Contradança

Eu sempre tive a impressão – nem sempre nítida – de que o mundo se move em um ritmo, como em uma canção, como em uma dança. E eu vou te contar, eu sou um péssimo dançarino, para não dizer músico. Nem no chuveiro eu canto. Não escapa nem canção de ninar para Thales.

Talvez seja por isso que eu me demoro tanto a tomar decisões, definir rumos e prumos para minha vida. Talvez seja por isso que eu levei quase vinte anos para terminar minha faculdade (que, venhamos e convenhamos, não é exatamente um desafio), conseguir uma vaga em um concurso (na verdade, concorrer a uma vaga em um concurso, já que eu não me animava sequer a me inscrever em um) e decidir exatamente o que fazer da vida – sabe, como em “casar ou comprar uma bicicleta”.

E quando eu finalmente consigo, fico com aquele gosto amargo de que talvez já seja tarde demais, de que talvez não faça mais sentido (ou, pelo menos, tanto sentido). Aquela impressão de tempo perdido, ou pior ainda, de futuro perdido.

Sim, eu sei – não é como se eu não fosse capaz de seguir adiante, de levar uma vida razoavelmente boa, com uma esposa que eu amo e que me acompanha em todos os aspectos da minha vida e um filho que só poderia ser mais especial se tivesse nascido com asas ou lançando rajadas de energia pelos olhos (definitivamente, não seria uma boa para os pediatras).

Mas fica a impressão – passageira, mas enfim – de que as coisas poderiam ser melhores se eu encontrasse um pouco mais de foco ou de decision-making em minha vida. No final das contas, esse rant é mais sobre o que eu deixei de fazer, e portanto potencial, e portanto tão importante quanto “o que teria acontecido se Pangea não houvesse se separado”. Não é um fato que possa ser mudado, ou mesmo extrapolando mudanças, e asim, qual a sua importância para a realidade?

Embora eu possa aprender com o passado, ele é como um abismo – distante, obscurecido pelo tempo e impossível de preencher. E as palavras do alemão maluco me vêm à mente: “Se você observa o abismo por tempo demais, ele se torna você.”

No final das contas, isso tudo é apenas um rant, uma reclamação aberta a quem interessar possa. Uma forma de dizer “meu dia não começou bem”, e na verdade querendo dizer “minha vida não começou bem”, só que não é bem assim. Ela até que começou bem, mas no meio da valsa eu perdi o ritmo, e levei muito, muito tempo para reencontrá-lo.

E só temo pelos pés da minha parceira de dança nesse meio-tempo.