Crônicas de Nova Amsterdã: Capítulo III

Cidade_mauricia

Capítulo III — Anton Valgram

Valgram é um homem alto e de porte atlético, nascido em Bucareste e aparentando cerca de trinta e dois anos de idade. É conhecido mais pelos seus atos do que a capacidade de dialogar, o que faz dele um homem rígido e severo. Com as peregrinações de sua tribo, conheceu várias cidades da Europa, especialmente sua porção Oriental: Istambul, Ankara, Budapeste, Viena, Florença, Gênova, Genebra, Paris, Bruxelas e Amsterdã.

Foi criado por sua avó Hanucá após a fuga de seus pais, quando ainda tinha cinco anos. Apesar de nunca ter entendido o motivo da partida deles, sempre quis provar seu valor para com todos da tribo, demonstrando grande interesse e domínio com as lutas tradicionais e sendo reconhecido principalmente pela habilidade com as armas e esportes físicos — que também era um talento inato do pai. Suas ambições sempre estiveram voltadas ao seu reconhecimento dentro da tribo, pois Valgram é um defensor fervoroso das tradições e deseja acima de tudo, provar que é um homem valoroso e honrado.

Quando muito jovem, nutriu afeto e um grande amor por Samira, a qual cortejou desde a adolescência, sendo sempre rejeitado. A velha Célia Cruz, amiga de sua vó, é uma aliada fiel ao cigano, pois sempre o auxiliou em momentos difíceis, independente de seus ideais. O jovem Hector, um admirador de Valgram, enxerga no cigano um pai e um líder valoroso.

Um episódio em sua infância o marcou profundamente — quando atravessava uma floresta na pequena cidade de Arad, na borda ocidental da Romênia, na companhia de outro grupo de ciganos oriundos da Ásia e que haviam cruzado com sua caravana, perdeu-se junto com outra criança, uma garotinha. Era noite de lua cheia e havia acabado de conhecê-la. Sentiu uma curiosidade e uma profunda atração pela pequena Liane. Ambos se distraíram enquanto brincavam nas proximidades da floresta e quando perceberam estavam perdidos, sendo então perseguidos por seres que pareciam enormes lobos, ferozes e de pelagem negra. Foi encontrado aos farrapos quase dois dias depois, dormindo muito próximo de onde brincavam. Quando acordou apenas na manhã do outro dia, não se lembrava de nada do que havia se passado naquela noite, nem mesmo de ter conhecido a pequena Liane, que insistia em dizer que tinha salvado o pequeno Anton.

Seus pais também haviam partido às presas e foi quando ficou sabendo que desde então estaria aos cuidados de sua avó. Passou a ter flashes de memórias espaças e pesadelos sobre o acontecido. Por vezes, sonhava estar perdido nas sombras, ouvir a voz de seus pais chamando por ele, gritando e tateando na escuridão sem nunca conseguir encontra-los. Outras vezes sonhava com uivos e com uma voz de outra criança, por vezes falando em uma língua incompreensível e por outras, acalmando-o.

Aos poucos a frequência desses flashes e pesadelos foi diminuindo gradativamente, ao ponto de nunca mais pensar sobre seus pesadelos da infância.

2 de novembro de 1646

Eram as primeiras horas do dia e Valgram organizava o desembarque dos pertences do Barão. Aos poucos, toda a parafernália foi colocada nas carroças e começaram a subir a cidade alta em busca do casarão construído para abrigar o novo morador. Durante o caminho, foi acompanhado pelo menino Quinho e o vendedor de cocos Pedroca. Nas proximidades do casarão, o cigano observou um homem a espreitar a movimentação por trás de uma porta em uma pequena casa.

A chegada ao ponto final e o descarregar dos pertences de Vallen, tudo foi supervisionado pelos olhos atentos de Valgram e só uma coisa fugiu a sua atenção — onde estava a sua avó. Seguiu com passos firmes por entre os ciganos, descalço e como se a sentir a terra em que agora habitaria e ao se aproximar da casa, viu a sua porta entreaberta. Algo raro, que nunca acontecera. E mesmo assim decidiu entrar.

O silêncio era mortal lá dentro, parecia que toda a agitação da chegada à nova terra não penetrava naquele local. Sentiu um medo profundo pela segunda vez na sua vida e essa sensação reviveu memórias antigas, que há muito achou estarem perdidas. Estava em uma espécie de transe, que foi quebrado por uma voz:

“Valgram?”

“Baba!” respondeu assustado.

“Venha, sente-se à mesa.”

Valgram, com medo, seguiu em direção à mesa, que estava posta. Não havia uma só vela a iluminar a sala e a pouca luz que ousava entrar por entre as cortinas era da lua atrevida. A velha se pôs ao lado do neto e com a mão em seus ombros.

“É um fardo demasiado para mim, meu neto.”

“Que fardo, Baba?”

“A tribo, a casa, tudo!”

“Mas a senhora faz tudo tão bem. Tenho orgulho de seu comando.” Ele foi sincero, mas viu a oportunidade, seu orgulho cresceu mais do que o amor que sentia pela a avó. E achou que essa era a sua hora. Mas logo uma presença, apenas sentida na sala, o fez recuar de suas intenções.

“Eu sei, meu filho, eu sei. Mas agora preciso que você faça isso. Mas não tenho muito tempo para te ensinar” disse, acariciando os cabelos do neto.

“Eu estou pronto, Baba!” falou com pouca segurança, intimidado pela figura invisível no outro lado da mesa e envolta na escuridão.

“Pois bem. Terás que provar da tua boa vontade com a tua tribo e o teu senhor” e enquanto falava isto, derramava algo similar a vinho em uma taça de ouro ornamentada com pedras. “Beba! Isso te tornará um líder legítimo da tua tribo”.

“Que gosto único e maravilhoso” disse o cigano após beber tudo sem pensar no que seria. “Poderia beber mais, para me tornar ainda mais legitimo?”

“Beberás por mais duas noites, e até lá paciência, pois não serás líder até beber por três noites.”

Leia o cap. 1

Leia o cap. 2

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2 comentários sobre “Crônicas de Nova Amsterdã: Capítulo III

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