Masmorras & Dia dos Pais

Eu tinha planejado já há alguns dias, desde que encontrei minha cópia de RPG Quest enfiada no meio de alguns módulos perdidos de Shadowrun, uma maneira/momento para botar meu filhão no vício do RPG. Como ele tem só cinco anos de idade e está no comecinho da alfabetização, tendo apenas a mais básica intimidade com duas das quatro operações aritméticas (somar e subtrair), me pareceu que um passo-a-passo pelas masmorras do RPG Quest seria uma excelente maneira de introduzir o garoto em uma prática lúdica familiar – afinal, família que hackeia e slasheia unida, permanece unida! Já que o dia dos pais propriamente dito foi meio corrido (somando-se aí quantidades absurdas de lasanha sendo ingeridas, induzindo-me a um coma gastronômico), não foi possível preparar tudo (que já tinha me tomado quase um dia inteiro só de recortes e dobraduras), então acabei postergando o evento para a segunda-feira. Após Thales chegar da escola, jantar e fazer o dever de casa, sentamos na mesa da cozinha para nossa primeira sessão de RPG.

Eu: "onde diabos está aquela miniatura de hobgoblin?" Ele: "Esse cara é forte mesmo!"

Eu: “onde danado está aquela miniatura de hobgoblin?” Ele: “esse cara é forte mesmo!”

E não é que deu certo?

De início, foi muita coisa pra Thales absorver de uma vez só: dados, fichas, miniaturas, plantas baixas, monstros, armadilhas, magia… comecei com o mais básico e pedi para ele escolher um dos personagens pré-definidos que o jogo dispunha. Entre magos, ladinos, guerreiros, clérigos e paladinos, ele passou os olhos sobre a ficha e não titubeou: “quero esse!”

Descendo a masmorra: Bárbaro e Guerreiro

Descendo a masmorra: Bárbaro e Guerreiro

Claro que tinha que ser um bárbaro, com os maiores bíceps e espada entre todas as opções possíveis – já deixando a mãe orgulhosa! Pra variar, eu escolhi um mago, de forma a suprir qualquer necessidade que aparecesse de apoio místico. Rolei as magias (a sorte me permitiu levar Raio e Mãos Flamejantes, que se mostraram bem importantes mais adiante) e estávamos prontos para a primeira sala da masmorra. Expliquei que era um pouco como um dos videogames aos quais ele já está acostumado, onde o personagem “anda” alguns “quadrados” por vez antes de poder fazer alguma coisa, e que diferente das brincadeiras com seus bonecos, não bastava enconstar sua miniatura na do monstro e dizer “Tome isso! Argh! Você já era!” Haviam regras, era necessário seguí-las, mas que até isso seria divertido. Ele franziu a testa, mas assentiu. A ficha do bárbaro parecia ser incentivo o suficiente para qualquer coisa.

Primeiros Passos: "isso aí é a ficha do personagem"

Primeiros Passos: “…e com esse número, você METE O AÇO nos monstros!”

Expliquei poucas coisas; a maior parte a gente iria aprendendo ao longo da aventura. Mas fiz questão de lembrar que pra saber se o que ele iria fazer (“vamos bater nos monstros, papai? No monstro de osso?” “Sim, sim, vamos bater em esqueletos também”). Expliquei que precisava rolar os dados para saber se conseguia acertar os monstros, escapar de armadilhas, etc. Os números estavam na ficha, tinha que comparar com os dados (maior que, menor que, etc.), cada jogador tinha a sua vez, essas coisas. O que ele decorou logo nos primeiros combates foi o valor de defesa dele (e dos goblins) e a somar o resultado do dano da espada com o modificador de dano (+3).

No meio do jogo fizemos uma pausa rasteira para um lanche (rasteira por que continuamos comendo enquanto jogávamos), patrocinado por Thaty (conhecida por Thales como mamãe), que argumentou: “sessão de RPG sem lanche no meio não é coisa de nerd de família”. Concordei veementemente, com a boca cheia de biscoitos de leite e Sukita sabor uva.

Ele: "papai, eu quero bater nos três de uma vez!" Eu: "..."

Ele: “papai, eu quero bater nos três de uma vez!” Eu: “…”

Rapidinho estávamos cruzando as salas, com Thales levando seu bárbaro sempre à frente dos combates, perdendo apenas 4 dos seus 16 pontos de vida, enquanto que meu mago chegou ao final da masmorra com apenas 2 pontos de vida sobrando e 1 mísero ponto de magia que mal deu para arranhar o Troll da Floresta (nosso último adversário) – felizmente, Thales era bom de rolagem, tendo inclusive estreado dois sucessos críticos antes da metade do jogo! O troll só aguentou quatro turnos de combate antes de arriar e nos deixar livres para botar a mão nos últimos baús de tesouros, repletos de 1d[várias] moedas de ouro, prata, jóias e um mapa para a caverna onde os monstros escondiam mais tesouros.

A sessão terminou por ali, mas tive que prometer continuá-la no dia seguinte…

Não sem controlar algumas lágrimas nos olhos, provavelmente por causa da poeira (homem não chora, a menos que ele venha da Terra-Média), guardei todas as peças, lembrando-me que era importante preparar a masmorra com alguma antecedência, anotar estatísticas básicas dos monstros à parte, o efeito das magias (dano, em especial) e que não existe emoção igual à de ter um pedacinho de você curtindo junto uma coisa que você gosta…

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10 comentários sobre “Masmorras & Dia dos Pais

  1. ahhaha cara gostei muito do seu post

    Vivo mestrando o quest e ja fiz mais de um netbook pra ele, foi com ele que consegui trazer varios amigos novos para o jogo e o que mais indico para apresentar jogadores novos e mestrar rapido.

    Po, todo jogador novo tem sorte paks né? ahhaha

    abç

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  2. Petras, que massa seu filho sendo iniciado no RPG por você cara!! Amei sua história!! Viajei no tempo vendo vc lá na faculdade com suas peças e, tentando inutilmente, me explicar um pouco do que diabos era o RPG…Adorei o texto, adorei sentir a sua emoção com o seu filho. São essas pequenas coisas do cotidiano que nos fazem tão felizes em viver com eles, não é?! Um forte abraço!

    Andréia

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    • Nossa, obrigado pelo comentário, Déia! E sim, é impressionante como as menores coisas ao lado deles ganham dimensões inusitadas – e até inimagináveis – não existe emoção igual a de ter um filho (ou filha, enfim). Abração!

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    • Ah, que legal, cara – eu sei que em termos de gostar de desenhar (e de ser legal, de uma maneira mais ampla) ela não poderia ter um pai melhor! E felizmente, Thales já meio que nasceu com um pezinho no rock (você pode ouvi-lo cantarolando “We Will Rock You” até durante o sono)…

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  3. Ah… Como foi bom ver essa cena, Petras. Eu passei por caminhos semelhantes aos seus e sem meus filhos jamais teria conseguido retornar ao principio e cumprir parte de minha missão terrena. Fico feliz por você ser esse pai maravilhoso que você é, e mais: Desejo que essa dedicação que você demonstra por sua família seja o diferencial do seu futuro, criativo, produtivo e cheio de emoções boas como a que você demonstrou na sua narrativa.
    Abraços afetuosos.

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