Crônicas de Nova Amsterdã: Capítulo IV

Cidade_mauricia

Capítulo IV — Benito Simeão (Baruch Shimeon)

Baruch é um homem de estatura média e um pouco magro, com a pele branca, cabelos escuros e olhos do mesmo tom. Tem 38 anos, tendo nascido em 14 de julho de 1608. É filho de Aaron Shimeon e Avivah e nasceu e viveu os primeiros anos de sua vida em Cádiz (Espanha). Sempre introspectivo — desde a infância — passou toda sua vida constantemente ao lado dos pais, sem amigos e sempre devotado às ocupações religiosas de sua família judia.

Em sua infância ainda, um fato o impressionou: encontrou no porão de sua casa um velho sufi acorrentado e que vinha sendo constantemente torturado por seu pai e outros judeus de Cádiz. Por várias noites, Baruch levou água e comida para o velho, que sempre o agradecia com um ensinamento. Um dia o homem desapareceu, o que deixou o menino muito triste, pois achava que o seu pai e os amigos o haviam matado. Mas feliz foi a sua surpresa em escutar uma conversa à noite; o velho havia sumido. A partir desse momento, a criança passou a enxergar o velho em todos os locais que frequentava, especialmente nos cômodos da sua casa, mas nunca se aproximou. As visões duraram até o início da adolescência.

Com a intensificação da já cruel inquisição espanhola, a família se viu obrigada a fugir do reino. Na fuga para Portugal, que teve início em 1629, seus pais foram mortos em Huelva, ainda na fronteira. Em 1631, Baruch se instala em Lisboa e passa a viver entre os cristãos novos, onde conhece Adele, uma judia que como ele, se oculta entre os marranos. Em 1634, Baruch conhece um holandês chamado Rutger, que no ano seguinte consegue a entrada do casal nos países baixos através de uma viagem de barco, partindo de Lisboa em direção a Amsterdã.

Em Amsterdã, Baruch prospera nos negócios e tem uma vida tranquila, até o retorno de Rutger em 1643, com uma proposta de trabalho em Nova Amsterdã e uma carta com a assinatura real. Assim, após uma longa conversa com o amigo, o judeu decide vir para Nova Amsterdã.

O conteúdo da conversa é desconhecido até pela esposa de Baruch.

31 de outubro de 1646

O agora cristão novo, Benito Simeão jantava na casa do seu anfitrião, Moisés Coelho, na véspera de sua partida para Nova Amsterdã. Não muito acostumado com o calor dos trópicos, está derretendo de suor, mas mantem o recato e a postura perante o seu convidado, que o indaga:

“Não estás acostumado com esse calor, amigo?”

“E há como se acostumar?”

“Quando cheguei menino, também reclamava bastante. Mas me acostumei.”

“Espero me acostumar rápido então; na verdade, preciso.”

Coelho ri, acompanhado por Simeão, o que faz com que a sua esposa esboce um sorriso.

“O que há de engraçado, Moisés?”

“Envergonhamos os nossos ancestrais, que viviam no deserto: estamos aqui a reclamar de uma quentura.”

“Pode ser, mas não esqueça que se estamos aqui, há grande possibilidade de nossos ancestrais terem partido no exilio babilônico, e terem ficado por vontade própria no mesmo.”

“Não muda nada, Benito, acaba por ser a mesma coisa, meu amigo.”

“Muda muita coisa.”

“Por exemplo?”

“Um judeu deve enxergar a presença de Deus em tudo.”

“Enxergar Deus em todas as coisas…” pôs-se pensativo, “Tens razão amigo, mas se ficares por aí falando que sois judeu, logo a Inquisição te acha.”

“Não fale nem por inocência, amigo, já tive noites horríveis.”

“E não penses que terá noites melhores por aqui.”

“Por que dizes isso?”

“Vallen. É um mistério. Ninguém o conhece, mas meu bisavô parece ter conhecido algum ancestral.”

Simeão não deu muita atenção às últimas palavras de Moisés. E concluiu o seu jantar.

02 de novembro de 1646

Ao amanhecer, Benito se despede do seu amigo Coelho, que lhe deseja boa sorte e acena enquanto a carruagem conduzida pelo jovem João Maria segue em direção ao Norte. A viagem transcorre tranquila, na medida das condições de tranquilidade referentes à colônia, pois a paisagem marcou o casal, em especial a esposa de Benito, a farmacêutica Adele.

Na medida em que a noite avança e joga seu manto negro sobre a carruagem, o casal Simeão indaga o cocheiro sobre a hospedagem nessa noite, que responde com um aceno de cabeça em direção a uma luz à frente, que nesse momento parecia pequenina e a cerca de 200 metros, mas que ainda era vista devido à escuridão total que os envolvia, pois era uma noite sem lua.

Chegando a modesta casa, o casal é recebido por Iara, uma senhora que mantém o modesto casebre como repouso dos viajantes.

“Boa noite, sejam bem-vindos.”

“Boa noite!” respondem os Simeão.

“Venham, vou mostrar onde vocês irão ficar esta noite. Podem vir, não tenham medo.”

Benito segura a mão de sua esposa e hesita ir por alguns segundos. Adele, por duas vezes, tenta seguir a senhora, mas o seu esposo a impede. O cocheiro faz sinal para que entrem na casa.

“Senhor, não há outro local. Temos que ficar aqui. Não me olhe assim, não vou guiar a carruagem à noite.”

João parte para acomodar os cavalos na cocheira improvisada que se encontra na lateral da propriedade, onde há uma vaca desnutrida, que mal consegue ficar em pé. É um ano de seca muito forte e aqueles que não têm recursos estão sucumbindo às intempéries do clima.

Benito e Adele estão acomodados em um pequeno quarto que não dispõe de cama, mas um tapete grosso e pouco confortável. O homem se aborreceu com acomodação, mas logo foi acalmado pela esposa: “Já dormimos em locais piores, meu esposo”.

“Mas em nenhum desses locais eu precisei pagar.”

“Mas em nenhum dos que você não precisou pagar, nós vamos dormir em p—”

A última palavra é roubada da boca de Adele quando um uivo é ouvido próximo e a porta é arrombada pelo cocheiro em estado de choque, no mesmo momento que um grito ensurdecedor e agonizante ecoa por toda a casa. Benito se põe de pé e vai até o homem. Dona Iara está de pé, aos prantos. João Maria tenta falar, soluçando de medo: “Ela me mordeu, tinha algo lá, mas ela me rasgou… Ela me rasgou…”  não parava de repetir.

“Quem te rasgou, homem de deus?” perguntou Benito.

“Ela me rasgou, ela me rasgou, como um bicho que come carne.”

“Quem? Quem fez isso?”

“A vaca, a vaca magra!”

“Hã? E o grito?” indagou Benito.

“Tinha outro bicho lá, foi ele que mexeu na vaca. Esse bicho gritou e saiu voando.”

“Ele tá ferido, veja o braço dele!” disse Iara.

“Adele, cuide desse homem.”

Benito, assustado com toda a situação, reuniu o pouco de força e coragem que restava, pegou algo em sua mala e saiu. Dona Iara o acompanhou, mas a alguns passos atrás, pois estava com tanto medo, que era possível escutar o bater de seus dentes.

Na cocheira, ambos viram a vaca debruçada como se a beber algo. Ao tentar iluminar o local, a luz revela a vaca desnutrida, com os olhos avermelhados na escuridão e a beber do chão, onde o sangue do cocheiro havia caído.

Adele ouviu o estrondo de um tiro no lado de fora da casa e alguns segundos depois, quando Benito e Iara retornam, o terror é perceptível nos olhos da senhora. Benito parece estar mais tranquilo, com a arma ainda fumegante em punho. Ele havia matado a vaca.

Ninguém mais falou nessa noite, nada mais se ouviu e ninguém dormiu. As primeiras palavras foram ditas apenas ao amanhecer.

03 de novembro de 1646

Benito desperta e abre os olhos ao som da voz de Dona Iara: “Bom dia seu Benito, venha comer algo.”

“Sim Dona Iara, pretendo tomar um café. Aquilo a noite passada foi de certa forma, muito assustador. Quero partir o mais rápido possível.”

“Me perdoe a perturbação, isso não é normal.”

“Isso não é Deus, a senhora quer dizer.”

“Mas não foi culpa minha, e ainda ficarei no prejuízo.”

“Sobre a sua vaca, deixarei dinheiro para que compre outra; pois é justo, já que eu a matei.”

“E a porta?”

“Deixarei algo para o conserto.”

“Fico muito agradecida.”

Enquanto Benito terminava o seu desjejum, pediu para que Dona Iara levasse o café de Adele. Após alguns minutos, a sua companheira aparece pronta para a viagem, no mesmo instante em que os cavalos são ouvidos. Ambos se despendem da senhora e lhe desejam boa sorte. Sobem na carruagem e partem em direção a Nova Amsterdã.

Durante quase todo o dia, os viajantes dormiram, mas Benito dormiu bem mais, acordando já no cair da noite, com a carruagem parada em um engenho abandonado. Ele olhou em volta e sentiu náuseas. A paisagem estava diferente. Desceu da carruagem e à medida que andava, as náuseas aumentavam. Olhou para o céu. Estava límpido, mas as estrelas estavam borradas, tudo estava distorcido. Ouviu o som de chicotes e foi mais à frente, onde viu um negro sendo açoitado por uma criatura que com certeza não era deste mundo. Hesitou em chegar perto, mas não foi notado.

Virou-se para retornar a carruagem e ouviu o sibilar de uma cobra. Olhando na direção do som, viu dois olhos vermelhos na escuridão. Sentiu um calafrio e correu para a carruagem — e acordou. Foi o sonho mais real que teve em toda a sua vida. Estava com febre e ficou sob os cuidados de Adele. Adormeceu novamente, mas não mais foi perturbado por pesadelos.

Em Nova Amsterdã

Ao cair da noite, Valgram entrou na casa do Barão e encontrou a taça da noite passada, cheia do precioso líquido. Não pensou duas vezes e tomou tudo novamente, bebeu por ganância. Limpou a boca e saboreou. E como estava doce.

Leia o cap. 1

Leia o cap. 2

Leia o cap. 3

 

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