Revival

Não teve jogo no sábado de novo, mas pelo menos foi por um bom motivo — o aniversário do Yuti. Com toda a nerdezada reunida, conversamos sobre o Nerd Day (nomeado por insistência de Thaty, já que eu acho que deveria se chamar de Nerdfest. Ela diz que fica parecendo carnaval fora de época, sei lá) que eu e a Thaty estávamos bolando, e não é que o Gabra ficou entusiasmado também? Pra quem não sabe, chupamos essa idéia do Blog do Tio Nitro, que fez algo parecido.

Enfim, lá na festa mesmo, combinamos para jogar na segunda-feira, já que seria feriado devido ao Sete de Setembro (dia nacional de desfile de roupa camuflada, segundo o Dudu). O Yuri já tinha compromisso, mas o Gabra e o Ricardo se comprometeram. Misael achou que poderia ir, mas como deixou para sair do longínquo Reino da Redinha de última hora, topou com um engarrafamento digno de evacuação iminente de ataque nuclear. Então foi só a Thaty (óbvio!), Dudu, Dana, Gabriel, Ricardo… e Kátia! Pois é, a Sra. Anaya veio jogar. Como era um dia especial, resolvi fazer um revival de Shadowrun e rolar um one-shot. Desenterrei as velhas fichas e começamos.

Kátia pegou a primeira personagem de Shadowrun da Dana (que ficou com sua adepta somática samurai de rua espadachim dos infernos), uma xamã de rua curandeira e extremamente espiritualizada (praticamente uma clériga de D&D), Dudu pegou seu velho tecnomante (que ele não lembrava mais como funcionava, e para ser sincero, eu também), Gabra e Ricardo voltaram ao casal Hector Alcaraz/Martha Gray (ou Martha Bakuda, como o próprio Ricardo diz, uma adepta somática Ork de Carisma 2 — feia feito o cão e graciosa como um caminhoneiro bêbado com Mal de Parkinson) Hector é um Mercenário com ciberimplantes até os dentes, e a força de um trator. Sua irmã, Catalina, interpretada pelo meu chuchuzinho, não fica atrás: 0,68 de Essência (ou seja, se ela colocar os brincos, morre) de pura maldade e ciber-lâminas.

Como não tive tempo de planejar a aventura direito — e era só um one-shot mesmo —, improvisei a partir de um dos flavour texts que abrem os capítulos do livro da 4ª edição de Shadowrun: a equipe é contratada para sabotar o lançamento de um refrigerante da concorrência, colocando um agente que mudará seu sabor, deixando-o intragável. Parece simples, mas as palavras “vai ser fácil” são mais assustadoras para um shadowrunner que “confie em mim”. E nada sai como planejado, mas eles improvisam muito bem e acabam se safando, graças ao elemental do fogo da xamã e à pontaria certeira do irmãos Alcaraz, sem falar no tecnomancer, que conseguiu rasgar, literalmente, a segurança digital do laboratório de refrigerantes e colocar as duas shadowrunners no local sem problemas.

No final das contas, foi divertido, mas demorado: normalmente jogamos das 15:00h às 19:00h, mas nesta segunda fomos até as 21:00h. Que susto! Fiquei com vontade de fazer outros one-shot, em especial para mestrar um monte de jogos Indie que o Gabriel me arrumou, e alguns que eu planejei e nunca mestrei, nestes últimos anos.

Mas valeu só pela reunião do pessoal que há muito tempo não víamos, por ver Martha e Hector falando sacanagem de novo, pela rolagens de quantidades absurdas de d6 e pela furada da noite (“ele é um verdadeiro tripé humano!”) — sempre tem uma, mas desta vez foi da Thaty.

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Como comecei nesta vida

…de RPG, é claro.

Eu tinha o quê, dezessete, dezoito anos, e tinha acabado de entrar na ETFRN, que na época era uma espécie de Fortaleza da Solidão para os nerds. Todo mundo que era legal, inteligente e – digamos… alternativo – estudava lá. E era tão bom, que você passava o dia inteiro naquela bendita escola e não notava.

Entre outras coisas, eu tinha vários amigos, mas havia um grupinho fechado específico, aquela galerinha que sempre saía junta. E um deles, como eu, também gostava de escrever. E um pouco antes, havia escrito uma pequena estória em capítulos curtinhos, para a namorada dele e uma amiga. Quando ele me contou, veio o estalo: que tal fazer isso a duas mãos?

Nascia aí uma pequena crônica de uma comunidade de seres sobre-humanos, misto de X-Men, Arquivos X e novela das seis (ainda não existia Malhação). Todos os personagens eram baseados na turminha que sempre conversava e saía junta, e todos os eventos – escrevíamos um episódio por semana, com umas cinco páginas cada – eram diretamente influenciados pelo que acontecia na semana.

Assim, se alguém tivesse um arranca-rabo com o coordenador do curso no mundo real, era sua contra-parte que estava sendo atacada pelos ameaçadores soldados da Espiral Negra, a força paramilitar de elite secreta da ONU que tentava exterminar todos os para-humanos genemax (nossas contrapartes na estória). E rapaz, era divertido. Todo mundo curtia, exceto por uma namorada que eu tinha à época, que brigou com a turma e exigiu que eu retirasse a “personagem” dela da estória. Ela saiu, mas a estória ficou.

A cada semana, nós alternávamos a autoria entre eu e meu amigo, sempre seguindo de onde o outro havia parado. Nesse meio-tempo, os personagens se reuniram em Nova Iorque, vindos de vários locais do mundo, tiveram romances, invadiram escolas e mansões para salvar para-humanos ameaçados, fugiram para a Europa através de teleporte em massa, duelaram cantando pneus nas estradas de Paris a bordo de uma Ferrari Warp, a 400 km/h, morreram, renasceram, morreram de vez, bateram de frente com o comandante da Espiral Negra, foram auxiliados por uma dupla de supermodels para-humanas, invadiram o quartel-general da Espiral – Enfim. Foi muito divertido.

Nos reuníamos assim que cada capítulo ficava pronto e líamos, todos juntos, cada um se exaltando com o que fazia seu “personagem”. E dávamos pitacos no que ia acontecer no próximo capítulo, quem íamos encontrar, para onde viajar… Era muito, muito bacana.

Pouco depois, saiu uma revista da linha da Superinteressante, uma edição especial de jogos. Tinha variações de jogos de lógica, palavras cruzadas, e… um RPG. Era uma aventura bem simples, criada pelo pessoal que depois viria a lançar o primeiro RPG nacional, Deimos Corporation. O sistema de jogo era tosco e cheio de falhas, mas era um jogo de RPG, e lembro que eu e o Misael mestramos a mesma aventura um para o outro até a exaustão. Aí o Betho-San entrou na jogada, seguido pelo André Farkatt. Sabíamos que existia um pessoal no eixo Rio/São Paulo jogando um tal de Dungeons & Dragons, graças ao fanzine/boletim da Devir, O Recado, mas todo mundo era duro naquela época e só tinha grana para comprar um quadrinho importado por mês, se tanto. Então era improvisando nas regras que vinham com a revista que saciávamos nossa sede recém-descoberta por RPG.

Em 1991, quando já não aguentávamos mais usar o sistema da aventura – todo remendado para incluir regras para magia, psiquismo e viagem no tempo -, o pai do Misael trouxe a primeira edição do GURPS em português (era a 2ª edição norte-americana), vinda direto das Comic Shops de São Paulo. Misael largou o livro nas minhas mãos e disse “vai, mestra alguma coisa”.

E estou nessa até hoje. Lá se vão… nossa, quase vinte anos. E sem nenhuma gota de arrependimento.

Mais Fichas de personagens

Como prometido, aqui vão algumas fichas de personagens que produzi nos últimos anos:

Shadowrun 4ª Edição: a ficha padrão para preencher e ser usada nos jogos. Foi sucedida por uma versão em MS-Word. Prática e simples. A versão Word é mais simples ainda, e moleza de preencher.

Shadowrun 4ª Edição (para eventos): Uma coletãnea de personagens, que seriam usados no penúltimo Trampolim da Vitória (que não pude ir, infelizmente) em uma mesa de jogo experimental. Como os personagens já estavam prontos, há apenas as estatística principais, sem informações mais detalhadas, e voltada para o uso de iniciantes.

Cyberpunk 2020: Feita para minha última campanha de CPunk 2020 (obviamente), onde os jogadores faziam parte de uma banda de rock que havia sido “absorvida” por uma mega-corporação para ser seu novo sucesso das paradas. Não durou três sessões. Mas eu gostei da ficha.

Elíhria (Fuzion): criada para alguns dos últimos momentos em que joguei na lá legendária campanha do Gabriel nas terras do Rei Peregrino, ela foi uma tentativa tosca de fazer uma ficha indie-style, seguindo o ideal freeform do Fuzion. Não é lá essas coisas, mas aí está.