Bulldogs!

Bulldogs! versão FATE

Bulldogs! versão FATE

Alguém já ouviu falar?

Até onde sei, ele era um cenário de ficção científica, originalmente escrito para o sistema D20, mas não posso falar muito mais do que isso. O que posso dizer é que o novo Bulldogs!, relançado pela Galileo Games, com o sistema FATE (se você não sabe o que é FATE, eu tenho uma resenha sobre ele), é simplesmente do cacete! Ou, segundo as palavras da editora:

“Bulldogs! é um jogo de ação espacial ilimitada. É sobre bastardos que vagam de planeta em planeta criando confusão. É sobre a tecnologia de um futuro distante — tecnologia de filmes de ficção científica que provavelmente jamais funcionaria, pelo que sabemos sobre o universo atual; mas quem se importa? Bulldogs! é sobre armas de raios e viagem mais rápida que a luz; sobre pular de planeta em planeta dando de cara com uma vasta variedade de alienígenas esquisitos. É sobre levar tiros, fazer inimigos entre os mais poderosos chefões do crime local e dar no pé na hora certa. É sobre lutas entre espaçonaves e emboscadas de piratas espaciais em vias estelares pouco usadas.”

E eu não vou mentir: a Bulldogs! na versão FATE é isso tudo e muito mais.

O Universo

Capa da versão original de Bulldogs!

Versão D20

Talvez o único ponto fraco de Bulldogs! seja a sua ambientação, repleta de raças alienígenas fugitivas de algum clichê perdido da FC; envolvidas em impérios estelares reminiscentes da época da Guerra Fria. Homens-gato, homens-cobra, homens-ursinho-de-pelúcia-psicótico, homens-lesma, homens-de-três-braços-e-três-pernas, humanos normais, humanos roxos, humanos verdes, robôs… tudo está lá, no seu cantinho. Não que sejam ruins, não é esta a questão, mas é que são… comuns demais. Ou talvez eu esteja exigindo muito de uma ambientação que brinca com os clichês do gênero. De qualquer maneira, até mesmo os clichês são bem explorados no jogo, e até os homens-gato tem suas características que os distinguem das outras caricaturas do gênero.

Talvez a diferença seja na proposta: os jogadores são a escória do universo. Solitários, procurados pela lei ou sindicatos do crime  interestelares (às vezes, ambos), órfãos, amargurados, alcoólatras – pessoas ruins de todo o tipo, e que ainda assim conseguem sobreviver neste universo sem misericórdia. Para a Megacorporação PanGaláctica Transgalaxy, esse é o tipo de gente que eles precisam para tripular seus cargueiros baratos de classe D, transportando coisas que nem Deus deseja saber o que são do ponto A ao ponto B sem passar pelos postos da alfândega, polícia ou emboscadas de piratas. Os personagens podem ser médicos, engenheiros, cozinheiros, ex-fuzileiros, ex-policiais, ou uma mistura esquizofrênica de todas as opções anteriores. Eles podem sofrer de desilusões amorosas, fantasias megalomaníacas, surtos psicóticos ou serem afetados por devaneios messiânicos de heroísmo épico.

Eles só não podem deixar de entregar a carga.

As Regras

fudge-dice

dados FUDGE

Como eu já citei antes, a Galileo Games usou o sistema FATE (versão 3.0, o mesmo usado em RPGs como Espírito do Século, Dresden Files e outros menos conhecidos), mas com algumas pequenas mudanças. A primeira delas é usar os dados de Fudge – que são dados de seis lados, mas que ao invés de números, possuem marcações de + e de -, respectivamente, no lugar de 5/6 e de 1/2. As faces com 3/4 ficam vazias. Claro, dá pra simular com dados comuns de seis lados. E de qualquer maneira, isso não é tão importante – você pode usar a regra atual de FATE, que usa dois dados de 6 lados comuns (subtraindo um do outro) que não vai mudar praticamente nada.

A diferença real é a maneira como são escolhidas as Proezas e um tipo especial de Proeza, a Habilidade de Espécie. Funciona mais ou menos assim: ao escolher a espécie do seu personagem, você percebe uma série de Habilidades da Espécie, que ditam elementos comuns a ela. No caso dos homens-gato, isso significa ter os sentidos aguçados, equilíbrio perfeito, reflexos rápidos, etc. Algumas habilidades são obrigatórias, enquanto outras são opcionais. Além delas, você pode escolher várias outras Proezas – e cada uma delas reduz o valor inicial de seus 10 pontos de Destino. Escolher uma espécie com três Habilidades obrigatórias já reduz automaticamente seus Pontos de Destino para 7. Se quiser, você pode escolher outras, mas fica por conta própria.

Equipamento

Como toda aventura de ficção científica, não poderiam faltar as tranqueiras que os personagens adoram carregar, como armas, blindagens, explosivos, sensores, armas, computadores, trajes de proteção, armas e campos de força pessoais. Eu lembrei de colocar armas? O legal do Bulldogs! é que além de listar as características clássicas de cada arma/equipamento,você pode acrescentar uma melhoria/problema (como Ocultável ou Gatilho Sensível) ou ainda um Aspecto descritivo à arma (tem um custo, claro), que muda a maneira como ela funciona. Sua pistola blaster pesada, por exemplo, poderia ter o Aspecto de Grande e Intimidadora. Ou seja, toda vez que seu personagem enfiasse a arma na cara de algum NPC, poderia lançar mão de seu Aspecto para assustar, intimidar ou coagir seu oponente. Ou apenas fazê-lo borrar as calças.

Comprar coisas também é diferente: você possui uma característica chamada Recursos, que é um medidor abstrato da sua capacidade de adquirir bens. Ela começa com um valor básico, que pode ser aumentado por algumas Habilidades ou Aspectos específicos. Sempre que quiser comprar algo, faça um teste de Recursos, tendo o nível de preço do item desejado como dificuldade. Passou no teste? O item é seu. Se não… bem, ainda é possível negociar, reduzir um Aspecto temporariamente, pedir uma graninha aos amigos, roubar a loja no meio da noite, etc.

Naves

Em Bulldogs!, os jogadores viajam (e às vezes, vivem) a bordo de uma nave especial, um cargueiro espacial Classe D da TransGalaxy. Em conjunto, eles decidem as características da nave e de seu capitão. A nave, por exemplo, pode receber características como blindagem, escudos, motores, sensores, armas, etc. Tudo de maneira bem narrativa e intuitiva.  Ela também recebe (em decisão conjunta do GM e jogadores), três Aspectos: Conceito, Problema e Vantagem. No exemplo do livro, a nave criada tem o nome de Sentinela Sombria, e seus três Aspectos (respectivamente) são Esta Coisa Ainda Voa?Sem Peças OriginaisSurpreendentemente Rápida. Combates espaciais são divertidos e rápidos, mesmo entre naves de grande porte, capazes de detonar planetas inteiros com seu armamento.

Finalmente…

Se você gosta de sistemas narrativos, ficção científica estilo space opera e confusão, Bulldogs! é uma ótima escolha. Você pode não gostar da ambientação, mas isso também não é problema – adaptar as regras ao seu universo de ficção científica favorito é facílimo, e provavelmente, divertido. Talvez o melhor de Bulldogs! seja a versão das regras de FATE criada pela editora. Os exemplos no livro são principalmente de como criar personagens, naves e grupos de uma forma muito genérica e aberta, abrindo portas para todo tipo de escolhas pessoais. Não gosta de ter um capitão? Basta pular esta etapa. Quer um universo tradicional, como Jornada nas Estrelas, Guerra na Estrelas ou Battlestar Galactica? Mãos à massa: colete informações sobre a série, defina Aspectos específicos de grupos, espécies ou culturas e adapte a tecnologia genérica de Bulldogs! ao seu bel-prazer.

É mais ou menos o que eu planejo fazer…