Fanhunter

Eu acho que já devo ter falado um bocado deste RPG em pelo menos meia dúzia de posts, mas nunca cheguei a me aprofundar. Bom, isso agora vai mudar.

Intitulado “O Jogo de RPG Épico-Decadente”, Fanhunter é baseado nas tirinhas de Cels Piñol — um desenhista e roteirista de quadrinhos espanhol, autor da série original, que começou sua vida em fanzines e migrou para séries tradicionais de quadrinhos, álbuns de luxo e finalmente (o ápice da evolução narrativa) jogos de RPG.

O QUADRINHO

Fanhunter é ambientado no mundo criado por Cels — onde um maluco visionário viciado na obra de Phillip K. Dick, chamado Alejo Cuervo bombardeia o Vaticano, torna-se o novo Papa, Alejo I. Em seguida, decide conquistar a Europa (subornando os governos que não conseguiu corromper), espalhando pelo seu domínio a “Lei de Dick”, que torna ilgal todas as formas de sub-cultura (como vídeo-games, quadrinhos, RPGs e amarelinha), permitindo apenas a música sacra e os livros de Phillip K. Dick (que ele adora como se fossem escrituras sagradas). Do alto de Barnacity (a antiga Barcelona e nova capital da Europa) ele cria os Fanhunters, uma tropa de soldados especializados em caças as últimas formas de resistência ao seu poder : otakus, leitores de quadrinhos, jogadores de RPG e vídeo-games e nerds de uma maneira geral.

Os grupos e participantes da resistência, com nomes como “V”, “Mash”, “Konstantin”, “Equipe A” ou “The Rock”, celebram a cultura geek e descem o cacete nos fanhunters, com a ajuda (por debaixo do pano) da Federação dos Planetas Federados, uma união de nações galácticas que quer auxiliar a Terra a entrar na sua comunidade (mas primeiro a gente que limpar a roupa suja).

Rolmasters, grupo da resistência formado exclusivamente por jogadores de RPG que vivem seus personagens 24 horas por dia. Liderados por Paconan, o Bárbaro.

O quadrinho tem traços simples mas eficiente, faz milhões de menções e referências a mais elementos de cultura geek e nerd (seja lá qual for a diferença) e uma narrativa do cacete. O mais importante de destacar nesta obra é que na luta contra o totalitarismo cultural de um governo desmedido, a luta contra ele é levada a cabo por DJs, desenhistas de quadrinho, cinéfilos, jogadores de RPG e otakus, cujo tesouro de conhecimento de sub-culturas os faz lutar contra a opressão.

É isso aí, galera: neste RPG, nós somos os heróis (sabe deus como!).

O RPG

Longe de ser um sistema complexo, a mecânica de Fanhunter é simples que dói: pilhas de dados (vindas de Atributos e Habilidades), somadas para bater um número-alvo ou a pilha de um oponente. Ele tem oito atributos, com valores que vão de 1 a 5 , chamados de Combate, Disparo, Músculos, Reflexos, Neurônios, Coragem, Carisma e Empatia, além de três Habilidades ligadas a cada Atributo. O mais interessante são as descrições dos atributos e dos seus níveis. Dois exemplos:

Combate: a capacidade de abrir cabeças. Alguém com Combate 5 usa um colar com os dentes do Exterminador do Futuro. Alguém com Combate 1 — bom, não é que seja incapaz, o negócio é que ele não tem braços.

Carisma: a capacidade de influenciar outras pessoas, despertando-lhes a simpatia e boa vontade. Alguém com Carisma 5 pode convencer um júri que assassinato com tortura e mutilação é uma forma aceitável de comportamento social. Alguém com Carisma 1 tem que sair na rua com um saco na cabeça para evitar ser apedrejado pelas crianças. “

E assim por diante. O livro inteiro é marcado por citações dos personagens dos quadrinhos e dicas. Os personagens são chamados de narigões (vide ilustração abaixo), devendo escolher o modelo do personagem entre um conjunto de arquétipos (Mercenário, Policial, Investigador, Cientista, Rebelde, Super) e dependendo da escolha, super-poderes e magia. Eles também podem escolher vantagens e desvantagens — muito fuleiras, diga-se de passagem — para incrementar. Como no mundo de Fanhunter existe um certo avanço tecnológico, derivado do contato com civilizações mais avançadas e entidades extradimensionais, a seção de equipamentos é no mínimo curiosa.

Membros da Resistência: Bêlit, John Konstantin, Ridli Scott, Don Depressor e Milton O’Rourke, o X-tranho.

Vários módulos extras trazem regras para combate com miniaturas (pasmem!), aventuras, expansões de regras, super-poderes e magia extras, novos arquétipos e até um guia completo de Barnacity, onde ocorre toda a ação em Fanhunter — sempre mantendo a mesma simplicidade de regras e a linguagem divertida e repleta de referências. Gerou ainda RPGs spin-offs: Outfan, que destaca o universo da citada Federação do Mundos Federados e  brinca com todos os universos narrativos geeks da ficção científica, misturando Guerra nas Estrelas, Jornada nas Estrelas, Babylon 5, Battlestar Galactica, Flash Gordon e tantos outros que precisariam de um post só pra eles — e Fanpiro, que é uma referência a um jogo sobre… bem, imagine só!

Capa Fanhunter

Uma das capas de Fanhunter: mera coincidência?

Para terminar, deixo a citação de um dos participantes da batalha em que morrerram 90% dos membros da resistência, na tentativa final de derrotar Alejo I:

“Krom, você sabe que eu não costumo rezar pedindo por nada, mas amanhã ao amanhecer, dez mil guerreiros atacarão com suas espadas um inimigo cinco vezes mais numeroso, e armado com metralhadoras. amanhã lhes ensinaremos como morrem os homens. Dá-nos sua bênção. OU EU VOU LHE BUSCAR NO INFERNO!” — Paconan, o Bárbaro

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