Mesa de Bar


Um conto de Aparição: o Esquecimento

Wraith Walker

Há quanto tempo estou aqui? Eu não sei informar com certeza, os dias do lado de cá sempre são dias cinzas, mas posso dizer que já vi muita coisa boa e ruim desses lados. Minhas roupas? Bem, na verdade elas nem existem… são expansões de meu próprio ser, menos essa moeda, ela é… especial, uma imagem que eu tinha de meus últimos dias do outro lado. Acho que devemos começar pelo fim… meu fim.

Eu tinha vinte e três anos, era filho de um grande comerciante em Natal… não, não vou dizer o nome de minha família… sei lá, vai que ainda exista alguém por ai, mas voltando ao assunto, era jovem, solteiro e gostava de jogos, nos dados de osso não tinha gambé que me ganhasse e mesmo que não fosse de bom tom, nas cartas meu baralho tinha mais saias do que paus e foi numa dessas que minha vida virou ao avesso.

Era uma noite como qualquer outra, nada de mais, estávamos em uma dessas casas que hoje vocês chamam de casa de drinks, eu tinha uma mão perfeita e uma negra com a boca ocupada, mas aquele maldito marujo tinha que desconfiar, acredite, ele não desconfiou de minha casaca, mas da negra com o busto exposto e de joelhos ao lado da mesa… se tivesse puxado pela minha casaca, eu simplesmente pediria desculpas e pagaria as mãos que ele tinha perdido, mas ele tinha que chutar minha puta preferida? Já comecei quebrando a moringa na cabeça dele, eu era um filho da terra, não tinha porque carregar armas comigo, mas aquele imbecil tinha seu canivete de cortar fumo de rolo e não se fez de rogado e me deu  um belo corte no braço.

Quando você entra em um briga de bar, você não pensa no que vai acontecer, eu lutava para manter aquela faca longe de mim e aquele lazarento tentava abrir meus fatos com ela. Não sei como, mas a negra que estava comigo me jogou uma peixeira — o que é isso? Uma faca grande, bem maior que o canivete de cortar fumo do marujo — a luta mudara de rumo, agora os dois cachorros podiam morder, mas eu te juro… nunca quis fazer aquilo, nem lembro como, mas a peixeira cravou fundo na barriga do homem… me lembro do pânico ao ver o sangue e as tripas dele saltando para fora, não sei se ouvi ou pensei ter ouvido ele dizer “você me matou!

No desespero, corri para casa e me tranquei no meu quarto. Meu pai era um homem justo e sensato, mas ainda assim respeitava minhas noites de farra e não me perguntava o que tinha feito, por isso tão logo o medo passou, a “marvada” veio me botar para dormir. Ninguém ia me pegar, eu tinha livrado o flagrante, o marujo era de outro país, seria enterrado como indigente e o capitão do navio ia dividir seus pertences… todos sairiam lucrando.

Menos meu pai, que quando soube do ocorrido voltou para casa, foi até meu quarto, me acordou, me obrigou a me vestir e me acompanhou até a casa de câmara e cadeia… me entregou como o bandido que eu era, um assassino… mas nada daquilo me abateu — o que me abateu mais foi os olhos de meu pai, a decepção que ele carregava no peito.

Foi para não ver essa dor que eu tomei coragem de fazer o que fiz, antes do meirinho vir deixar o café da manhã: torci minha camisa e improvisei uma corda curta, amarrei no teto baixo da cadeia e passei ao redor do pescoço. Não havia altura suficiente para pular… então dobrei os joelhos como jamais havia feito na vida… o ar não chegava mais, os momentos pareciam longos e por vezes pensei em desistir, mas então a escuridão, o frio e o silêncio chegaram para mim… é estranho lembrar, mas a ultima coisa que pensei foram nos seios da negra.

Meu despertar desse lado foi doloroso, mas não vou entrar em detalhes, basta dizer que meu senhor original era um idiota (pois é, a escravidão também existia desse lado) e lembra do marujo? Chegou uns dias antes de mim. Imagina, pensei que aqui era o inferno e então fui compreendendo as coisas… aqui era pior que o inferno.

Eu podia ver todos os que amava do outro lado sem jamais tocá-los, eu podia ver os amigos na farra sem poder participar… e como eu amava meus dados, minhas cartas, minha negra… e cada uma dessas coisas foi sumindo com o tempo. Meu pai me fez um grande favor me mandando minhas cartas, mas o mesmo não aconteceu com minha negra.

Sabe, uma coisa que descobri quando cheguei aqui… amava a loja de meu pai, sempre achei que era dali que vinha meu sustento, mas mesmo depois que ele a fechou, mesmo depois que ela mudou de dono, até hoje gosto de ver a fachada decadente dela.

Você pergunta de meu pai… Demorou para ele partir, estava lá, tanto para me despedir como para protegê-lo, mas meu pai não veio para esse lado, não viria; ele viveu bem, viveu toda sua vida e cumpriu todas as suas missões, acho que ele alcançou o paraíso. E não, não tenho esperanças de encontrá-lo lá.

O que me prende aqui? Acho que o velho prédio onde funcionou a loja de meu pai. Toda vez que olho para ele, me dá uma dor, uma espécie de saudade… é algo bom, alimenta o pouco que sou. Ah, essa moeda? Lembra do marujo? pois é… ele não teve tanta sorte como eu e hoje carrego ele comigo… sim, é isso mesmo o que você pensou; acho que a condenação dele é pior que a minha.

No final das contas, ele devia ter puxado a manga da minha casaca.

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