Crônica de Nova Amsterdã: Capítulo II

Cidade_mauricia

Capítulo II — Padre Santiago

Santiago nasceu em um dia ensolarado, na data de 04 de março de 1611, na capitania de Pernambuco. Na infância sempre se comportou tal como as crianças da sua idade, alegres e travessas — todavia, no seu período etário púbere, foi arrematado por um lamentável acontecimento: a morte da sua amada mãe. Estes dias foram de angústias e constantes lamentos para a pobre alma de Santiago, com apenas 12 anos de idade.

A partir desse episódio lastimável, o garoto decidiu ingressar na vida religiosa para tentar acalentar-se com o sagrado, na tentativa de encontrar um refúgio para aquela incessável dor.

Os anos se passaram e o Santiago continuou na igreja, se fez um homem imponente e respeitado pelos demais, entretanto, estranhamente, o jovem padre não tinha dentro de si o toque “santo”. Havia se acostumado com o seminário, posteriormente com o clero, mas parecia que em seu âmago algo lhe faltava: fé. Não que ele não acreditasse em Deus ou nos santos dogmas da sua Igreja Católica, mas como ele não ingressou nesta vida por vocação — como os demais colegas — ele se via diferente por nunca ter sentido de fato a presença que os seus companheiros tanto ressaltavam: o Divino Espírito Santo.

Em 1629, o jovem e recém-formado padre parte para o Rio Grande a mando da própria instituição que defende e propaga. Ao chegar, logo impõe respeito, embora a sua pouca idade seja notável e inicialmente contestada; entretanto a sua retórica e inigualável facilidade de comunicação facilmente lhe fez ganhar inúmeros seguidores para a casa de Deus.

Um ano após sua chegada em terra potiguar, Santiago já é um nome forte na capitania. Seus ensinamentos são absorvidos como verdades incontestáveis pelos homens do campo e até pelos latifundiários, que sempre lhe procuram antes de tomarem difíceis decisões.

A invasão dos holandeses no Rio Grande ocorreu no final de 1633, apesar do flerte com a capitania ser antigo. Todas as estruturas da região sofreram mudanças, inclusive a Igreja e o Padre Santiago.

Tudo que o jovem religioso construíra havia ficado no passado.

Contudo, ele tenta ainda reerguer a sua força política e religiosa na agora, Nova Amsterdã.

2 de novembro de 1646

O padre parte em direção à fazenda de Inácio Cortês, após receber o convite para uma conversa — que aparentava ser urgente — por intermédio de José Mauricio. Santiago dispensa o cavalo oferecido pelo mensageiro, pois desejava caminhar e pensar nos acontecimentos da noite anterior. E em muitos momentos se questionava sobre o que tinha feito nos últimos 13 anos e até em toda a sua vida.

Imerso em seus pensamentos, quando se deu conta estava em frente à porteira da fazenda de Cortês, onde observava uma aglomeração de escravos e o proprietário, reunidos ao redor de um boi morto.

“Que tanta aglomeração pode causar um boi morto senhores?”

Os presentes, que não tinham notado a repentina chegada do padre, viraram-se assustados, como se esperassem o pior. Mas no susto o respondem: “Sua benção, seu padre?”

“Deus os guarde em seu coração.”

“Olhe você mesmo, padre!” Disse Inácio.

Santiago se aproximou e o que viu foi um animal dilacerado na altura do pescoço e sem nenhum sangue em seu corpo. Inácio fita os olhos do padre: “Onde é que esses selvagens vão parar com seus rituais para os seus demônios?”

“O que é isso, Inácio? Sabes melhor que ninguém que não é obra dos nativos! Deixe da sua loucura em prol desta guerra que tanto desejas!”

“Desejando ou não, padre, irei falar com o tal Barão. Ele há de dar um jeito nesses índios folgados.”

O padre faz um sinal para os escravos se livrarem do animal morto e conduz o fazendeiro à casa grande.

“Você precisa ter cautela, Inácio, essa reunião de hoje é muito importante. Johannes, Bock e o Pastor Jacob estarão presentes e terás uma forte oposição. Acho que antes, deveria conversar com os nossos.”

“Preciso muito de seus conselhos, padre!”

Leia o cap. 1

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3 comentários sobre “Crônica de Nova Amsterdã: Capítulo II

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