Crônica de Nova Amsterdã: Capítulo I

Em meus pensamentos sobre RPG e meu trabalho, sempre me pego pensando na minha formação como cidadão. Nesses pensamentos, volto ao tempo de escola e me recordo o como é mínimo o estudo de história do RN, especialmente no meu tempo, na década de 1990. Hoje em dia tivemos muitos avanços, mas precisamos melhorar ainda mais.

O ingresso em História e suas teorias e áreas afins me fez despertar para a história local. E por que não narrar crônicas evidenciando a história do RN? Nessa ideia, em 2012, comecei uma campanha de Vampiro que se passava no período da dominação holandesa no RN. Não tentando repetir a história fielmente e nem modificá-la por completo, mas sim trabalhar atores indiretos — fictícios, claro — desse recorte histórico.

Três anos depois, eu decido revisitar a crônica de Nova Amsterdã e dar sequência a esse projeto, mas na ideia de continuidade, com novos atores, seguindo o rumo de um barco em andamento.

Cidade_mauricia

Capítulo I – Barcos ao horizonte

1º de novembro de 1646

Por volta das duas horas da tarde, Francisco correu em direção à igreja de Nossa Senhora da Apresentação — menino de rua que vivia aos arredores da igreja e que era alimentado e recebia cobertas todas as noites do padre Santiago, que também cuidava do garoto, mandando-lhe tomar banho e cuidar dos seus bichos de pé; apesar de o menino viver fugindo da hora do banho.

Quinho, como gostava de ser chamado, ainda não tinha almoçado — o que deixava o padre muito preocupado, pois o mesmo já era raquítico e apresentava um grau acentuado de desnutrição. A cidade de Nova Amsterdã — como os holandeses passaram a chamar e que mais parecia uma vila, com no máximo quarenta casas — não dispunha de um médico. Apenas quando havia necessidade de algum fidalgo local, era enviado um médico da capitania de Pernambuco, a cada dois meses.

Ao se aproximar dos arredores da igreja, Quinho já vai gritando “Padre Santiagooo!” A igreja tinha passado a ser local de culto dos protestantes e ao padre foi dado o direito de ficar na vila, caso desejasse sanar as necessidades espirituais dos católicos locais. Santiago era um homem bom, temente a deus e ciente de suas responsabilidades com seus fiéis.

“Aí está você, Quinho, não acha que já passou da hora de tomar um banho e ir almoçar?”

“Depois, padre; veja isso, olhe o mar!”

A igreja desfrutava de uma localização privilegiada na vila e ao levantar a visão, Santiago contempla o mar e observa uma esquadra com treze navios se aproximado do castelo Keulen — que outrora fora chamado de Forte dos Reis Magos. Vivendo nos arredores da igreja, rapidamente vai até sua casa para procurar algo entre os seus pertences, que encontra após alguns segundos de busca. Ao retornar, descobre não apenas o menino Quinho, mas várias pessoas que se reuniam para saber o que era tamanha esquadra a se aproximar da vila. Santiago tinha nas mãos uma luneta — coisa rara na época e que poucos dispunham, a não ser que fossem homens do mar.

Rapidamente ele a abriu, mirou com o olho e apontou o instrumento para o mar. Quinho, ao seu lado, mal segurava sua curiosidade para dar uma espiada. Um homem próximo aos dois, conhecido como Pedroca, não parecendo ter mais que um metro e sessenta de altura, com a barba por fazer e sem camisa, perguntou ao padre o que eram os navios, enquanto repousava os cocos que carregava.

“São navios da Companhia das Índias Ocidentais,” respondeu Santiago. “Não há motivos para se preocupar.”

“E não há mesmo,” respondeu Pedroca, “pois irei às proximidades do cais” — bem humilde na época, mais parecendo um malocado de canoas — “para vender os meus cocos. Com tantos navios chegando, a tripulação deve ter sede.”

“E eu irei junto com o senhor!” Logo se adiantou Quinho, que saiu correndo antes que o padre pudesse falar algo.

Apesar dos holandeses serem de um país de maioria protestante, não impuseram empecilhos às práticas religiosas da população ao chegarem no Rio Grande — tanto os católicos, como os indígenas eram livres para realizar seus rituais, desde que a ocupação e convivência com os batavos fosse pacifica. E isso muito privilegiou os índios, que passaram a viver mais tranquilos, embora não estivessem livres de todos os problemas; o avanço das fazendas no sertão e a criação de gado fizeram desaparecer os espaços de caça e os índios passaram a caçar os bois das fazendas. Mesmo isso não chegou a tornar-se um problema, sendo resolvida a situação de forma amigável.

De início, os católicos, gostaram da ocupação holandesa, mas logo deixaram de apoia-la, devido à liberdade e os acordos feitos entre os batavos e os indígenas. Não existiam restrições às atividades do padre, desde que o mesmo não se metesse em assuntos da capitania; coisa difícil, pois o bispo responsável pela diocese raramente estava presente ou se comunicava com o padre. As poucas correspondências trocadas eram sobre o comportamento dos batavos. Os holandeses com os protestantes e indígenas, os portugueses com os católicos, ainda assim haviam informantes, o que eventualmente começou a irritar os batavos — que logo trataram de enviar um governante com mão de ferro para resolver os problemas da capitania.

Enquanto algumas pessoas se encaminhavam para as proximidades do cais, Santiago continuou a olhar os navios e notou algo que não vira antes. Que navio era aquele destoando dos demais, todo em madeira negra, sequer parecendo vir do mesmo estaleiro? “É muito diferente dos demais, será o navio do Barão?” Santiago ficara sabendo da chegada do Barão por intermédio do bispo, em sua última correspondência. Sentiu calafrios ao contemplar o navio, que ele julgava ser do tal Barão Van der Valen.

Algumas horas depois, quando se aproximava do pôr do sol, Inácio visitou o padre para ter notícias. Era fazendeiro e líder dos católicos portugueses. Santiago mostrou-lhe a esquadra que se aproximava e o barco que destacava-se dos demais.

“Mas o que é isso,” perguntou o fazendeiro.

“Provavelmente deve ser a chegada do tal Barão que seria mandado para governar a capitania.”

“Mas são necessários tantos barcos, padre?”

“Não sei, talvez seja por acaso; eles podem estar indo para outro local.”

“Não sei quais são as intenções desses batavos com esse governador vindo da Europa, mas que essa política de aliança com os índios deve ser revista, eles são bárbaros desculturados e sem religião, que andam nus, não trabalham e comem apenas do que a natureza dar.”

“Eles têm a sua forma de organização social, Inácio, que devemos respeitar. Apesar de não cultuarem o nosso deus, eles também são filhos dEle.”

“É por isso que a capitania não é respeitada! Nem o nosso padre tem poder com o povo, fica compartilhando da ideia batava de proteger os indígenas.”

“Não podemos reclamar dos holandeses, meu nobre fazendeiro, eles nos permitiram manter as nossas tradições e fazem a manutenção da paz na capitania — ou vai me dizer que os seus negócios não andam bem?”

“Meus negócios andam muito bem, mas mesmo assim tenho tido alguns prejuízos.”

“Não há do que reclamar.”

“Me escute bem, padre; quando esse Barão descer, eu mesmo vou conversar com ele sobre esses índios que se acham dono das terras! E se ele não der jeito, o diabo irá dar!”

“Cuidado com os seus desejos, Inácio; eles podem se realizar mais cedo do que você imagina.” As últimas palavras do padre saíram instintivamente, ele mesmo se assustou com o que disse, colocando a mão na boca como se segurasse mais palavras.

Inácio o olhou no momento das palavras proferidas, colocou o seu chapéu, despediu-se com um “Passar bem padre!” e regressou a passos rápidos regressou à sua fazenda, nas regiões as margens do rio — onde muito depois seriam as proximidades do bairro do Alecrim. Em seu caminho de volta pensava alto, “tenho que convencer esse Barão que a política de boa vizinhança com os indígenas só nos traz prejuízos; mas como farei isso? Espero que ele ainda não esteja totalmente a par da situação dos termos batavos com os índios… Tenho que ser rápido e convocar uma reunião com os fazendeiros, e aí sim, falar com o Barão!”

Caía o crepúsculo. O padre continuava no mesmo local, vislumbrando a esquadra que se aproxima sem nenhuma noção de tempo, sequer sabe que há horas está sentado, paralisado; como se aquele barco exercesse algum poder sobre o seu corpo. Apenas ao cair da noite, sem ver regressarem Quinho e Pedroca, que ele se levantou e deu início às suas visitas noturnas. Andando em direção ao centro da vila, ele se deu conta para quem seria o casarão construído às pressas pelos batavos e parou em frente ao mesmo, ainda encoberto na escuridão, pois ainda não tinha moradores.

Mas não seria a última vez que o padre Santiago estaria neste local, e nem a última que ele estaria escuro.

Já era por volta das vinte e três horas quando os barcos chegaram ao tímido cais. Pedroca e Quinho estavam desde o início da tarde esperando por essa ocasião, ambos próximos ao atraente barco negro, que o padre dissera supostamente pertencer ao Barão. Logo a música soou alta e forte, em uma língua incompreensível para os dois nativos da terra do Rio Grande. E com a música, homens e mulheres de roupas coloridas em tons pastéis, sem o mínimo arranjo de combinação, começaram a saltar do barco e a trabalhar incessantemente, como se tivessem passado toda a viagem dormindo.

“Gosta de trabalhar, garoto?” perguntou um dos primeiros homens a pular do barco.

“Dependendo de quanto vai me pagar, posso até gostar,” respondeu Quinho.

“Mas veja, tem um menino muito esperto aqui; mas não venha ser mais esperto do que eu, menino!” Pedroca já era um pouco mais vivido, e com um rápido esforço na memória, ele chegou à conclusão correta sobre tal homem.

“Ele é um cigano, Quinho,” murmurou para o menino, “e ciganos não são confiáveis.” O cigano se chamava Anton Valgram. Já iam se afastando lentamente quando o cigano falou: “ei! Para onde vão? Abra os cocos rapaz, estamos com sede e pagaremos em ouro!” Mas foi com receio que Pedroca abriu os cocos e serviu estes homens, temendo não ser pago pelo seu esforço. Os ciganos se deliciaram com os cocos e logo em seguida pagaram uma moeda de ouro a Pedroca, que nunca tivera visto ou tido tanto dinheiro. Esses homens trabalhavam rápido e logo após beberem dos cocos, começaram a trabalhar no transporte dos pertences do Barão.
As carroças com a mudança do Barão já estavam prontas. Eram por volta das três horas da madrugada e mesmo sendo Nova Amsterdã uma vila pacata de cidadãos quase todos religiosos e tementes a Deus, os ciganos subiram a colina que dava para o centro da cidade cantando em voz alta, o que acordou muitos moradores.

Durante o caminho, Pedroca perguntou a Quinho, “será que o tal Barão veio? Nós não vimos ele.”

“Ele veio sim, seu Pedroca, ele veio.”

“E como você sabe, garoto?”

“Porque ele falou comigo.”

“Como, se você não saiu do meu lado, e eu não vi você conversar com ele?”

E apontando para a sua cabeça, o menino olhou para o vendedor de cocos e disse “ele falou aqui; aqui ó!”

2 de novembro de 1646

Era uma noite quente na capitania do Rio Grande. Santiago agora morava com uma beata de nome Maria de Fátima, que o acolheu após ser expulso da igreja — a mesma se tornando domínio do Pastor Jacob. Um homem rústico que tratava Santiago e os católicos do vilarejo com desdém. Eram aproximadamente três horas da madrugada quando o vilarejo foi acordado com a cantoria dos ciganos que subiam a colina com as suas carroças enfeitadas, trazendo os pertences do Barão Van der Vallen. Santiago correu para a porta, abrindo a sua parte superior sem se preocupar com o que veria e o que aconteceria. Logo avista dois conhecidos.

“Quinho, Pedroca!” disse Santiago, achando que sussurrava, mas no silêncio da madrugada era quase um grito. “Venham aqui, por que a demora?”

“Padre, padre, o Pedroca vendeu todos os cocos aos ciganos! Não é isso Pedroca, não são ciganos?”

“Sim, são ciganos, moleque!” respondeu Pedroca. “Padre, eles pagaram com moeda de ouro!”

“Ora que bobagem, seu Pedroca, a prata já é custosa de se ver, imagine se os ciganos esbanjariam ouro!”

Nesse momento, o pobre vendedor de cocos abriu a mão e mesmo na fraca luz da madrugada, a solitária moeda brilhou. Santiago se limitou apenas a olhar seu emblema, guardando na memória para uma investigação posterior. Ele coloca Quinho para dentro de casa enquanto alguns populares despertavam para observar a movimentação dos ciganos.

“Tenha uma boa noite, seu Pedroca!”

“Uma boa noite para o senhor também padre!” disse o radiante vendedor de cocos que já tinha planos para a sua moeda de ouro. Ao fechar a porta, Santiago observa um animal sobrevoar a vila em direção ao rio. Era um pouco anormal seu tamanho para as espécies da fauna local — que era do conhecimento do padre — mas na hora não deu muita atenção, devido aos fatos ocorridos durante o longo dia.

Ao amanhecer, Santiago acorda de seu cochilo momentâneo e descobre por intermédio de Dona Fátima que o menino já havia partido. “Ele se levantou, lavou o rosto e partiu, Padre, só falava nos ciganos e que queria ganhar uma moeda de ouro como a do Pedroca!”

“Meu Deus, Dona Fátima, esse menino junto com aqueles ciganos, não sei o que fazer!”

“Padre, é verdade que os ciganos deram uma moeda de ouro para o Pedroca?” Santiago confirmou com um aceno de cabeça. “Uma vez me disseram que os ciganos são enviados do demônio para fazer serviços em seu nome, é verdade?”

“Não, não, não senhora; somos todos filhos de Deus e devemos nos respeitar, não há nada de demônio aqui, isso eu não permitirei!” Santiago tentava esconder também um pouco de seu preconceito, mas estas palavras deram-lhe um calafrio, apesar do calor e o verão que se avizinha. Após um rápido desjejum, Santiago partiu sem falar mais nada, à procura de José Maurício, um homem forte, ex-soldado da coroa portuguesa e que agora era responsável pela pequena força de proteção civil da capitania — o outro grande poder militar estava no Castelo Keulen, sob o domínio direto holandês e que constantemente recebia embarcações da Companhia das Índias Ocidentais.

Maurício tinha no máximo quinze homens ao seu dispor, espalhados pela capitania do Rio Grande, sendo que as suas forças se concentravam em resolver os problemas dos fazendeiros e não dos trabalhadores, o que tornava uma figura não muito benquista pela população, especialmente os indígenas. Santiago o encontra sentado sob a sombra de um cajueiro nas proximidades da igreja, de onde tinha uma boa visão do casarão recém-construído para o Barão e de toda a atividade dos ciganos.

“Bom dia, senhor José Maurício!” Quase hipnotizado pela observação dos ciganos, Maurício volta-se para Santiago, e após reconhecê-lo, se inclina e segura sua mão, que relutantemente a cede para ser beijada.

“Sua benção, padre?”

“Deus te abençoe, homem.”

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4 comentários sobre “Crônica de Nova Amsterdã: Capítulo I

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