Pais e Filhos na Masmorra – Aventura 1

RPGQuest - Capa

Livro de regras de RPGQuest

Depois de algum planejamento e de fazer os deveres de casa, arrumei um tempinho para sentar com Thales (meu garotão de sete anos) e voltarmos a jogar RPGQuest, o primeiro RPG que ele jogou e que graficamente, é a coisa mais fácil que tenho para introduzir alguém ao RPG, principalmente um alguém tão jovem.

RPGQuest conta com miniaturas de papel bonitas e coloridas (juntando-se aos meus suportes de miniaturas de 25mm, da SJGames), além de terrenos idem, com vários tipos de elementos extras, como marcadores para terreno de tesouros, alavancas, portas, armadilhas, chaves — e inúmeros monstros e inimigos, indo de goblins a trolls, incluindo uma quantidade generosa de orcs, esqueletos, zumbis e muitas outras criaturas.

Pense nele como uma versão mais simples (e barata!) do clássico HeroQuest. Faço qualquer coisa para tirar o garoto do vício de videogame, e nada como mudar de um vício para o outro, hein?

HeroQuest

Tabuleiro do HeroQuest original, na versão brasileira

Como já faziam algum meses desde que tínhamos jogado pela última vez, repassamos as regras; rola-se dois dados de seis lados (“sim, isso quer dizer 2d6, quando eu falo d6, quero dizer um dado desses, de seis lados”), mais o modificador do dado, ou o bônus da arma, se for um ataque. E aí você tem que tirar um número maior que a defesa do inimigo. Se for tentar qualquer coisa que não seja um ataque, some os dados com o bônus da habilidade ou o bônus de um dos atributos, se não tiver a habilidade.

“Certo?”

“Vamos logo jogar!”

Certo, vamos lá. Como era um jogo de introdução, ele escolheu dois personagens prontos (achei mais seguro, já que da última vez, ele ficou bem chateado quando seu personagem quase morreu ao tentar táticas comuns de videogame contra uma horda de orcs — especificamente, bater até ganhar), um guerreiro bárbaro e uma paladina. Eu fiquei com um feiticeiro (além de controlar as criaturas opositoras — eu seria um DM, mas no estilo Caverna do Dragão). A missão era simples: ajudar uma cidade a se livrar das invasões de ratos gigantes que atacavam seus suprimentos de comida e até mesmo as pessoas. Seguimos suas pistas até uma caverna, que logo se revelou em um conjunto de salas, onde vários ratos gigantes e — pasmem — homens-ratos nos aguardavam.

O bárbaro rapidamente deu cabo da maioria deles, com o apoio da paladina, graças à sua excelente defesa (e seu escudo) e às rápidas intervenções do mago (com um Jato de Fogo e Terreno Escorregadio aqui e acolá). No final do primeiro nível da dungeon, descobrimos que um dos homens-rato era uma espécie de feiticeiro maligno, criando e controlando ratos gigantes, além de tentar acabar com a gente a todo custo. Mas rapidinho o trio de aventureiros deu cabo dele e ficamos olhando para a escada que levavam a um nível inferior, protegido por inscrições mágicas. Paramos aí, lambendo as feridas e contando o tesouro conseguido (entre os quais uma chave verde, que o manteve intrigado desde então, “mas o que ela abre, papai?”).

Como era hora de dormir, Thales foi para a cama (não sem protestos e após conseguir a promessa de continuarmos a aventura no dia seguinte). Após o almoço do dia seguinte, um sábado, montei a segunda parte da dungeon, onde nos aguardavam zumbis e esqueletos em quantidade — aparentemente, alguém na dungeon não teve pena na hora de criar servos mortos-vivos. Os zumbis não foram problema, mas os esqueletos, armados e tomando apenas metade do dano, foram uma fonte de frustração constante para Thales — até que ele notou que meu mago, guardando seus feitiços para inimigos mais poderosos, se saía bem no ataques com seu cajado.

“Ei, papai, por que é que o Teodore faz mais dano que o Klunk, que tem uma espada montante?”

“Bom, os esqueletos são só osso; armas que cortam não fazem muito efeito, é mais fácil quebrar ossos do que cortá-los.”

“Ahhh…”

E rapidamente, seu guerreiro bárbaro embainhou a espada para desferir socos potentes contra os esqueletos, enquanto a paladina atacava com o escudo (e eu bolei uma regra para realizar ataques com o escudo na hora), e os esqueletos começaram a cair rapidinho. Quando eu achei que ele tinha esquecido para que serviam as habilidades, ele me surpreende no momento em que precisa saltar o fosso de uma armadilha no chão.

RPGQuest

Todas as peças do RPGQuest

“Thales, faça um teste de Acrobacia ou Agilidade, se não tiver Acrobacia, para saltar por cima do fosso.”

“…eu não tenho Acrobacia.”

“Certo, então faça um teste de Agilidade.”

“Eu tenho Armadilha, posso usar? Eu estou tentando pular uma armadilha…”

Caramba, tem razão! Não é a perícia certa — a perícia armadilha serve para armar e desarmar armadilhas, não para pular por cima delas —, mas o garoto teve uma presença de espírito imediata para contornar o problema, e eu não podia deixar isso passar em branco.

“Tá bom, mas como não é a perícia para pular, ele usa ela com um nível a menos. Role os dados.”

E ele conseguiu. Pense em um menino que ficou feliz! Não fosse o bastante, ele ficou para ajudar os outros dois personagens a passarem da armadilha. “Eu fico segurando para ninguém cair no buraco!” Eu seguro as lágrimas de orgulho, não é um bom momento para chorar, além do mais iria estragar o clima e o terreno de papel da dungeon. Mas é difícil esconder o sorriso, e eu nem tento.

Acionamos uma alavanca, da mesma cor da chave que encontramos no primeiro nível (“viu, papai, é verde também!” — e eu já tinha esquecido da bendita chave, que não era mais mencionada no cenário) mas não abriu nenhuma porta ou passagem onde estávamos. “Talvez esteja quebrada”, ponderou Thales (enquanto eu fazia notas para usá-la futuramente). Mas encontramos um enorme tesouro de moedas de prata (inútil para os homens–rato, que como bons licantropos, não podiam tocá-las — o que tive que explicar para meu filho, ao que ele retrucou com um “quero uma arma de prata!”)

O problema era o fantasma guardando o tesouro. Praticamente imune a armas comuns, meu mago exauriu seus ataques tentando dar cabo da entidade, enquanto o bárbaro e a paladina davam inúmeros e quase inúteis golpes contra o fantasma, tirando um ponto de vida aqui e acolá. Por algum tempo, os dados foram nossos piores inimigos, levando nossos pontos de vida a murcharem como meu salário ante a presença de contas no final do mês. Mas a perseverança do bárbaro e a Cura pelas Mãos da paladina manteve os dois de pé, enquanto meu mago recuperava seus pontos de magia para um último ataque; que levou a criatura aos seus últimos ponto de vida — rapidamente ceifados pelas espadas dos dois guerreiros. Thales mal se aguentava na cadeira, ao ver todo aquele tesouro nas mãos, após quase perder os dois personagens que tinham atravessado três níveis de monstros e mortos-vivos para as garras de um fantasma! Que tipo de monstro idiota era esse? Ele nem era vivo de verdade!

Ah, não importa. Agora ele quer jogar todo dia, e fazer personagens novos, para gastar todo o XP acumulado na sessão e comprar novas armas e poções e armaduras e o que mais tiver na loja da cidade com todo o ouro que juntaram. Ele quer uma ficha de personagem.

E ele vai ter uma. Ah, se vai.