jogador rolar um dado (ou dados) com valor de 1, ele pode gastar pontos de plot para adquirir as oportunidades e adicioná-las à sua Pilha de Dados — chamada de Pilha do Destino — para melhorar as chances de seus NPCs contra os personagens dos jogadores.

Ao conseguir afetar um oponente, o dado de efeito pode ser usado para representar um dano físico, emocional ou mental ao oponente, dependendo do ataque (que pode ir de um raio ótico a xingamentos), chamado de Estresse; ou uma Complicação, representando uma condição que o oponente carregará por algum tempo (como ficar desarmado ou preso a escombros). Neste caso, o dado de efeito è adicionado às Pilhas de Dados de todos que atacarem aquele oponente, até seu efeito passar.

O dado de efeito e até especializações permitem também criar recursos especiais, desde acesso privilegiado a informações (a senha para os computadores da base da Hidra) até a ajuda de aliados (Thor vai nos ajudar nesta missão). É claro que estes recursos não funcionam de forma indefinida. Alguns tem um uso único, enquanto outros podem estender-se ao longo de uma cena ou até de uma sessão de jogo.

Existem, é claro, várias regras adicionais, mas basicamente o MHR se resume a isso: role sua pilha de dados, escolha dois para somar juntos e um terceiro para causar um efeito em seu oponente.

Construção de Personagem

Curiosamente, não existe um conjunto de regras formal para criar personagens em MHR. Aliás, a graça do jogo é usar personagens clássicos da Marvel cujos rumos você sempre quis mudar enquanto lia suas estórias favoritas. Quem nunca quis jogar como um membro dos Vingadores, X-Men, ou Quarteto Fantástico? Quem nunca pensou “ah, se eu fosse o escritor desta revista, este final não seria ruim assim”, ou “eu sei como fazer com que esta batalha seja verdadeiramente épica”?

É para isso que foi criado o MHR. O livro chega a ressaltar que não existe uma maneira “certa” de interpretar um personagem tradicional. Quer que seu Wolverine seja mais controlado e emocionalmente estável? Que o seu Capitão América use armas de fogo? O MHR apenas não permite, mas ele incentiva ao jogador conduzir o personagem da maneira como achar melhor. Como ele gostaria que fosse.

Mas é possível criar seu próprio personagem, a mais nova estrela no céu de heróis da Marvel? Certamente, mas o MHR tem como única regra neste sentido o “use bom senso.” Quer fazer um personagem como o Homem-Aranha, ágil e superforte (pero no mucho)? Sem problemas. Mas não abuse da distribuição dos dados. A natureza das regras leva a construção de personagens a tornar-se uma tarefa entre os jogadores e o GM, que juntos, terão que aprovar a ficha de personagem, de forma que se integrem à natureza da equipe que estão formando. O que não é tanto uma questão de escala de poder — e aí poderíamos questionar a presença do Capitão América em uma equipe com um golias verde, um deus e um gênio milionário com armadura de alta tecnologia — mas uma questão de se a equipe funciona bem com aquela configuração.

No fim das contas…

MHR é um representante bem-sucedido dos sistemas narrativistas que encontraram um nicho adequado nos RPGs de super-herois, com uma pilha de dados simples e personalizável, que funciona em dois níveis; no primeiro, permite o uso de estratégias de min/max (mas sem apelações) para o jogador que gosta de usar a mecânica ao seu favor; ou no segundo, como algo simples, que ocorre na margem da narrativa, para o jogador que prefere a imersão acima de tudo. Os livros publicados trazem uma grande quantidade se personagens (entre heróis, vilões, etc.), mas o que faltar pode ser encontrado nas bases de dados de fãs. Além disso, é fácil adaptar super-herois de outras editoras para o MHR. Você não precisa ficar preso aos Vingadores — Liga da Justiça, Watchmen, Power Rangers — existe uma quantidade surpreendente de adaptações feita por fãs, incluindo regras alternativas e novas fichas de personagens.

Links

Certamente existem mais sites de fãs por aí, mas estes são os que frequento com mais assiduidade.

Marvel Plot Points (http://marvelplotpoints.com/) — excelente fonte não só de fichas de personagens, mas também de recursos variados para o jogo, todos de boa qualidade.

Lost Files of Marvel (http://exploring-infinity.com/marvel-heroic-roleplaying/lost-files-of-marvel-unofficial-datafile-index/) — uma base de dados absurdamente completa para o MHR, com fichas completas de heróis e vilões que você jamais imaginou existir!

GrowingDread (https://growingdread.wordpress.com/) — um site de fã que não é atualizado há algum tempo, mas que contém bastante material para o MHR.

Martyrs and Madmen (https://martyrsandmadmen.wordpress.com/) — mais um site de fãs, com várias house rules.

The Doom Pool (https://thedoompool.wordpress.com/) — ainda fãs, e desta vez, com várias opções de Arcos de estórias para o MHR.

MHR Wiki (http://marvelheroicrp.wikia.com/wiki/Marvel_Heroic_Roleplaying_Wiki) — claro que alguém ia acabar criando um wiki do MHR. E com dezenas de personagens prontos.

 

*este post foi originalmente publicado no blog Empório Fantástico, que está temporariamente fora do ar.

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